Desconexão

Não posso falar pelos outros, mas digo por mim: eu vivia muito mal. A viagem é uma oportunidade de entender isso

Tenho problemas sérios de insônia há muito tempo. Piorou com a idade e com a pandemia. Piorou também com a vida de professor – chegar em casa depois das 23h e acordar cedo no dia seguinte é a realidade para quem está em cursos com turnos diurnos e noturnos. Há muitos professores com problemas de insônia.

Tentei soluções de todos os tipos: psicoterapia, meditação, médicos e uma infinidade de medicamentos, dos fitoterápicos aos tarjas pretas. E assim fiquei viciado no aplicativo que acompanha o reloginho chinês.

Estes reloginhos, os smart watchs, são as tornozeleiras eletrônicas que estão no pulso da vida moderna. Vão mostrando que você está sedentário, que você não dorme direito, que é estressado. É um vício meio sádico, mas há um lado bom: o reloginho mostra a realidade – você tem um problema para resolver.

Hoje, acordei e olhei para o reloginho. Na escala do sono, que vai de 0 a 100, ganhei pela primeira vez em três anos, desde que comprei a tornozeleira, a nota 99. Ao lado de uma carinha com um sorriso, o aplicativo me diz que dormi melhor que 99% dos usuários. Dormi cedo e acordei cedo. Foram inesquecíveis oito horas e vinte três minutos de sono. Estou disposto, contente, reconectado com o meu corpo. Tudo isso será por conta da viagem que faço agora? Certamente. Mas não só.

Em uma viagem longa de motorhome, o lado prático da vida muda bastante. A Internet se torna instável. Às vezes, quando acampamos nos parques, fica completamente inexistente. Passamos três dias em uma floresta sem qualquer Internet – creio que desde quando a Internet entrou na minha vida, lá no final dos anos 90, não me lembro de ter passado tanto tempo off-line.

Há mais. Desde adolescente, sou um viciado em notícias. Meus pais assinavam vários jornais e revistas, havia os canais de notícia da TV a cabo. Quando a Internet chegou, o tempo diário para acompanhar tudo aumentou drasticamente. E se tornou caótico com as redes sociais. Agora vejo, por diversos motivos, que ser bem (mal?) informado não é uma boa ideia. Não me entendam mal, as notícias são importantes, não defendo a alienação. Mas elas são somente um recorte possível de um lugar. Já estou há mais de um mês fora do Brasil e o tamanho do mundo muda muito. Com a instabilidade da Internet, é inevitável que fiquemos mais seletivos com as notícias.

Quando a conexão fica boa, aproveito para ver onde comprar combustível, o lugar mais barato para abastecer a geladeira ou arrumar o óleo do gerador, a hora de fazer câmbio na conta em dólar, o próximo lugar em que iremos dormir. A Internet existe para resolver o aspecto mais funcional da vida – simplesmente não há tempo para as guerras de um dia do Twitter (e que justamente por durarem um dia, são absolutamente inúteis).

Sim, continuo usando as redes sociais, mas dou prioridade para as conversas com quem tenho proximidade e não para a navegação a esmo, desordenada. O sábio Calligaris dizia que não conseguir prestar atenção na vida é uma das coisas mais perigosas que existem. Ficamos à deriva, desperdiçando o bem mais valioso de todos, o tempo. No livro póstumo de Calligaris, “O sentido da vida”, ele faz uma consideração sobre as pessoas que fazem selfie no museu. Elas ficam de costas e não observam o quadro – somente a imagem da telinha. Ficamos de costas para a vida.

A viagem me trouxe uma mudança inevitável e radical do cotidiano. Estou menos ansioso. Sinto menos fome e, ainda que não tenha encontrado uma balança há muito tempo, pelo que a cinta da minha calça mostra, aparentemente perdi peso. E o sono é o melhor em décadas.

Não posso falar pelos outros, mas digo por mim, vivia muito mal. A viagem é uma oportunidade de entender isso. Aliás, desconfio que a urgência contemporânea de viajar tem algo a ver com um vislumbre de que outra vida é possível. Mas posso assegurar: não é preciso viajar para descobrir isso. Basta um pouco de honestidade consigo mesmo.

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