Cinco décadas de carreira e uma vida dedicada ao universo musical

A CULT! Produções destaca a história do percussionista Marcelo Costa, que já tocou com nomes como Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia e Marisa Monte

O Universo reúne diversos astros. São planetas, cometas, estrelas, galáxias, nebulosas, satélites, dentre outros. Na música não é diferente. Quando um grande astro como Gilberto Gil sobe ao palco, está rodeado de uma constelação de músicos. O cantor é mais visado pelo público. É o sol, o astro rei, quem mais brilha. Entretanto, não brilha sozinho. Não haveria show sem o talento de músicos estrelados.  Na explosão de luzes, cada um brilha à sua maneira.

Um dos músicos mais requisitados por grandes astros é o percussionista Marcelo Costa. Carioca da gema, se viu orbitando shows de nomes que vão de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e outros tantos. Ao longo de 50 anos de carreira, o músico é hoje um dos mais requisitados pelas lendas da MPB.

Para alguns, estar no universo da música requer muito esforço e dedicação. Para outros, acontece de forma simples, quase tão natural como um caminhar. É quando a “sorte” bate à porta, encontra um músico brilhante e deixa aquela sensação de “ah, foi a vida que quis assim”.

Ao fundo, o percussionista Marcelo Costa. (Foto: Nay Kim/Cult! Produções)

Mas, não é tudo obra do acaso. Apesar da mãozinha generosa do destino, foi o talento de Marcelo que despertou a atenção de grandes nomes da música. Com sua carreira magistral, é sempre modesto ao falar sobre seus trabalhos. “Eles são sempre os criadores e eu estou perto dos astros. Eu sou um satélite, entendeu? Então eu dependo de ser chamado, eu dependo de a pessoa me querer”. E não falte quem o queira. A presença de Marcelo é a certeza de um grande espetáculo.

Ao resgatar a carreira do artista, fica claro que ele é mais do que um corpo celeste orbitando outros astros. Ele carrega em si um Universo de riqueza musical. Baterista e percussionista, ele percorre o Brasil e o mundo tocando música de altíssima qualidade, acompanhando grandes nomes que somam quase 50 anos de carreira, tornando-o um dos músicos mais queridos e solicitados pela nata da MPB.

Gilberto Gil e Marcelo Costa. (Foto: Arquivo pessoal)

O garoto de Ipanema encontra a música

Nascido em 1960, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), Marcelo começou cedo a ter contato com a arte. Cresceu no bairro de Ipanema em uma época fervilhante da cultura nacional, uma sorte geracional que o impactaria anos mais tarde. O garoto de Ipanema, como ele se denomina, ganhou aos quatro anos do pai um agogô, e depois, deixou o talento tomar conta e adentrou neste mundo. Tocou por cinco anos na banda do colégio no qual estudava, o Brasileiro de Almeida.

Aos 14, começou a ter as suas primeiras experiências artísticas como integrante da banda A Barca do Sol. Era uma situação da qual Marcelo não tinha noção da grandiosidade, ao entrar no meio artístico tão jovem. Segundo ele, era normal aparecer em programas de televisão à noite e na manhã seguinte, mergulhar nos estudos. “Eu aparecia no Fantástico às 9 horas da noite e, às 7 horas da manhã, eu estava batendo ponto, tendo aula de matemática, de geografia e de história”.

Marcelo Costa e Maria Bethânia. (Foto: Arquivo pessoal)

A Barca do Sol, formada em 1973, contou também com outros músicos geniais, como Muri Costa (irmão de Marcelo, que anos depois também acompanhou grandes nomes da MPB, como Dorival Caymmi), Nando Carneiro, Beto Rezende, Marcelo Bernardes e Marcos Stul. Com três discos gravados (A Barca do Sol, de 1974; Durante o Verão, de 1976; e Pirata, de 1979), a banda ficou rotulada como rock progressivo – classificação que é questionada por Marcelo, para quem o estilo ia muito além.

“Achavam que a gente tocava rock progressivo, mas não tinha nada a ver, é uma verdade que não existia. Tanto que no primeiro disco eu nem toquei bateria, eu tocava só percussão”, recorda o artista, que também revela que a inspiração vinha do que era produzido em Minas Gerais. “Eu acho que a gente se baseava muito na música mineira, mas eu não sei o nome ou qual estilo é esse. Então, não tem muito um nome para dizer. Mas, se você dissesse que era uma banda que tocava a música mineira feita na época, eu vou concordar”.

Costa, com Caetano Veloso. (Foto: Arquivo pessoal)

A vida em meio às estrelas

Dois anos depois de começar a tocar com A Barca do Sol, Marcelo teve sua primeira atuação profissional (seu primeiro cachê, relembra). Com apenas 16 anos foi convidado para gravar o disco Limite das águas junto a um dos maiores nomes da música brasileira, Edu Lobo. Mas, por mais que a experiência tenha sido nova, a vida trouxe um destes momentos de coincidência que deixa tudo mais confortável. “Por acaso, eu fui gravar no mesmo estúdio que a gente (A Barca do Sol) gravou o primeiro disco, então eu entrei no estúdio e já sentia ali uma segurança, eu já conhecia aquele lugar, e eu conhecia quase todas as pessoas que estavam gravando”.

Em 1979, participou da gravação do primeiro LP do grupo Boca Livre, tocando as músicas “Toada” (Zé Renato, Claudio Nucci e Juca Filho) e “Quem tem a viola”, de Zé Renato, Claudio Nucci e do letrista Xico Chaves, considerados os primeiros sucessos deste grupo que, mesmo de forma independente e sem o auxílio de grandes gravadoras, ultrapassou a marca de 100 mil cópias vendidas. Para ele, esse disco foi o responsável por abrir as portas para um outro universo musical.

“Eu acho que aquele primeiro disco do Boca Livre foi visto por muitos produtores, muitos músicos e por muita gente do meio, não só pela pelo público em geral. Aquilo me colocou num outro lugar na vida da música brasileira”, avalia.

A partir daí, a carreira deslanchou, e trabalhar com grandes estrelas da MPB virou rotina. Com seus 20 e poucos anos, por meio do cantor Vinicius Cantuária, foi convidado a tocar com Caetano Veloso e selou uma parceria que durou 18 anos.

Seu trabalho como percussionista e baterista também faz parte de gravações de outros grandes nomes, como Adriana Calcanhotto, Lulu Santos, Marisa Monte, Gal Costa, Chico Buarque, Zizi Possi, Maria Gadú, entre outros. Hoje, faz parte da banda fixa de Gilberto Gil (que esteve presente em Curitiba em outubro de 2022, em dois shows produzidos pela CULT! Produções) e Maria Bethânia.

E toda a luz do talento de Marcelo não brilhou somente em terras tupiniquins, as participações internacionais também constam em seu currículo. Foram colaborações em músicas de Jorge Drexler, Ryuichi Sakamoto, Lee Ritenour, Dave Grusin, entre outros.

Dentre esses, ele relembra com carinho a surpresa que foi tocar com Norah Jones. A cantora estava em turnê mundial e em cada país que passava, escolhia um músico para tocar em seu show, e adivinha qual foi o músico escolhido quando Norah estava no Brasil? Para Marcelo, a surpresa foi imediata, e logo após, a apresentação ficou registrada em um disco.

“Um ano depois chegou uma mensagem para mim dizendo ‘olha, a Norah vai lançar um disco ao vivo da turnê que ela fez pelo mundo. Ela gravou todos os shows e selecionou as melhores apresentações de cada música, em cada cidade, e tem uma música que é do Rio de Janeiro e você aparece tocando’ […] eu estou no disco da Norah!”, recorda.

Outros seres de luz do universo

Para celebrar seus 45 anos de carreira, lançou o disco Marcelo Costa; Vol. 1, lançado pela gravadora Biscoito Fino, uma coletânea que reúne registros feitos em estúdio entre os anos de 1994 e 1999.

O disco possui 12 faixas e conta com a participação da nata da MPB. Pela primeira vez, Marcelo se arrisca nos vocais e na faixa “Na Cadência do Samba” faz uma homenagem a um dos artistas que ouvia na infância, o cantor e compositor Ataulfo Alves. “Antes de saber ler, eu tinha um disco do Ataulfo Alves, que eu já sabia a ordem toda: qual era a música que ia entrar, qual era a seguinte, etc.”. A faixa ganhou clipe, com direção e fotografia de Batman Zavarese.

Além de Na Cadência do Samba, o disco traz as faixas com participações de Caetano Veloso (Meu Bom), Gal Costa (Beija-Me), Adriana Calcanhoto (Do Fundo do Meu Coração), Lulu Santos (Ele Falava Nisso Todo Dia), Toninho Horta (Igreja do Pilar), dentre outros.

“O disco todo é uma produção do meu gosto pela música, do meu amor pela música. Eu não componho, mas fui eu que sugeri a música que a pessoa ia cantar, e tem pessoas que cantam de compositor próprio. É um disco todo artisticamente dirigido por mim, no estúdio os arranjos todos passaram por mim”, explica. Este primeiro disco, conta com uma edição japonesa e, segundo Marcelo, ainda em 2023, será lançado o Vol.2, com lançamento também no Japão.

Assim, tal qual um verdadeiro astro celeste, Marcelo tem esse dom de irradiar luz com seu talento e de reunir outras estrelas à sua volta. Que continue brilhando e iluminando a música brasileira.

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