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Crônicas diárias

A parada final

Escrito por Ana Justi
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As sirenes vermelhas da viatura da Guarda Municipal alertavam que algo acontecia. O simples fato de haver uma viatura parada em meio à pista, por onde circulam os ônibus do terminal, já era um indício. Mas foi quando vislumbrei a ambulância que meus sentidos se alarmaram mais: a unidade de atendimento móvel bloqueava completamente a passagem de veículos, parada na outra lateral da estreita pista.

“Deve ser bandido”, comenta uma usuária do transporte coletivo, enquanto tensos, os passageiros desembarcam na ponta extrema do terminal. Vejo outras duas viaturas da Guarda, e mais uma ambulância. Vasculho o perímetro, procurando por indícios do que pode ter acontecido, os passos ansiosos enquanto me dirijo à saída, nas proximidades da comoção.

Uma pequena multidão se aglomera, bloqueando o fluxo na pista central de passagem. Desvio dos observadores curioso, descendo para a pista dos automóveis. Nesse momento, vejo um dos agentes da Guarda, com seu uniforme azul escuro, tentando criar uma área de isolamento. Seu esforço acaba por liberar as laterais do incidente, e me permite ver com clareza: ali, em meio ao petit-pavê que calça o local dos transeuntes, os cabelinhos brancos, curtos, se mesclam às lascas mais claras do piso. Ela jaz inconsciente, sem perceber o que se passa no chão frio. É fim de tarde de uma segunda-feira invernal. O sol já está se pondo e a temperatura acompanha a escuridão que cai.

A boca se mantém grudada ao tubo plástico transparente, que foi inserido para tentar ajudar a retomar a respiração. O ombro direito está desnudo, as camadas de blusa parcialmente despidas para que os paramédicos pudessem acessar a parte superior do tronco. Uma das mãos do socorrista está aberta sobre o centro do tórax. Os dedos da outra mão se entrelaçam aos espalmados, fechando a base de apoio da massagem cardíaca. Com os braços posicionados a 90 graus do corpo, o paramédico tenta restabelecer o ritmo cardíaco, aparentemente sem sucesso.

Franzo o cenho em uma silenciosa expressão de compaixão. Será que há alguém aguardando sua chegada do outro lado da linha? Um paramédico, paramentado com uma caixa preta, passa por mim quando me aproximo da saída gradeada. Não olho para trás. A quantidade de ambulâncias e viaturas no local me diz que ela não deve sobreviver.

No cemitério municipal, a apenas algumas quadras de distância do terminal, mais pessoas se aglomeram na calçada, em frente a capela mortuária. Fico imaginando as últimas sensações daquela senhora, desfalecida no chão gélido de um terminal de ônibus qualquer, em plena segunda-feira. Os olhos curiosos que se fixaram sobre seu corpo inerte – o espanto diante da vida em plena ação: o seu cessar repentino, mas certeiro.

Os acordes de “Construção”, de Chico Buarque, correm aos ouvidos da mente: “E se acabou no chão feito um pacote tímido. Agonizou no meio do passeio náufrago. Morreu na contramão atrapalhando o público”.

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Sobre o autor

Ana Justi

Ana Justi é jornalista, graduada na Universidade Positivo (UP), e tem formação em Letras pela Universidade Estadual de Maringá (UEM).

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