Caroline Roehrig acabou de retornar dos Estados Unidos para Curitiba com uma felicidade impossível de esconder. É que, na mala, ela trouxe o troféu de Melhor Atriz de Curta-Metragem do 18º Los Angeles Brazilian Film Festival - LABRFF, o mais importante festival de cinema brasileiro no exterior. Como se o feito não bastasse, o outro prêmio de Melhor Atriz do evento, na categoria longa, ficou com a protagonista de "Vitória" (2025) – ninguém menos que Fernanda Montenegro.
A conquista de Caroline é resultado da interpretação no papel principal de "Tente sua Sorte", filme curitibano dirigido e roteirizado por Guenia Lemos, artista que também é destaque no teatro e no audiovisual paranaense. Com elementos do cinema fantástico e do realismo mágico, a obra é uma metáfora sobre a violência contra mulheres e tem tudo para projetar ainda mais a carreira das duas e de outros nomes da nossa terrinha.
Inclusive a produção foi selecionada por mais 12 mostras, entre eles: o Festival Internacional de Curtas de São Paulo - Kinoforum; o Fantaspoa, em Porto Alegre; o La Femme International Film Festival, nos Estados Unidos; e o Mórbido Fest, no México; e o Djanho! - Mostra Internacional e Interbairros de Cinema Fantástico de Curitiba. (Nesse último, a exibição está programada para a noite desta quinta-feira - 30/10.)
Fora a premiação de Los Angeles, a produção venceu como Melhor Curta-Metragem no Chambal International Film Festival (CIFF), na Índia; o prêmio DOT de Melhor Curta Brasileiro no Cinefantasy, em São Paulo, onde também recebeu a Menção Honrosa Diretoras Fantásticas; e ganhou o Best Female Filmmaker no Festival LIFF, na Suécia.
Caroline Roehrig
Ao Plural, a atriz - que nasceu em Curitiba, mas ficou muito tempo fora da cidade - falou sobre a importância do prêmio para sua carreira e também disse como se sente pela conquista. Ela ainda contou sobre sua trajetória na arte, comentou o momento do cinema brasileiro e curitibano, e revelou ter ouvido que sua “carreira tinha acabado” quando saiu do eixo Rio-SP. Confira a entrevista completa com Caroline Roehrig a seguir.
Você é formada em Publicidade e Propaganda pela PUCPR. Quando e como a arte, em especial o teatro e o cinema, surgem na sua vida?
Sim, e tenho grandes amigos dessa época! Sempre adorei as aulas de arte, tinha uma professora em Jaboticabal, a Tia Tutti que uma vez fez uma peça e eu amei participar. Daí lembro de inventar o texto de uma peça que chamava Michulina, que apresentei para a família na praia [risos], coloquei minha prima Dani como atriz coadjuvante e todos pagaram ingressos, que viraram sorvete.
Trabalhei no marketing das empresas Global Telecom (que depois virou Vivo) e Kraft Foods. Aprendi muita coisa lá, mas na volta de uma viagem para NY, em 2000, entendi que queria mesmo era ser atriz.
Em paralelo com o trabalho, comecei a estudar à noite no Pé No Palco, da Fátima Ortiz. Depois fiz Ateliê de Criação Teatral - ACT, da Nena Inoue e do Luís Melo. Em 2002, fiz meu primeiro trabalho como atriz, num curta-metragem chamado “O Segundo Ato”, dirigido por Geraldo Moraes. Mudei para o Rio de Janeiro em 2003 e nunca mais parei de atuar, só fiz pausas quando tive meus dois filhos, a Lorena e o Luigi. Também nunca parei de estudar e fazer cursos.
Além de estar nos palcos ou na frente das câmeras, você também se dedica à produção cultural. Explica como isso surgiu na sua carreira? Tem uma predileção por alguma dessas atividades?
Quando eu voltei do Rio em 2007, grávida da Lorena, ouvi de algumas pessoas que minha carreira tinha acabado porque eu não estaria mais no eixo Rio-SP. Decidi que isso não era verdade, que eu iria continuar trabalhando aqui em Curitiba, e foi assim. Eu amo atuar, mas gosto da produção também. Entretanto, se tiver que escolher, sem nenhuma dúvida, eu prefiro atuar.
O prêmio de Melhor atriz de curta na 18ª edição do Los Angeles Brazilian Film Festival - LABRFF 2025 não é o primeiro de sua carreira. Você tem uma trajetória com vários sucessos. Então, quais foram os papéis mais importantes que você interpretou e as outras principais premiações que venceu?
Eu tenho um carinho especial por todos os personagens que já fiz, e são muitos. Para não ficar uma lista muito grande eu vou citar os que eu tenho mais carinho: a “Tambelina”, no Sítio do Picapau Amarelo (TV); na peça “Toalete", de Walcyr Carrasco e direção de Cininha de Paula, fiz vários papéis num elenco que teve nomes como Márcia Cabrita, Suzana Pires, Catarina Abdalla, Renato Wiemer e Renata Castro Barbosa; a Cibele, de “Cobras e Lagartos”, um papel pequeno, mas importante porque contracenei com Francisco Cuoco e Milton Gonçalves; a Juliana, no curta-metragem "Memórias"; a Vonetta, em “A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti”, da Vigor Mortis; e a protagonista de "Tente sua Sorte".
Sobre os prêmios: sim, eu já ganhei outros. No “Hoje Jesus Não Vem” de Muller Barone (2016), recebi minha primeira indicação a melhor atriz, no FestCine Pinhais – 2017, mas não ganhei. Daí, pelo “Memórias”(2018) de André Siqueira, ganhei melhor atriz nos festivais Feel The Reel International Film Festival, em Glasgow, e no 22º Five Continents International Film Festival, em Puerto la Cruz, na Venezuela, e no Rima Awards de 2021; e também fui indicada no AltFF, em Toronto, no Canadá, e no FIC RIO 2020. E ganhei melhor atriz de ficção no Riowebfest de 2018 pelo “Eu, Celebridade", do Gil Baroni. E agora este prêmio no LABRFF.
Cada indicação e cada prêmio é uma alegria, é o reconhecimento do trabalho. Mas isso é resultado de fazer as coisas com muito amor e vontade de tocar o coração das pessoas.
É diferente vencer o prêmio no LABRFF 2025 no momento atual do audiovisual brasileiro? Qual o reflexo disso para o cinema curitibano e o que você espera como resultado em sua carreira?
Sim, foi diferente. Primeiro porque eu acho que a qualidade dos trabalhos está super alta e estão rodando muita coisa legal brasileira, o que é uma alegria para todos nós. Eu fico muito feliz de ver tanta gente que é daqui com projetos incríveis e conseguindo muito reconhecimento.
Acho que o nosso audiovisual brasileiro vive uma fase linda e o paranaense também está numa ótima fase. É muito legal ver os amigos ganhando o mundo!
Pelo que você viu na premiação e vem observando no mercado, dá para dizer que chegou a hora das mulheres no cinema brasileiro?
Muitas mulheres estão sendo premiadas, isso é reflexo de um todo. Foi emocionante e bonito de ver, afinal estamos ganhando um espaço que deve ser nosso. Ainda tem chão, mas espero estarmos caminhando para um equilíbrio maior.
Quais seus planos e próximos projetos?
Começo na próxima segunda (03/11) a preparação para o longa-metragem “Tantas coisas contém em si o acidente”, dirigido e roteirizado por Ana Johann, e iremos filmar entre novembro e dezembro. Para 2026, tenho um curta metragem, “A Sombra de Kal’Mor”, da Black Horse (roteiro de Lucas Mota com o João Ferian, que também assina a direção), e, da Vigor Mortis, “A Possessão de Penélope Serena” e um outro curta que ainda não tem nome. Tem ainda uma peça de teatro de mulheres que chama “Desencantadas" e que é um projeto de mais de 5 anos e que espero que “Desencante”, risos, em 2026 também.
Agora, conta: como é ganhar Melhor Atriz no mesmo festival em que Fernanda Montenegro também venceu? Ao menos por cinco minutos, você se sentiu o Pikachu?
Quando eu ganhei melhor atriz de curta-metragem, ainda não tinha sido anunciado o prêmio de melhor atriz de longa-metragem. Eu já estava muito feliz, porque eram 13 atrizes competindo. Mas quando caiu a minha ficha de que, se a Fernanda Montenegro estivesse lá, eu estaria do ladinho dela, sim, me senti o Pikachu sim [risos].
Foi muita alegria e emoção. E também teve a atriz Frances Fisher, mãe da Rose no Titanic, lá tirando foto comigo e me pedindo para assistir o Tente Sua Sorte… foi realmente demais!
"Tente sua Sorte" está em cartaz no Djanho!
Mostra Internacional e Interbairros de Cinema Fantástico de Curitiba, piá!
De 29 de outubro a 5 de novembro, em Curitiba-PR
Onde: Cine Passeio (Rua Riachuelo, 410); Cinemateca de Curitiba – Sala Groff (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174); Museu de Ciências Forenses da Polícia Científica do Paraná (antigo Necrotério, na Avenida Visconde de Guarapuava, 2652) e Espaço Cadeia Produtiva MIS-PR (Rua Barão do Rio Branco, 395).
Ingressos das sessões no Cine Passeio por R$ 6 e gratuitos nas outras exibições.
Programação completa e outras informações no site www.djanho.com ou no perfil do evento no Instagram.
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