Pular para o conteúdo

Amanhecer em janeiro

A claridade vai tomando conta do centro, na distância dos tempos em que mestres calceteiros cravejaram em nosso solo, há quase um século, sua arte de petit pavê

Amanhecer em janeiro
Publicado:

Foram poucas horas, mas dormi bem demais. Um sono reparador, como dizem. São cinco e meia da manhã. As crianças e a companheira ainda levarão um tempo para despertar. Igualmente, dorme a sogra que nos visita.

Abro as cortinas da sala. Ali está o sol despontando em formas geométricas entre os vãos dos prédios. É a manhã brotando, cativando as áreas com sombras, que aos toque solar se desmancham. Isso. O dia descendo nos blocos irregulares, assimétricos, da construção civil que chamamos de cidade, casa, janela por onde, num espécie de idílio ferial, um homem contempla a aurora.

A claridade vai tomando conta do centro, na distância dos tempos em que mestres calceteiros cravejaram em nosso solo, há quase um século, sua arte de petit pavê, com pedras portuguesas que ondulam figuras de pinhões, araucárias e outras formas abstratas, agora pisadas sem elegância, nem sutileza pelos primeiros transeuntes do dia.

A iluminação matutina também já se espalhou pelos bairros, em casas com paredes amarelas, azuis, verde-água, a contrastar e se coser com sombras que fazem desenhos de alumbramentos bem mais do que silenciosos, que não pedem para serem notados por ninguém.

É o sol e a sua maneira de chegar se espreguiçando, sem assombro, tingindo o verde vivo dos gramados, das folhagens nos quintais e parques, emoldurando as flores nos canteiros.

Num contentamento de passarinho nem preso em gaiola nem solto pelos bosques, aqui estou. E agora a luz avança sobre o sofá e então sobre a toalha da mesa de nossa famílias. E os odores da vizinhança começam a ter um ar de café passado e pão quentinho.

Aqui estou bebendo da minha caneca, com meu otimismo enviesado, entretendo intimidades. Provido por aquela espécie de brandura repousada que tem muito pranto soluçado e revolvido por detrás.

Não me canso desses instantes que sugerem eternidade. Não me canso de testemunhar as manhãs de vida que não se esconde e se mostra na luz fugaz e intermitente de feixes que se alargam — ainda que repleta de falhas e imperfeições — até a plenitude.

Tags: Cronicas

Mais em Cronicas

Ver todos
Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

/

Mais de Autor Não Encontrado

Ver todos

De nossos parceiros