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Releituras musicais no cinema

Às vezes gostamos tanto da segunda versão de uma música que ela passa a ser a original

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O universo da arte é algo imersivo e apaixonante, porque todo tipo de manifestação artística tem a capacidade nata de levar seu público a diferentes lugares. Contudo, para apreciarmos uma obra de forma mais ampla, é recomendável que utilizemos alguns referenciais teóricos. Não estou falando de leituras aprofundadas e de largo conhecimento acadêmico, pode ser apenas o saber escolar sobre o assunto, que já será suficiente para que haja uma fruição satisfatória da arte observada.

Um desses conceitos tem relação com a leitura e a releitura de uma obra. A primeira vem da análise e da observação pura e simples, enquanto que a segunda consiste numa criação a partir da obra original. Quanto se trata de música, a releitura passa, essencialmente, pelo universo do arranjo. Uma nova instrumentação, uma batida diferente, um outro tipo de construção harmônica ou uma mudança sensível de andamento, podem ser recursos que o arranjador utilizará para essa releitura.

Releituras no cinema

No cinema são vários os exemplos de releituras musicais, sendo que, em certos casos, essa pode ser a peça principal do filme. Um dos melhores e mais recentes exemplos disso é a animação Sing – quem canta seus males espanta (2016). Nela, o simpático Mr. Moon, um coala que é dono de uma casa de espetáculos, tenta colocar seu teatro de volta no topo por meio de um concurso de novos talentos. A animação apresenta uma deliciosa seleção de canções, todas relidas especialmente para o filme.

Uma dessas músicas que ganharam um novo arranjo é I’m Still Standing, de Elton John. No filme, a canção é interpretada por Jhonny, um jovem gorila que não quer seguir os caminhos do pai, chefe de uma quadrilha de assaltantes. Quem dá voz à personagem e também canta a música é o ator Taron Egerton, que mais tarde viveria o próprio Elton John em Rocketman, filme do qual já falei aqui na coluna PopCorn Music.

A releitura de I’m Still Standing na voz de Egerton é excelente, realmente empolga e me faz pensar em um outro conceito, agora sim mais profundo do que o saber escolar nos apresenta, que é a instância de representação do original. Ocorre que, ao ouvirmos uma música e ficarmos impactados por ela, aquela primeira versão ouvida torna-se a nossa referência de originalidade para a canção.

Exemplo caseiro

No caso do filme Sing, vou exemplificar com um relato doméstico. Meus filhos ouviram I’m Still Standing pela primeira vez na versão do filme. A trilha sonora entrou no hit parade aqui de casa. Achei curioso o interesse pela canção do gorila Jhonny e resolvi mostrar aos dois a versão que, para mim, representa o original. Resultado: nenhum deles gostou.

Fiquei pensando a respeito e entendi o seguinte: a instância de representação do original, para eles, é a versão do filme Sing, enquanto que a original de verdade, raiz, gravada pelo Elton John, é só uma versão ruim da mesma música.

Nothing Hill

Há vinte anos vivi situação semelhante. Assisti ao filme Nothing Hill (1999), estrelado por Julia Roberts e Hugh Grant. Gostei demais. Vi outras tantas vezes e até comprei uma cópia em VHS e depois outra em DVD (que tenho até hoje).

Pois bem, eu, estudante de música, parti para o piano tirar de ouvido a canção tema, She, na voz do Elvis Costello. É bom salientar que estávamos numa época em que a internet era algo quase inexistente e não havia partituras para baixar, nem tutoriais no YouTube de como tocar determinada música, então a solução era mesmo tirar de ouvido. Estudei bastante e cheguei a transpor para o piano – e mais tarde para o saxofone – até os ornamentos vocais do Costello.

Pouco tempo depois fui apresentado ao falecido Napster, um sistema que permita baixar músicas em MP3. Animado com a novidade, procurei a canção She e a encontrei, mas na voz de Charles Aznavour. Ouvi e não gostei. Até hoje, para os meus ouvidos, a instância de representação do original de She continua sendo – e sempre será – com o Elvis Costello.

No ano passado fui gravar um material musical instrumental com o meu amigo Lucas Franco, um ótimo pianista de jazz. Entre as músicas estava She. Adivinha qual foi a representação do original que adotei na interpretação?

Para ir além

She, em nossa releitura instrumental

https://www.youtube.com/watch?v=mSEBDptdg3I

She, com Elvis Costelo

https://www.youtube.com/watch?v=O040xuq2FR0

She, na voz de Charles Aznavour

https://www.youtube.com/watch?v=nxaZMreym88

I’m Still Standing, na versão do filme Sing

https://www.youtube.com/watch?v=nYCOA2jQ-XA

I’m Still Standing, no original de Elton John

https://www.youtube.com/watch?v=ZHwVBirqD2s

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