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Uma voz negra no maior bairro do Sul do Brasil

No rap e na representatividade, Menthor do CIC busca expressar o cotidiano da Cidade Industrial de Curitiba

Uma voz negra no maior bairro do Sul do Brasil
Cantor e compositor no estúdio da Cwblack, produtora de audiovisual com sede na CIC. Foto: Eric Rodrigues/Plural

Diretamente da Vila Sabará, na CIC, Rubens Eduardo Teodoro, 46 anos, escreve, canta, atua e milita em prol da comunidade que reside. São essas lidas em múltiplas frentes que surgiu Menthor do CIC, nome artístico que lhe acompanha desde 1999.

Há mais de duas décadas, ele rima versos sobre batidas ao lado dos amigos e integrantes do Grupo J.A.C (Juri de Atitude Consciente). Renomado na cena rap, o grupo lançou, em 2006, a faixa ‘CIC’, que desde então ganhou status de hino do bairro.

Preparando-se para promover em setembro o seu primeiro trabalho musical solo, no EP “Namíbia”, o rapper busca o resgate de suas raízes ancestrais em cinco canções e o faz acreditando no protagonismo popular nas manifestações culturais brasileiras e na presença afro na história de Curitiba e região. "Eu queria fazer um disco mais pessoal, mas que também trouxesse referência da minha raça, da minha cor", relata.

Neste aspecto, seja como cidadão, líder comunitário ou artista, pleiteia uma maior presença cultural nas periferias. Imerso em um bairro amplo e complexo — tido como uma cidade dentro de outra cidade — mira nas conexões afetivas e sociais como válvula de escape para a violência que assola a Cidade Industrial.

Na fronteira da capital, na região oeste do mapa, a CIC ocupa a quinta colocação entre os bairros mais populosos do Brasil, com cerca de 172 mil habitantes. Os dados são do Censo Demográfico de 2022 e foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa amplitude torna difícil decifrar este espaço vasto e desigual, onde convivem indústrias de grande porte, vilas e ocupações.

No álbum "O Preço da Vitória É a Eterna Tentativa", lançado em 12 de julho de 2006, a faixa "CIC" se tornou um marco para música local. Composição: Menthor, Hauly, W. Finão, EDR, Nego Lê, J.A, Nei e Nino Di.

A ligação de Menthor com o bairro vem de família. Sua avó e outros entes migraram para a região nos anos 1960, antes de o CIC se tornar realmente um bairro¹. As primeiras lembranças vieram aos 6 anos (meados dos anos 1980) com recordações afetivas e sonoras. Uma das descrições trata de uma tia que morava na altura da Nossa Senhora da Luz. Na janela, ela colocava o rádio para fora de casa, amarrava uma fita vermelha na cabeça e se entregava aos versos de Cazuza. Era fanática pelo poeta e estrela do rock brasileiro. 

Graças a esse vínculo local, sente que o espírito do bairro o incorpora em tudo o que faz; seja na política ou na música, confessa que carrega consigo a alma de todos os moradores — do Caiuá à Nossa Senhora da Luz, do Sabará à Ilha Bela. Sua busca real é canalizar essa força coletiva em representatividade.

Afirmando ser um 'rapper na política', se colocou como candidato a vereador pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) em 2024. Estreante no pleito, obteve 282 votos. Não conseguiu uma cadeira na Câmara Municipal de Curitiba, mas avalia que colheu os frutos da iniciativa.

"Na política, fui para trazer representatividade, porque não havia uma voz que contasse a verdadeira história do CIC, o qual está fora do cartão postal. Após as eleições, vários vereadores empossados passaram a me procurar para entender as demandas do Sabará, e algumas delas foram atendidas. A minha maior vitória não foi ser eleito — é ver as coisas mudando na prática", disse.

Sobre o rap, recorda com nitidez a primeira vez que o som o capturou. No início dos anos 1990, ouvia o LP dos Racionais na casa de uma tia, a faixa "Fim de Semana no Parque" era (e ainda é) a sua favorita. Nos tempos da escola, lembra que o ato de decorar as letras trazia destaque aos jovens nos poucos minutos de recreio; e que uma professora sugeriu um trabalho educativo contra as drogas. Firmou parceria com outro aluno e compôs um rap sobre o assunto; guarda a letra na memória ainda.

"Crianças e jovens na companhia da rua, de noite ou de dia, na porta do serviço ou da escola, começam a fumar e cheirar cola. A droga mais conhecida é a maconha e a farinha, às vezes oferecidas por homens de gravatinha. A primeira é de graça, a segunda tem que comprar. Se não trabalha, seu pensamento é roubar."

A professora gostou da criação e propôs uma tour nas outras salas da escola, eles aceitaram e ganharam destaque. Até hoje, acredita que esse trabalho se tornou um marco na sua vida.

Em todos esses anos envolvidos com a música, a questão racial e a desconstrução do estereótipo de Curitiba como uma cidade europeia se tornaram temas caros ao artista. Menthor relembra a virada dos anos 2000, quando qualquer cultura fora do ‘padrão europeu’ era tratada com hostilidade. Rememora, inclusive, as inúmeras abordagens policiais truculentas que sofrera no centro da cidade. 

Com o tempo, encontrou outras pessoas com o mesmo pensamento, e se inseriu nos ‘aquilombamentos’ que geraram movimentos importantes, como a Marcha do Orgulho Crespo e o Pretinhosidade - bloco afro de carnaval de Curitiba. “Mostramos para a sociedade que somos muitos. Curitiba não é tão europeia assim; é multicultural, tem uma diversidade gigantesca” afirmou.

Segundo o músico, há uma conexão intrínseca entre o rap e o carnaval, ambos de raiz negra. Apesar de serem manifestações para todos, ele reforça a importância de lembrar a origem e a luta que tornaram essas expressões possíveis, citando a marginalização histórica do samba e da capoeira.

Para levar essa energia à periferia, fundou no Sabará o bloco de carnaval "Raízes do Gueto", com ensaios que envolvem a Umbanda, com o objetivo de mostrar que o carnaval também é periférico e para os trabalhadores que ali moram.

"A maioria dos blocos está no centro. É importante porque todo mundo se reúne, mas na periferia muitos moradores ainda têm aversão ao Carnaval, porque não chega até eles. Fundei o bloco para mostrar que o Carnaval é periférico e para a periferia. Assim como fiz com o J.A.C e agora com o disco solo, quero mostrar esse lado do Carnaval para a quebrada" afirmou.


¹ Em 1974, o decreto 641/1974 instituiu as áreas necessárias para a implantação da Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Ao todo, o distrito passou a ter mais de 43 km², sendo que foram necessárias desapropriações para sua implantação. “Além disto, como medida de incentivo à instalação de indústrias, o governo criou incentivos fiscais e concedeu isenção de impostos”, informa Carnasciali. O zoneamento da Cidade Industrial de Curitiba oficializa-se por meio da lei 4.773/1974.

Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional

Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação pela UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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