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Crônicas diárias

A rua fundamental

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Cresci numa rua sem nome, sem saída e sem asfalto, e que até hoje permanece essencialmente a mesma. Como se não importasse a ninguém, ou sequer existisse na vida real, ainda não a incluíram no mapa de Curitiba. Trata-se, por assim dizer, de uma rua despercebida, cuja invisibilidade me agrada e envaidece desde a infância. Quando menino, aliás, eu gostava de pensar que vivíamos numa espécie de dimensão ficcional, inviolável. Mesmo os carteiros, e quem sabe a própria polícia, não eram capazes de nos encontrar. Por outro lado, sempre que me via forçado a deixar os limites de nosso esconderijo, eu me sentia vulnerável, um foragido posto a descoberto. Minha rua, então, era quase uma trincheira.

Falei em rua, mas na verdade não a chamávamos assim. Nós a chamávamos de beco. Uma palavra até romântica em sua rústica austeridade. Quando me perguntavam onde eu morava, minha concisão era exemplar. No beco, eu dizia, e logo mudava de assunto. Pretendia colar em meu personagem um valioso selo de mistério, como se morar num beco sem saída de algum modo me engrandecesse. Demorei a entender que estava enganado. Que aquela pequena fortaleza erguida num fim de linha representaria para mim, e para sempre, apenas um ponto de partida. A porta de entrada do labirinto.

O beco, já disse, não era, e ainda não é, asfaltado. Naquela época, entretanto, parecia pior. Quando chovia, o que era comum, a ruazinha virava primeiro um leito de córrego para, logo em seguida, transformar-se em lodaçal. Na escola, eu era a única criança cujos tênis e meias estavam sempre sujos de lama. Sem falar da barra de minhas calças. Eu fingia não me envergonhar. Dizia, brincando, que a rua em que cresci me acompanhava aonde quer que eu fosse. Mas, no fundo, eu pensava: quando isso vai terminar?

Me referia à lama. Ao brejo que me cercava. Afinal, chovia muito, e ainda chove. Sendo assim, a chuva, mais cedo ou mais tarde, acabaria por aliviar o beco de todo aquele lodo, e o que haveria de surgir no lugar dele, então? Até hoje não sei. O barro continua lá, embora o beco, atualmente revestido com brita e cascalho, pareça bem mais acolhedor.

Outra coisa que não havia na minha rua: iluminação. Nenhum poste, nenhuma lâmpada. Durante o dia, claro, isso não era problema, mas eu chegava da escola sozinho, no começo da noite. Margeando o beco, além de umas pouquíssimas casas, havia terrenos baldios, pomares e parreirais, capões de árvores baixas, arbustos de trombeteiras, tudo coberto por vastos mantos de chuchu e maracujá. As pessoas se embrenhavam ali para evacuar, trepar ou fumar, o que obviamente abalava minhas fantasias infantis de segurança e isolamento. Quando havia lua, eu fazia que não as notava, não via seus olhos, nem seus beijos, nem a brasa de cada cigarro. Passava ao largo dos invasores como se fossem criaturas irreais, fugidas de um sonho suburbano. Mantinha o pescoço duro, a mochila firme nas costas, o passo atento para não patinar no barro.

Nem sempre dava certo. Quando alguém, metido entre as touceiras, assobiava para mim ou me chamava aos sussurros, eu saía correndo, precavido. Apenas uma vez, no escuro, escorreguei e caí na lama, numa poça mais profunda. Lembro que, da escuridão do arvoredo atrás de mim, farfalharam vaias e risadas, feito uma revoada de morcegos.

Foi nessa rua que aprendi a andar de bicicleta. Foi ali que aprendi a brincar sozinho. Ali joguei futebol comigo mesmo durante cerca de uma década, tabelando com um muro branco. A bola enlameada carimbava aquela parede, chute após chute, compondo sobre a tela que se encardia um tipo vago de abstração, como uma tatuagem aleatória. O muro ainda está de pé, mas as trepadeiras, livres do boleiro que fui, cresceram e o cobriram por completo. Debaixo delas, o desenho de tantas boladas talvez tenha sobrevivido de alguma forma, à espera da leitura de alguém, ou de alguma decifração crítica, ou mágica, não sei. Só sei que, adulto, nunca mais pedalei nem joguei futebol, não com a seriedade e as expectativas daquele tempo.

Na rua da minha infância também se erguiam discretas fileiras de pinus que, nos meses mais frios do ano, espalhavam suas pinhas por toda parte. À sombra deles, a lama estava sempre coberta por um tapete de agulhas secas, mais ou menos grosso, cor de bronze. Eu gostava daquilo. E embora adorasse chutar aquelas grandes flores de madeira, o melhor mesmo era andar sobre elas, fazendo-as estalar, como se crepitassem numa fogueira, ou como se eu caminhasse sobre o fogo. Eu amava aquele som e o prazer simples que ele me proporcionava. Até hoje, quando piso numa pinha (o que faço sempre que encontro uma), um gatilho dispara dentro de mim, e me sinto novamente adolescer.

Minha primeira rua, enfim, ainda está lá. Quase intocada. Com um pouco mais de luz e um arremedo de calçamento. O matagal que a cerca resiste ao avanço dos anos, e os pinus também, mas algumas de suas casas já foram postas abaixo. Outras estão vazias. Muita gente já morreu, ou então se mudou. O beco, contudo, mesmo desabitado, continuará o mesmo. Não é mais a rua onde moro, embora seja ainda a minha rua fundamental. A rua que para sempre me servirá de régua na hora de medir todas as distâncias do mundo. Minha rua-mãe, sem nome, sem saída e sem asfalto.

 

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Sobre o autor

Luís Henrique Pellanda

Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor de dois livros de contos e três de crônicas.

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