É manhã de segunda-feira quandoescrevo isso aqui. Esse fato talvez me defenda da sugestão de que escrevo comum algum nível de álcool na cabeça. O domingo já se foi, o vinho se acomodou ese distribuiu pelo corpo, liberou seu resveratrol, contribuiu com o coraçãomesmo aumentando um pouco a pressão, algo virou rejeito e foi eliminado, nãosem antes ter se manifestado em palavras soltas, conexões diferentes entreideias, até tudo se estabilizar na homeostase da rotina dos dias-feiras.
De modo que vou arriscar falar davida completamente sóbrio – em que pese ser um tema muito reservado (se forgran reserva, tanto melhor) aos bebuns. A vergonha que porventura eu vá passarnão pode ser imputada ao vinho, nem posso dizer que escrevi enquanto abraçavaamigos e berrava que isso não impede queu repita, é bunita, é bunita e ébunita.
Eu fico aqui reinventando a roda,mas quando a reinvenção é feita por nós mesmos, o modo como ela se agarra àgente é diferente, não bastando apenas ler os outros, embora seja essencial. Meiocomo andar de bicicleta andando de bicicleta e não só vendo vídeo no youtube,como jogar futebol e não ficar só xingando os pernas de pau na tv, ah, que oscara ganham o que ganham pra dar chutão?
O que me chamou a atenção parafalar da vida foi a ponta dupla do novelo que trata de duas palavras tão distintasquanto relacionadas: o biológico e o biográfico. Em ambas, a vida, a bio. Entreo lógico e o gráfico, pontes, claro, mas só há pontes porque sob elas há vãos,desvãos, abismos.
Depois de umas quarenta semanasde apneia, depois do nhé inaugural, quando os pulmões fazem sua estreia nomundo, basta encostar um mamilo suculento na boca do bebê e ele sabe o quefazer – ok, não é grande coisa, os outros animais já saem andando, só faltamfalar. Só faltam falar. Mas o bebê não foi muito ensinado a agarrar o mamilo, asugar, a extrair um alimento. Não existe um logos ali, mas existe uma lógica:fome ® seio. Sede ® seio. Carinho? ® seio? Desconforto? ® seio? Desamparo? ® seio? Angústia? ® seio? No seio, o signoque começa a separar biológico e biográfico.

Cabe falar em instinto humano damesma forma como nos outros animais? Depois de vir ao mundo embebido delíquidos sanguíneos e placentários e ser lavado pelo líquido da banheira logo aseguir, assim como vestido com as roupas de tricô feitas pela vovó, o bebêimediatamente (sem mediações intrauterinas) começa a também receber seu banhode linguagem e a ser vestido por palavras. Se o sabonetinho e o xampuzinhoneutros lavam superfícies côncavas e convexas, as palavras – nada neutras – tambémvão banhando e vestindo o serzinho em suas dobras. O que era vida nua nuncamais o será, a vida vai ser banhada e vestida até a morte. A palavra se escreveaté se inscrever, e eis que estamos no terreno do gráfico, do biográfico. Afotografia é a sensibilização que a luz grava em uma superfície. E a biografia?Do que é feita a grafia da tua vida? Qual é, portanto, a tua biografia?
Sabemos, temos um corpofuncionando melhor em uns, pior em outros, mas com sinapses, batimentoscardíacos, pressão arterial, respiração, metabolismos. Somos até que mais oumenos comuns. Porém, o que foi escrito em nós determina muito o nosso papel,sua gramatura, textura, capacidade de absorver tintas e talhos, relevos epontuações. O bebê já não procura mais o peito seio-signo só com a lógica retae direta da alimentação. Ele deriva – e o que é mesmo ficar à deriva? –, eleerra – errante –, ele vagueia em busca de algo que não saberá nomear, mas cujanomeação foi se inscrevendo nele: mesmo satisfeito na lógica da bio, o bebêcontinua buscando algo ali, satisfações de outra ordem, não sendo maisconduzido por um duto único (conduto), mas seduzido (desviado da conduta) porinscrições singulares de gestos acompanhados de palavras. Falando assim, atéparece que a distinção é simples e clara, mas pensei, por exemplo, no peso donosso corpo. O que há de biológico, o que de biográfico? Comer é ato biológico,já assaltar a geladeira na madrugada sombria é biográfico. Fazer xixi ébiológico? Golden shower é biográfico. Reproduzir é biológico? O modo de despire ver um corpo nu é biográfico, o desejo de ter um filho também. O curso dosangue nas veias é biológico – o estímulo de um susto ativa o sistema nervosocentral, libera hormônios, bombeia mais rápido o coração –, mas o curso dodiscurso inscreve histórias que podem fazer o coração disparar por uma fobia inexplicáveldiante de um cãozinho inofensivo. Assim, coração acelerado por um susto ébiológico? Taquicardia depois de olhar olhos oceânicos é biográfico. Sou alto?Biológico. Medo de altura? Biográfico. Olhos castanhos? Biológico. Teu olhar medesmonta? Biográfico. Pé 42? Biológico. Não sei para onde vou? Biográfico. Doisgraus de miopia? Biológico. Algo me enche os olhos? Biográfico. Tenho audiçãoboa? Biológico. Vontade de chorar ouvindo Jovanotti cantando “Chiaro di luna”?Biográfico.

Caetano Veloso: “a tua presençaentra pelos sete buracos da minha cabeça” e escreve a minha biografia, o queestá longe de dizer que sou só – mas sou também – colagem da presença dosoutros. A palavra do Outro, que me divide, gera aquilo que vamos chamar desubjetividade: o discurso se inscreve, bate em nós, reverbera e afeta nossa redede representações, tudo está no modo até como tempos depois lutamos paradescolar identificações e retificar nossa subjetividade, para usar um jargãopsicanalítico.
Eu não sei se no vinho está averdade (in vino veritas), mas sei que é um bom momento para vermos obiológico e o biográfico conversando, agindo contra ou a favor de um eu que,como dizia Freud, não é senhor nem em sua própria morada, ou como diria anosdepois Jacques Lacan, revirando Descartes: um sujeito que existe lá onde nãopensa. As urdiduras inscritas dificilmente vêm à tona, temos nossas barreirasde inibições e recalques, que vão aparecendo somente como migalhas jogadas pelocaminho da fala – que os passarinhos ainda por cima podem comer –, nos atos-falhosque rapidamente corrigimos, nas brincadeirinhas que sempre afirmamos serem sóbrincadeirinhas, nos sonhos que depois julgamos sem pé nem cabeça, essas cartasque, de novo Freud, mandamos a nós mesmos todas as noites e quase nunca abrimos.

Nada do que digo é novo, háprováveis erros conceituais lógicos e gráficos, mas essa é a reinvenção de quesou capaz hoje. Como nada do que dizemos vem desacompanhado, termino comCecília Meireles:
“Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada”.