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Cineclube estreia com mostra de Fernando Severo

Fernando Severo. Foto: Joel Rocha/Revista Helena
Escrito por Rogerio Galindo
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Pedro Almodóvar diz que fazer cinema na Espanha é como ser toureiro em Madri. Ter uma carreira de cineasta no Paraná talvez seja  parecido com fazer touradas na Índia. A lista dos que sobreviveram e conseguiram construir uma obra de respeito, com alguma projeção para além do Atuba, é curta.
Um desses é Fernando Severo. Dono de prêmios em festivais importantes, como Gramado, conseguiu manter uma produção longa e de qualidade nos curtas de ficção; fez um longa premiado; trabalhou com documentários; e cultivou o cinema como professor e diretor do Museu da Imagem e do Som.
Nada mais justo que seja ele o primeiro homenageado do novo cineclube que está sendo criado em Curitiba, o Aurora. A mostra inicial do cineclube colocará em debate os filmes que Severo fez ao longo dos últimos 40 anos.
Qual a importância de um cineclube como este em Curitiba?
Os cineclubes e cinematecas sempre representaram na história do cinema locais que agregam cinéfilos, críticos e apreciadores não especializados, o que costumeiramente acaba desembocando em processos de criação artística. O círculo de amigos que Mário Peixoto formou no Chaplin Clube no Rio de Janeiro foi fundamental para a realização do mitológico “Limite” (1931), eleito numa enquete da Abraccine o melhor filme brasileiro de todos os tempos. A Nouvelle Vague se formou em torno da Cinemateca Francesa e a Cinemateca do MAM foi muito importante para o pessoal do Cinema Novo. Os debates que os cineclubes tradicionalmente promovem fomentam a a circulação de novas ideias, e não só sobre o cinema. Sylvio Back e Paulo Leminski frequentaram o Cineclube Pró Arte, que funcionou nos anos 1960 no Colégio Santa Maria.
A arte paranaense, incluindo o cinema, tem dificuldade em concorrer com os produtos dos grandes centros do país. Por que isso?
Isso resulta de uma infeliz tradição cultural brasileira que se consolidou em função do epicentro político e cultural do país e as grande corporações da mídia estarem estabelecidos há décadas no eixo Rio-São Paulo. No caso específico do cinema o processo é agravado pelo fato de que as grandes distribuidoras de filmes, que estabelecem o que vai passar nas salas de cinema, são inimigas históricas do cinema brasileiro. O fato de não existir no Paraná uma produção regular e constante dificulta ainda mais que se conquiste um nicho de mercado. Já no plano cultural percebe-se a abertura de novas perspectivas, o cinema mais vigoroso e consagrado internacionalmente que se faz hoje no Brasil vem de Minas e Pernambuco, Filmes paranaenses tem conquistado importantes prêmios no Brasil e no exterior, além de já termos produções locais circulando em festivais internacionais de primeira linha como Cannes, Veneza, Locarno, Rotterdam e Sundance.
No teu caso, qual a importância de ter uma retrospectiva a essa altura da carreira?
Fiquei muito feliz e tocado com essa oportunidade de mostrar para um público contemporâneo uma parte da minha produção ao longo de quatro décadas, enfrentadas com muita determinação num panorama frequentemente inóspito e nem sempre acolhedor. A maneira sensível e inteligente com que a curadoria agrupou as obras e o diálogo estabelecido com o trabalho de cineastas como Glauber Rocha e Werner Schroeter, grande influência em minha carreira, permite que eu mesmo reveja os filmes programados com um salutar olhar renovado. Vários colegas talentosos abandonaram a labuta cinematográfica diante das dificuldades enfrentadas, é uma sensação boa olhar para trás e ver que valeu a pena eu ter persistido, realizando filmes que ainda dialogam com os espectadores nos dias atuais e vão continuar vivos mesmo quando eu não estiver mais por aí.
Quem selecionou os filmes?
Dei total liberdade de escolha e acesso aos idealizadores e curadores do Cineclube Aurora, Cristiane Senn, William Biagioli e Tomás Von Der Osten. Achei uma honra ter sido escolhido para dar início às atividades do cineclube, principalmente porque o Museu da Imagem e do Som do Paraná é um dos lugares mais importantes da minha vida, foi nele meu primeiro emprego com carteira assinada e fui seu diretor durante cinco anos, promovendo em minha gestão o restauro minucioso do histórico Palácio da Liberdade, sua sede atual. Os curadores são figuras de destaque em nosso cinema, William teve uma retrospectiva de seus filmes exibida na Cinemateca Francesa, em Paris, e Tomás vai anunciar em breve a seleção de seu novo filme em um importantíssimo festival europeu. Atualmente à frente da direção do MIS-PR, Cristiane Senn tem conduzido um relevante trabalho que resgata a instituição do injusto ostracismo a que foi relegada nos últimos anos. A parte logística está sendo organizada por Ana Paula Málaga Carreiro, que tem uma carreira de destaque na produção cinematográfica.
De todos os teus trabalhos, tem um favorito? Sempre ouço você falar do Kozák com um carinho particular.
Eu diria que “O Mundo Perdido de Kozák” é o filme do meu coração, aquele com o qual tenho os maiores vínculos emocionais. Mas considero “Visionários” minha obra mais satisfatória, onde meu olhar sobre o mundo atingiu maior harmonia entre forma e conteúdo.
Como você vê o cinema nacional neste momento de ataque às leis de incentivo e à cultura em geral?
O panorama é desolador, a guinada à extrema direita no país abriu espaço para que os segmentos mais reacionários da sociedade, sempre hostis à arte e à cultura, tentem apagar e destruir impiedosamente políticas culturais democráticas e inclusivas construídas ao longo de muitos anos. O cinema brasileiro ciclicamente sofre abalos, como sua quase extinção na era Collor, mas sua grande força vital faz com que ressurja e se consolide mesmo sob o fogo cerrado das cabeças mais mal pensantes deste país. Um dia, espero que em breve, esses propagadores de sombras terão que se recolher de volta às suas cavernas. E nossos belos filmes continuarão a iluminar telas mundo afora.

Serviço

Ciclo Fernando Severo

Quando: de 11 de julho a 22 de agosto

Onde: Museu da Imagem e do Som do Paraná

Entrada gratuita

Programação:

11/7 – Filmes em Super 8 e vídeo

Filmes exibidos: Aluminosa espera do apocalipse (10’) | HU (2’40’’) | Jardins Suspensos (10’) | Visões Secretas (15’) | Escura Maravilha (9’) | Fred Histérico (1’) | Instruções para subir uma escada (5’20’’)

Duração total: 54 min

25/7 (Excepcionalmente, na Cinemateca)

Filmes exibidos: Século XX: Primeiros Tempos (17’) | Os Desertos dias (17’) | Visionários (15’) | Paisagem de Meninos (25’)

Duração total: 74 min

8/8 – Kozak e outros retratos

Filmes exibidos: Introdução ao Acompanhamento Musical de Arnold Schoenberg a Uma Sequência Cinematográfica, de Danièle Huillet & Jean-Marie Straub (16’) | Maria Callas Porträt, de Werner Schroeter (13’) | O Mundo Perdido de Kozák, de Fernando Severo (15’) | Di Cavalcanti, de Glauber Rocha (15’) | O poeta do castelo, de Joaquim Pedro de Andrade (12’)

Duração total: 71 min

22/08/2019 – Carta branca

Filme proposto e comentado pelo cineasta Fernando Severo. O título será revelado apenas no dia e horário da exibição.

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Sobre o autor

Rogerio Galindo

Rogerio W. Galindo é jornalista e tradutor. Responsável pelo blog Caixa Zero, é um dos profissionais que criaram o Plural.jor.br

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