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A tragédia do Sr. Pragmático

Dra. Marta, Dr. Luciano e Dr. Farret nos fazem questionar: cadê os resultados que as frentes amplas prometeram?

A tragédia do Sr.  Pragmático
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As eleições se acabaram e, como de costume, a postura e os resultados da esquerda estão em escrutínio por ela mesma. A conclusão parece óbvia: a esquerda precisa se reinventar. A necessidade dessa suposta reinvenção ocupa todos os noticiários especializados, sem dizer exatamente que tipo de reinvenção seria essa. Essa omissão deixa, a cargo do espectador, a interpretação de qual seria o caminho das pedras para a canhota.

Muitos usuários das redes sociais captaram o recado e já chegaram à definição do que precisa ser feito, transbordando em comentários de que a classe trabalhadora (representada por uma tal de Dona Maria abstrata, que não tem nome, não tem rosto, mas, aparentemente, tem muita opinião) não aceita mais pronome neutro, demandas LGBTIA+, feminismo ou falar de preto: o que ela quer mesmo é melhorar de vida, seja lá o que isso quer dizer. Essas conclusões estão quase sempre associadas à ideia de que a esquerda deveria compor mais, ampliar mais, tentar dialogar com o eleitorado de centro que não a suporta. Menos lacração, mais coalizão.

Nada disso é muita novidade, na verdade, desde as eleições de 1998 já há alguma pressão por moderação programática e flexibilidade tática na esquerda. O que o Sr.Pragmático, personagem que é o mais sanguíneo em sua defesa por essa atenuação, não parece perceber é que ele vem sendo bastante atendido em suas demandas e que isso, tragicamente, não tem trazido resultados.

A campanha de Guilherme Boulos desse ano foi bem diferente da última vez em que ele disputou a Prefeitura de São Paulo, em 2020. Boulos recuou em vários temas. Reiteradamente reforçou que não usa drogas, reforçando o estigma sobre os usuários. Defendeu a manutenção da Guarda Municipal armada. Aproximou-se de um ex-chefe da Rota, aquela mesma conhecida pela sua delicadeza com jovens pobres e pretos nas periferias de São Paulo, para delinear o seu plano de segurança. Teve como vice Marta Suplicy, psicóloga/sexóloga que foi prefeita da cidade e que, nos últimos anos, até no impeachment de Dilma votou. A esperança era que sua popularidade tornasse o voto de Boulos mais presente nas periferias. Não aconteceu: fez praticamente a mesma votação que em 2020 e, vejam só, perdeu em mais distritos.

Muitas coisas unem curitibanos e paulistanos. Neste ano, uma dessas coisas foi o apreço da esquerda por figuras que defenderam a derrubada de Dilma Rousseff em 2016. Aqui na capital paranaense, muitos partidos de esquerda se aglomeraram entorno de Luciano Ducci (PSB), médico, deputado federal e ex-prefeito. Enquanto parlamentar, além do apoio ao impeachment, tivemos também um recente voto a favor do Marco Temporal, pauta adversária dos povos originários. Na campanha, Ducci escondeu Lula o tempo inteiro: falava somente em “governo federal”. O resultado? Uma votação que é apenas um pouco mais da metade do que Lula fez no 2º turno em 2022 na cidade, 36%. Será que a deputada Carol Dartora (PT) ou mesmo o seu candidato a vice, o deputado estadual Goura Nataraj (PDT) não teriam uma capacidade maior de dialogar com esse eleitorado?

Vamos agora à eleição mais importante do Brasil, a de Santa Maria (RS). O fato de ela ser a minha cidade de criação é apenas uma mera coincidência. Brincadeiras à parte, é interessante analisarmos o caso de uma cidade de médio porte, onde, tradicionalmente, as demandas locais tendem a ser ainda mais latentes frente às disputas nacionais. Valdeci Oliveira (PT), que governou a cidade entre 2000 e 2008, armou uma frente ampla com o também ex-prefeito (e médico!) Dr. José Farret (UNIÃO), quadro histórico da ARENA local. Valdeci foi ao segundo turno, mas mostrou-se menos competitivo que em 2016, quando saiu em uma chapa pura do PT.

Sempre antes do pleito, o nosso amigo Sr. Pragmático chega cheio de promessas. Ele nos jura, juradinho, que as alianças ampliadas são essenciais para chegar às camadas mais fragilizadas da população. Quando é um pouquinho mais apertado, fica agressivo, diz que “isso aqui não é DCE”. A verdade é que o Sr. Pragmático precisa, urgentemente, passar por um processo de análise: ele não está defendendo a moderação programática e a flexibilidade tática como um sacrifício autoimposto, nada disso para ele é um sofrimento. Ele realmente acredita nisso. Substancialmente, o modelo de sociedade que ele defende é governado por uma esquerda tão diluída em água a ponto de ser praticamente indistinguível da direita. Em termos de valores, ele está mais preocupado com a manutenção das coisas como elas são do que com transformações efetivas.

E não tem problema nenhum, Sr. Pragmático, é seu direito ser assim. Só é importante que você passe a se anunciar como o que verdadeiramente é: um militante do extremo-centro. Não um estrategista. Alguém que está defendendo o que acredita, e não o que acha que dará mais certo.

Claro, ao chegar ao fim desse texto, o leitor pode estar confundindo as intenções do escriba. Pode parecer que o caminho das pedras que eu tenho a oferecer é o da radicalidade desponderada e que essa sim trará frutos. É como se o Ducci, o Valdeci e o Boulos tivessem, no debate da Globo, defendido o aborto, teriam sido eleitos com as mãos amarradas nas costas. Claro que não é isso. A rejeição à esquerda existe, mas temos que começar a ponderar sobre o grau de seu alcance. Talvez este seja tão ampliado que nos atinja mesmo se formos pragmáticos e moderados. Ou seja, se a radicalização não traz resultados eleitorais, as composições sem critérios claros e o rebaixamento programático também não. Qual o caminho então?

The answer, my friend, is blowing in the wind. Os aparelhos de esquerda precisam urgentemente disputar a sociedade. Se não para 2026, pelo menos para algum ponto no futuro. Fora do período eleitoral. Essa agenda é mais urgente do que ficarmos nos equilibrando, de pleito em pleito, para ver se conseguimos umas prefeituras a mais ou umas cadeiras a mais na Câmara. O tal “conservadorismo do brasileiro”, a desculpa central para os recuos, está muito longe de ser uma verdade estanque. Se eu ligo na novela agora às 21h verei discussões, sexualidades, cores de pele, que seriam proibitivas há alguns anos atrás. As pessoas podem ser disputadas a mudar. Essa é a tarefa.

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