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Caximba: Gaivotta move vidas na comunidade

Escrito por Gustavo Queiroz
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Criadora do projeto “Move Vidas” prima por fazer tudo junto. No letramento, presta tributo a Paulo Freire. Na refeição, em vez de fila, roda em volta do fogão a lenha.

Faz tempo. Foi numa roda de capoeira. Havia uma menina tímida, que acompanhava o movimento de longe, envergonhada com a exposição do próprio corpo. Mas na vez dela, não tinha jeito. O golpe, perfeito, deixava os marmanjos boquiabertos. “Vou te chamar de Gaivotta”, disse o Mestre Urso Preto. “A gaivota fica o dia todo no ponto mais alto da praia, só observando. Quando vê o peixe, desce, mergulha e pega”, concluiu. Ela não sabia se tinha gostado, mas o apelido pegou.

Por causa dessa história, não existe nenhuma moradora de nome Luzia de Andrade Cruz na Caximba, mas não conte para ela. Só se sabe da Gaivotta. A pedagoga, a líder comunitária, a “mulher do projeto”. No ponto mais ao sul do sul da cidade, ela administra uma quadra para jogar bola, uma biblioteca, um centro de captação de água e um bazar. Tudo isso antes da sopa comunitária que oferece na janta.

Gaivotta faz parte de um movimento de mulheres que dedicam a rotina para elaborar uma proposta de apoio comunitário. Um fenômeno nem tão recente, mas às vistas. Na bronca dos conflitos urbanos de que “a grama do vizinho é sempre mais verde”, decidiu trazer o vizinho para o próprio quintal. Resolveu. O projeto “Move Vidas”, que desenvolve na Vila Abraão, um dos redutos da Ocupação 29 de Outubro, não está sozinho. Gaivotta faz coro a outros programas de atendimento, como a biblioteca de Edilaine. Há quem diga que o espírito da Caximba é matriarcal, tantas são as iniciativas comunitárias facilitadas por mulheres.

O projeto

Há lugares na “29” que destoam do bonito marrom do barro da rua e o alto adensamento das casinhas em madeira elevadas em palafitas. O projeto “Move Vidas” está num desses cantos pouco povoados. Há de se andar para o sul, ultrapassar qualquer indicação de esquina e chegar no que seria uma grande avenida rumo ao encontro dos rios Iguaçu e Barigui, se asfaltada fosse. À esquerda, uma profusão de gansos à porta abre caminho para um parque informal, que não consta nos registros municipais, com lago, casinha na árvore, espaço para piquenique e parquinho.

“Move Vidas” é uma das iniciativas mais bem desenvolvidas e de fato comunitárias da ocupação. Começou e se sustenta com o apoio da Associação de Capoeira Arte Raça e, agora, seus líderes fazem o que podem para contornar as dificuldades costumeiras do terceiro setor. Se por um lado depende das doações que nem sempre chegam, por outro, é legítimo, já que a organizadora vive na comunidade e tem formação para o que faz – ela deixa claro, para evitar resistência.

Uma das ações mais notáveis do projeto promove o letramento à moda Paulo Freire, com o uso de elementos da realidade das crianças: a construção, a cava, a pipa. Seguem-se as músicas de roda, as brincadeiras na natureza, a bolinha de gude. “Rapelei as buliquinhas todas”, grita um. Por vezes, há auxílio de voluntárias – moradoras que recebem uma cesta básica e contribuem com o projeto. Também existe uma brinquedoteca e uma quadra, equipamentos raros por ali para as crianças. Logo chega uma ou outra que grita do lado de fora: “Hoje tem projeto né Gaivotta?”, para se certificar. Quando possível, oferece formações sobre educação familiar e aulas de capoeira, que não são destinadas apenas aos pequenos.

Para os adultos, funciona assim: terças e quintas é dia da sopa comunitária. Todo mundo senta na varanda e conta como foi o dia. Cada vez é um que serve o outro. Quando a eletricidade não chega, a comida é feita no fogão a lenha. Sem problema. Todo mundo acha que a sopa na lenha é mais gostosa mesmo. Tem até quem torça para o gás não pegar.

Nos mesmos dias, duas advogadas se revezam para realizar um atendimento comunitário aos moradores. A ideia é tirar dúvidas sobre os problemas legais. Como a questão fundiária já virou imbróglio comunitário, os atendimentos são normalmente relacionados a problemas familiares e criminais. Para fechar a conta, um bazar ajuda a pagar as atividades. Acetona, piranha, sabonete e cadarço é o que mais sai, tudo a 1 real. Doações de roupa são distribuídas.

Começo

A história se repete: quem vê, não sabe dos perrengues que Gaivotta passou para montar “esse bonde”, como identifica. Irmã de seis meninos, trabalhou no interior do Paraná como doméstica, cuidadora e agricultora. Na foto da carteira de trabalho, que tirou aos 15 anos, duas simétricas maria-chiquinhas dão o tom sorridente da adolescente.

Luzia, o nome que a maioria desconhece, chegou à Caximba meio de gaiato. Depois de ajudar em projetos no Tatuquara e trabalhar em uma escola no Xaxim, quis desenvolver a própria proposta pedagógica. No começo eram só aulas de capoeira, dadas numa casa na “29 de Outubro”. Mas as crianças começaram a chegar com fome, descalças ou doentes. Teve que ir além.

Conhecida de um líder local, ajudou a desbravar uma parte ao sul da comunidade, ainda inabitada. Conta a lenda que foram 13 dias e 13 noites de trabalho duro, cavando, aterrando, cortando mato. Ganhou dois terrenos em troca. O resto da propriedade, onde existe o projeto, adquiriu com a pensão que recebeu após o assassinato do marido. Depois de 5 anos, é a única moradora-fundadora que ainda vive nesta parte da ocupação, os demais são calouros.

Para fazer o “Move Vidas” acontecer ali, teve que organizar um método de verificação da participação dos moradores e distribuição de cestas básicas, para ser justa. Também estabeleceu horários de atendimento, para não confundir a vida pessoal com o projeto.

“Move Vidas” virou espaço de eventos. Tem festa caipira – não se chama junina, para não afastar os que não rezam para os santos de junho (Antônio, João e Pedro) –, encontro de Dia das Mães e reuniões comunitárias.

Para o jogo da copa, não sabia se pintava ou se cortava o cabelo. Sem a revisão no pentado, não teria foto. Gaivotta ainda contribui com ONGs que pretendem levar lamparinas urbanas à base de luz solar e centros de captação de água da chuva, já que a água encanada não atende parte da comunidade. É verdade que a realidade não tem permitido fazer tudo o que gostaria. As portas não estão mais abertas todos os dias. Mas alguma sempre estará acontecendo por lá. É só chegar.

A história se repete: quem vê, não sabe dos perrengues que Gaivota passou para montar “esse bonde”, como identifica. Irmã de seis meninos, trabalhou no interior do Paraná como doméstica, cuidadora e agricultora. Na foto da carteira de trabalho, que tirou aos 15 anos, duas simétricas maria-chiquinhas dão o tom sorridente da adolescente.

Luzia, o nome que a maioria desconhece, chegou à Caximba meio de gaiato. Depois de ajudar em projetos no Tatuquara e trabalhar em uma escola no Xaxim, quis desenvolver a própria proposta pedagógica. No começo eram só aulas de capoeira, dadas numa casa na “29 de Outubro”. Mas as crianças começaram a chegar com fome, descalças ou doentes. Teve que ir além.

Conhecida de um líder local, ajudou a desbravar uma parte ao sul da comunidade, ainda inabitada. Conta a lenda que foram 13 dias e 13 noites de trabalho duro, cavando, aterrando, cortando mato. Ganhou dois terrenos em troca. O resto da propriedade, onde existe o projeto, adquiriu com a pensão que recebeu após o assassinato do marido. Depois de 5 anos, é a única moradora-fundadora que ainda vive nesta parte da ocupação, os demais são calouros.

Para fazer o “Move Vidas” acontecer ali, teve que organizar um método de verificação da participação dos moradores e distribuição de cestas básicas, para ser justa. Também estabeleceu horários de atendimento, para não confundir a vida pessoal com o projeto.

“Move Vidas” virou espaço de eventos. Tem festa caipira – não se chama junina, para não afastar os que não rezam para os santos de junho (Antônio, João e Pedro) –, encontro de Dia das Mães e reuniões comunitárias.

Para o jogo da copa, não sabia se pintava ou se cortava o cabelo. Sem a revisão no pentado, não teria foto. Gaivota ainda contribui com ONGs que pretendem levar lamparinas urbanas à base de luz solar e centros de captação de água da chuva, já que a água encanada não atende parte da comunidade. É verdade que a realidade não tem permitido fazer tudo o que gostaria. As portas não estão mais abertas todos os dias. Mas alguma sempre estará acontecendo por lá. É só chegar.

Sobre o autor

Gustavo Queiroz

Gustavo Queiroz é jornalista e graduado em Relações Internacionais. Atua em projetos de educomunicação, checagem, fotojornalismo e Comunicação e Direitos Humanos.

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