No dia 6 de outubro, milhões de eleitores foram às urnas para decidir quem comandará a prefeitura de 5569 municípios brasileiros pelos próximos quatro anos. Nas grandes cidades, onde a ideologia acaba tendo um peso maior na decisão, o saldo é bastante negativo para os partidos que compõem a esquerda e centro-esquerda brasileiras. Dentre as 11 capitais que elegeram prefeitos no primeiro turno, apenas o Recife elegeu um candidato, João Campos (PSB), filiado a um dos quatro partidos e federações que compõem esse campo ideológico (PDT, PSB, Federação PT/PV/PC do B e Federação PSOL/Rede). No segundo turno, o PT teve apenas uma vitória em capitais, em Fortaleza.
Tal resultado é ilustrativo das dificuldades que a esquerda vem enfrentando em nosso país nos últimos anos. Vale notar que esse desempenho ruim se dá em um contexto no qual todos os partidos de nosso campo se encontram abrigados no governo federal, com ministérios e outros cargos à sua disposição, o que teoricamente ajudaria no resultado eleitoral. Além disso, a economia apresenta alguns números positivos, como inflação baixa e desemprego em mínimas históricas, o que também em tese deveria diminuir a rejeição da esquerda junto à população. Na prática, contudo, vemos que não é bem isso que está acontecendo.
Para entender essa situação peculiar, serão apresentados ao longo desse texto três fenômenos simultâneos que estão em curso na nossa sociedade nos últimos anos e que podem ajudar a explicar a tibieza da esquerda brasileira. Um diagnóstico acurado das dificuldades que nosso campo enfrenta é o primeiro passo para buscar soluções para reverter esse quadro.
Em primeiro lugar, um consolo.
“O incrível caso do país sem direita”. Em um primeiro momento, você diria que esse título descreve o Brasil? Provavelmente não, mas esse era o título de uma matéria assinada por Gabriel Castro, na revista Veja, descrevendo nosso país em 3 de abril de 2011. O Brasil vivia naquele momento o início do primeiro governo Dilma, bem antes das manifestações de junho de 2013, do impeachment da própria Dilma e da eleição de Bolsonaro, todos esses momentos que marcaram a crescente marginalização e descolamento da esquerda junto ao povo. O governo registrava recordes de aprovação popular, bem diferente dos índices medíocres que a atual administração federal marca. A economia havia crescido 7,5% no ano anterior, ritmo que não havia sido verificado desde a década de 1980, e também bem superior ao ritmo morno atual, entre 2 a 3% ao ano. Tudo isso gerava um cenário no qual nenhum partido e quase nenhuma pessoa se declarava abertamente de direita. Quase o exato oposto do que ocorre hoje, no qual um candidato em eleição majoritária se declarar abertamente de esquerda é praticamente suicídio eleitoral.
Em um período de pouco mais de 13 anos, o que não é nada em termos históricos, passamos de um “país sem direita” para um “país sem esquerda”. Paradoxalmente, o esvaziamento da esquerda como força política permanece mesmo com o atual presidente sendo historicamente mais ligado à esquerda do que à direita. Isso escancara o óbvio: o resultado da eleição presidencial de 2022 não foi propriamente uma vitória de Lula, muito menos uma vitória da esquerda, mas sim uma derrota de Bolsonaro, punido pelos seus desmandos durante a pandemia e por sua gestão errática e acéfala. Entretanto, os valores e o alcance da esquerda permanecem tão minoritários junto à população quanto eram antes do retorno de Lula à presidência.
Porém, o que quero frisar não é isso. O que quero reforçar com essas informações é que dá para ver o copo meio cheio. A política, como tudo na vida, é cíclica, e não há dúvidas que a atual onda de direita e extrema-direita que varre nosso país vai passar. Agora, o quão rápido vai passar depende fundamentalmente da esquerda se adaptar a certas mudanças que nossa sociedade passou nos últimos anos. São essas mudanças que serão apresentadas na sequência do texto.
Afinal, o que mudou?
Dentre os três fenômenos que trarei no presente texto, talvez o mais notório e mais abordado seja a crescente presença dos evangélicos na população brasileira. No Censo de 2000, os evangélicos compunham 15,4% da população brasileira. No Censo de 2010, essa parcela já havia passado para 22,2%. Embora os dados sobre religião no Censo de 2022 ainda não tenham sido divulgados, as estimativas é que atualmente cerca de 30% da população brasileira seja evangélica. Tal cenário implica que, em eleições majoritárias, é praticamente impossível se eleger sem dialogar ao menos com parte dessa população.
Notavelmente, a população evangélica tem opiniões mais conservadoras em temas como aborto e direitos da população LGBTQIA+. É claro que a esquerda, por ter como valor fundamental a igualdade, não pode ser conivente com ataques a direitos de minorias. Pelo contrário, é importante que haja esforços contínuos para desfazer mitos e mentiras que se tornaram corriqueiros acerca dessas questões, talvez o mais conhecido sendo o famigerado “kit gay”. Contudo, há certas cascas de banana que podem e devem ser evitadas, para não tornar o diálogo com os evangélicos ainda mais difícil.
Se há algo que definitivamente não ajuda na tarefa de aproximação com esse segmento mais conservador da população, é a postura de “confronto” que grupos mais radicalizados da esquerda adotam, estigmatizando e estereotipando os evangélicos. Em uma sociedade plural sempre haverá divergência de opiniões em relação a valores morais, e embora possamos discordar de algumas posições da população evangélica, é necessário escutar e entender posicionamentos diversos.
Outro fenômeno relativamente recente e que impõe dificuldades para a esquerda é o que em inglês se convencionou chamar “economia do bico” (gig economy). A esquerda dialoga fundamentalmente com o trabalhador formal sindicalizado, mas essa população é uma minoria cada vez mais inexpressiva. Por outro lado, cresce a parcela da população formada por autônomos e microempreendedores. Utilizando mais uma vez os dados dos censos, verificamos que no ano de 2010 a parcela da população ocupada que trabalhava por conta própria era de 21,5%. Segundo a PNAD Contínua do mês de agosto último, hoje esse número é de 24,8%. Já a quantidade de empregadores passou de 2% para 4,2% de acordo com as mesmas fontes. Enquanto isso, a quantidade de trabalhadores sindicalizados se reduziu pela metade entre 2012 e 2023, passando de 16,6% da força de trabalho para 8,4%, também segundo o IBGE.
No caso da redução da sindicalização, isso reflete em parte a falta de credibilidade de boa parcela das entidades sindicais, que muitas vezes ao invés de serem instituições a serviço de uma classe profissional viram meros cabides de empregos e espaços para conchavos políticos. Já o aumento no número de autônomos e empregadores reflete mudanças tecnológicas que são irreversíveis. Um símbolo da desconexão da esquerda com essa parcela crescente da população é a repercussão negativa da tentativa de regulamentação do trabalho de motoristas de aplicativo. Após o governo enviar uma proposta de lei nesse sentido, estouraram protestos de motoristas de aplicativo por todo o país, que criticavam o projeto por não atender verdadeiramente suas demandas. Independentemente de eventuais méritos da proposta apresentada pelo governo, os protestos demonstraram o fracasso retumbante da esquerda de se conectar com essa categoria expressiva dos trabalhadores.
De maneira justa ou não, esse segmento expressivo e crescente da população vê o Estado como um sócio reclamão e oneroso, que cobra o seu quinhão religiosamente enquanto pouco ou nada ajuda. A contradição é que boa parte dessas pessoas depende tanto ou até mais dos serviços públicos que os trabalhadores que permanecem em formas mais tradicionais de trabalho. O desafio para a esquerda é desenhar políticas públicas específicas para essa população, que sejam pensadas de maneira verdadeiramente horizontal, e não impostas de cima a baixo, como parece ter sido o caso com a tentativa de regulamentação dos aplicativos de transporte. Empreendedorismo tem que deixar de ser tratado como palavrão pela esquerda.
Por fim, a mudança que nossa sociedade enfrentou nos últimos anos que provavelmente traz mais desafios para a esquerda é a emergência das redes sociais. Há duas dificuldades principais que o fenômeno das redes sociais gera. A primeira delas é que a lógica dos algoritmos isola os indivíduos em “bolhas”. Essas bolhas podem ser definidas por toda a sorte de preferências, como gêneros musicais, esportes, hobbies, e por aí vai. Porém, uma das principais formas de clivagem é a ideológica. Em outras palavras: se você pertence a certo campo ideológico, a tendência é que cada vez mais você interaja e se comunique somente com outras pessoas desse mesmo campo ideológico.
Além da questão da comunicação entre as bolhas, obviamente prejudicada pelo isolamento que os algoritmos geram, há outra questão ainda mais problemática. Esse isolamento pode gerar uma certa miopia acerca de quais são as pautas prioritárias para a população. A princípio esses fatos gerariam dificuldades para ambos os lados do espectro ideológico, mas como a bolha da direita é maior, ela é capaz de surfar nesse fenômeno com maior desenvoltura.
Existe uma “lei” utilizada na ciência política que se chama lei de Hotelling. Essa lei atesta que os posicionamentos políticos tendem a convergir ao centro. Por muitos anos essa lei ajudou a explicar a quase indiferenciação entre os partidos políticos nos EUA, e talvez em dado momento tenha servido ao Brasil também, durante o período no qual PT e PSDB se digladiavam pelo poder. Contudo, se não há comunicação entre os indivíduos com opiniões mais à esquerda e os indivíduos com opiniões mais à direita, será que essa convergência ocorre?
A radicalização da direita brasileira fornece fortes indícios que não, a convergência não ocorre mais. Do lado da esquerda, uma parte bastante minoritária também parece ter passado por esse processo de radicalização, mas em uma direção pouco construtiva para o campo como um todo. Essa “bolha” defende de forma apaixonada pautas exóticas que são absolutamente irrelevantes para a imensa maioria da população. Por sorte, esse grupelho parece ter alguma relevância somente no antigo Twitter, atual X.
Em um mundo no qual a lei de Hotelling deixa de funcionar, e as opiniões tendem a divergir ao invés de convergir, qual seria, então, a solução? Segundo parte da esquerda, o caminho é seguir os passos da direita e também “radicalizar”. Não discordo totalmente dessa ideia, mas resta a questão: radicalizar em relação a quê? Se a esquerda radicalizar ao modo Twitter/X, abraçando pautas que pouco repercutem “fora da bolha”, parece difícil que isso seja de alguma ajuda, pelo contrário.
A outra dificuldade que a emergência das redes sociais gera é a mudança nas próprias formas de socialização e também de mobilização. Muitas vezes, a esquerda parece querer voltar no tempo, impondo um formato analógico de se fazer política em um mundo digital. Enquanto a direita foca em memes e vídeos curtos, pílulas de informação (ou desinformação) que são fáceis de serem distribuídas digitalmente e que são espalhadas através de redes de mobilização via WhatsApp e outras plataformas, a esquerda foca excessivamente em mobilizações de rua, mal articuladas e cada vez mais esvaziadas. Não é que essas mobilizações não tenham o seu espaço, evidentemente que têm, mas no contexto atual estão longe de serem a principal forma de fazer política.
A potência das redes sociais ficou ainda mais evidente nessas últimas eleições municipais. Por todo o país, diversos youtubers e tiktokers, em sua imensa maioria de direita, conseguiram se eleger para suas respectivas Câmaras de Vereadores. O coach Pablo Marçal, fenômeno das redes sociais, ficou fora do segundo turno em São Paulo por menos de 1%. Isso na cidade que é a maior do Brasil e uma das maiores do mundo, e onde dezenas de milhões de reais são gastos em uma campanha para prefeito. Em Curitiba, a jornalista de extrema direita Cristina Graeml chegou ao segundo turno ficando apenas 2% atrás de Eduardo Pimentel, o candidato apoiado pelas máquinas municipal e estadual e que gastou mais de 12 milhões de reais em sua campanha. Cristina conseguiu esse feito fazendo uma campanha “invisível”, em que quase não havia presença de seus materiais na rua, e recorrendo pesadamente a formas digitais de mobilização.
A boa notícia é que a esquerda também pode e deve se adaptar a esses novos tempos. O caso da urbanista Laís Leão, do PDT, que era estreante em eleições e conseguiu uma cadeira na Câmara de Curitiba é um bom exemplo. Laís ganhou notoriedade nas redes fazendo conteúdos curtos para o Instagram nos quais usava o seu conhecimento como urbanista para apontar problemas da cidade e possíveis soluções. Esse trabalho de criação de conteúdo e mobilização digital gerou frutos: com quase 7 mil votos, Laís foi a mulher do campo da esquerda mais votada nas eleições para vereador em Curitiba.
E aí?
Evidentemente, essas não são as únicas mudanças pelas quais a sociedade brasileira está passando e o presente texto não buscou esgotar a discussão acerca das questões abordadas. O ponto fundamental é reconhecer que todos esses três fenômenos, a expansão da população evangélica, a proliferação de formas não-tradicionais de relações de trabalho e a onipresença das redes sociais são extremamente relevantes e determinantes para a sorte eleitoral da esquerda no Brasil de hoje. Quanto mais rápido a esquerda perceber e se adaptar a isso, mais rápido a onda de direita que nosso país está vivendo será revertida.