(A crônica a seguir é parte do livro "Conheço duas formas de acabar com a vida que são tiro e queda", de Arzírio Cardoso, a sair pela editora Patuá.)
Adiantando-me aos apocalípticos não integrados que possam classificar como absurda e derrotista a declaração que farei a seguir, afirmo não ter incorporado o hábito nem rápida, nem pacificamente − tampouco alegremente. Menos ainda sem traumas. Antes, sancionei o novo método com o fel e a rabugice próprios dos que se sentem atropelados pelo rolo compressor cada vez mais veloz do tempo, que amassa, mistura e enforma para melhor assar. E com a frustração dos que, esgotadas resistência e estratégias de revide, finalmente se deixam vencer e aceitam o destino, combalidos.
Certamente essadeclaração, porque impronunciável há até poucos anos e resultado de uma mudançaque eu não planejei, impacta ainda agora mais a mim do que o fará a qualquer outrapessoa, desta era ou de outras, menos ou mais tecnológicas. Mas está aí. E éverdadeira. Aliás, não está ainda. Esteja:
─Estou escrevendo esta crônica diretamente no computador.
Sem mais apessoalidade da caligrafia. Sem mais a desordem dos papéis onde eu imprimia,com a fidelidade do ilegível, a desordem dos esboços. Sem mais as velhascanetas e seu corpo marcado pelas camadas sobrepostas de digitais denunciando oautor do crime. Sem mais (mas isso nunca tive mesmo) o frívolo glamur hipster da máquina de escrever. Sem maiso desfile das ideias riscadas e rejeitadas expondo as tortuosas linhas deraciocínio que é preciso desfiar até que surja, no fim, a frase justa e límpidaque melhor represente a ideia. Não mais a comparação entre rascunhos e originaisdesnudando, despudoradamente, a grande presunção dos que se embrenham nafloresta das palavras impressas: a tentativa de organizar o pandemônio do mundoe da mente pelo corte epistêmico da escrita.
No computador.Estou escrevendo esta crônica diretamente no computador.
E repito a sentençacomo um mantra, como um refrão pegajoso, na expectativa de que a repetição sejacapaz de me libertar do espanto de me saber outro.
Porque, decididamente, novos objetos enovas mídias produzem novas subjetividades. Afetam o corpo e suas posturas ereações; afetam a mente e suas associações e articulações cognitivas. Em umapalavra, é muito outro o esquema aqui, no computador.
¿Escreveu errado? Ocorretor automático, pela tensão sublinhada em vermelho, fará o trabalho queseu nome propõe. ¿A frase não vai bem? Deleta-se e não mais haverá indícios desua torta não existência. ¿Garranchos, garatujas, gatafunhos? Não com ajornalística fonte Times New Roman, ou a acadêmica Arial, ou ainda a cursivaHarlowSolidItalic! E o mais terrível: ¿quer destruir e jogar salutarmente tudofora? Está cancelada a possibilidade do amassar catártico do papel e do seuarremesso ao cesto daquilo que poderia ter sido e que não foi.
Uma quase completadesmaterialização e desumanização dos meios, enfim. E a concentração de todosos recursos numa única e monopolizadora ferramenta, ainda que (e este ponto éessencial) as engrenagens da escrita permaneçam rodando conforme o ritmocardíaco, intestinal e humano do escritor.
Portanto não é algoque se explique assim, sem a devida enumeração e o detalhamento das etapas,como foi que cheguei a este estado de completa rendição à Hidra da informática.Mas quero me poupar de imolações autoinfligidas, ao mesmo tempo em que,deixando aqui somente o resultado da equação (ou pouco mais que isso), poupo oleitor do tédio de presenciar suas intricadas operações e desmembramento.Juntos, pouparemos papel. Ou caracteres, que, a despeito de sua virtualidade,consomem tempo. E tempo é tudo.
Que a clássicaimagem mitológica das cabeças múltiplas e florescentes dê conta de justificar atalvez inevitabilidade da adesão à escrita virtual.
E que a boa e velhapulga atrás da orelha possa sempre examinar, com a mesma frieza e engenho earte, tanto a associação entusiasmada e irrefletida ao novo por parte dosintegrados, quanto o ranço argumentativo dos infectados pela síndrome da era deouro (disfunção mental que faz pessoas desesperadas pela proximidade do própriofim afirmarem que em seu tempo tudo era melhor), e da qual, não sem cicatrizes,me curei.
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, dizia o guardador de rebanhos. E esse meio nunca há de ser outro. Espero...
Serviço
"Conheço duas formas de acabar com a vida que são tiro e queda", de Arzírio Cardoso. O livro custa R$ 40 e está em pré-venda no site da editora Patuá.