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Andanças de Beth Carvalho

Nem todos sabem que Beth foi uma das principais responsáveis por ajudar a alavancar a carreira de Cartola e de Nelson Cavaquinho

Andanças de Beth Carvalho
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Na minha juventude tive um verdadeiro fascínio pelo universo do samba. Nunca deixei ter. De uns tempos para cá retomei algumas pesquisas. De modo que, madrugada dessas, acometido pela insônia daqueles que têm um monte de contas para pagar e resolver um montão de probleminhas e um ou outro problemão na manhã seguinte, vi-me folheando o catálogo de filmes de um desses streamings. Eis que finalmente encontro o documentário "Andanças", sobre a trajetória artística da icônica e inesquecível Beth Carvalho.

Beth, pelo menos desde os anos 1970 foi (e é) uma das vozes de referência do samba. Veja que consciência e que respeito. Numa passagem do filme, quando perguntada por um repórter o que faltava para a música brasileira ser mais admirada, Beth responde: “Brasilidade!”. “E o que é isso?”, insiste o repórter. E ela: “negritude.”

O documentário todo foi feito por meio de registros caseiros, imagens de arquivos da própria Beth, filmados por ela ao longo de mais de cinquenta anos, obsessiva por documentar momentos que intuía serem históricos. Beth registrou gravações em estúdio, shows, encontros para estudar repertórios, rodas de samba, além de festas maravilhosas entre amigos.

Fica explícito, ressaltado, e é exemplar e inspirador o amor da cantora (também compositora e instrumentalista) pelo gênero musical que melhor define a essência do nosso país.

"Andanças", como não poderia deixar de ser para uma carioca de boa cepa, mostra também a paixão da cantora pelo time do Botafogo, além de seu ativismo político.

Nem todos sabem que Beth foi uma das principais responsáveis por ajudar a alavancar a carreira de Cartola e de Nelson Cavaquinho, ambos com lugar de honra na galeria dos maiores de toda a história de nossa música popular.

Lembro da letra de "Catavento e Girassol", parceria de Guinga com Aldir Blanc, em que há os seguintes versos: “nos dias de carnaval / aumentam os desenganos / você vai pra Parati / e eu pro Cacique de Ramos.”

O Cacique de Ramos está bastante presente no documentário. Figuras hoje incontornáveis para o samba, na época ainda jovens e desconhecidas do grande público, partilhavam seu talento por lá. Entre eles, o grupo Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho. Também os compositores de excelência Almir Guineto, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila, Moacyr Luz, entre outros.

Beth era já figura de proa na chamada (nome antipático) indústria musical e, como madrinha do samba, gravou canções dessa rapaziada toda e insistiu para que tivessem eles próprios seus álbuns produzidos profissionalmente. Ajudou, portanto, a revelar e a estabelecer a carreira de grandes talentos que fariam o Brasil mais feliz.

É um documentário bonito demais. Ensina o quanto a força do coletivo faz a diferença quando investimos em nossas potencialidades individuais a fim de engrossar o caldo do feijão que alimentará a alma e o coração de muita gente.

(…)

Obs. Gostaria de convocar aqui os meus parceiros de canções que ponham no mundo nossas músicas, no formato voz e violão mesmo. Na falta de estrutura ideal, caseiramente, que seja. Gravemos registros, mesmo simplíssimos, do nosso trabalho. Como diz o maestro Octavio Camargo: não façamos raridade de nós mesmos.

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