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Aquelas tardes

Ninguém me incomodaria porque eu estava no que eles consideravam a fase mais importante dos meus estudos, aquela que definiria meu destino

Por Admin
Aquelas tardes
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Chegava do cursinho a uma e meia, cansadoda viagem interminável no ônibus atulhado de gente, faminto. Minha avó reaqueciaa comida. Esperava eu comer e lavava rapidamente a louça. Então se sentava nosofá. Ficaria fazendo tricô até adormecer, a papada caída sobre o peito, as mãosinertes segurando o novelo de lã sobre a barriga.

Meu avô dava um cochilo e, depois, sentadoà mesa da sala, escrevia extensas cartas para uns parentes míticos na Alemanha.

A casa entrava em repouso. Ninguémlimparia mais nada, nem me daria ordens. Os adultos, com suas demandasinsuportáveis, me deixariam em paz.

Eu ia para o meu quarto, que pareciaesperar pacientemente pelo meu retorno do alvoroço externo. Trocava de roupa eme jogava na cama. Ninguém me incomodaria porque eu estava no que elesconsideravam a fase mais importante dos meus estudos, aquela que definiria meudestino. Eu só pensava em "meu destino" através deles. Eramelancólico, espinhoso, hedonista. Me bastava ficar só com minha dolorida noçãode um mundo operoso e triste. Não sonhava com o futuro. Queria um canto para melibertar da volição alheia, para me desentender em paz. E fruir preguiçosamenteos apelos do corpo, os saltos em slowmotion da imaginação.

Assim, sob o calor das cobertas, primeiro meentregava às excitações despertadas pelas meninas da escola, pelo aperto com asmulheres no ônibus. Chegava fácil a um gozo intenso como um soco do ventre noar. Então caía num longo desmaio pós-orgástico. E dormia.

Quando voltava à tona, começava a estudar.As paredes do quarto estavam cheias de fórmulas de física e química, esquemasde biologia, cronogramas de história, macetes criados pelos professores. Eramhoras fazendo os exercícios das apostilas, me sentindo ora logrado, oraentusiasmado por achar que eram meus os clarões da ciência humana, enfiando devez em quando o lápis no ouvido para sentir a coceira e, estrangeiro de mim, olhara cera curiosa que saía de lá.

Ao fim da tarde, confortado por haver alguém a ordenar abismos, jantava com meus avós. Então chegava o melhor momento do dia. Eles assistiam na tevê as três novelas e o Jornal Nacional. Eu voltava para o quarto e lia os best-sellers da coleção Grandes Sucessos, que meu irmão mais velho me emprestava. Lia, indiscriminadamente, O Grande Gatsby, Horizonte Perdido, O Dia do Chacal, A Sangue Frio, O Repouso do Guerreiro, Fogo Morto, Papillon, Bel-Ami, O Caso dos Dez Negrinhos, A Romana, Taras Bulba... Durante a leitura, as fórmulas coladas às paredes desapareciam; levavam consigo o conhecimento objetivo do mundo. E a cama, o armário, as janelas, a casa, tudo se reduzia a uma casca que gestava um pássaro negro, um mergulhão imaterial, em voo de rapina sobre águas perdidas no tempo. Em poucos minutos eu partia o ovo. Voava desolado para a Ilha do Diabo; não sabia sair das alturas cruéis de Shangri-lá; pousava no sangue de uma família estupidamente assassinada em Holcomb.

Meus avós iam se deitar. Eu tinha queacordar cedo. Fechava o livro, apagava a luz. Ficava olhando as sombras dasfolhas das ávores se movendo como um cardume na cortina empalidecida. Lentamente,as fórmulas, as histórias e o cardume afundavam no breu, sob o calor imperceptíveldas pálpebras...

Vejo o rapaz dormindo, o rapaz que fui aosdezesseis, no vago haver um mundo extinto. Sei que nunca mais lerá históriascom tamanha entrega, nem viajará tardes tão longe das atribulações da morte edo amor.

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