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Projetos arquitetônicos da Prefeitura com o Ippuc desagradam uma multidão de curitibanos

Um dos projetos mais criticados é o da nova Câmara Municipal; para arquitetos, propostas deveriam passar por concurso público

Projetos arquitetônicos da Prefeitura com o Ippuc desagradam uma multidão de curitibanos
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A prefeitura tem três projetos de obras pensadas para marcar o ano em que a cidade completa seu 330º aniversário: a nova sede da Câmara Municipal de Curitiba (CMC), a Praça da Araucária (no bairro Vista Alegre), e o novo Centro Médico Comunitário e Maternidade Bairro Novo. Mas as novidades desagradaram boa parte dos curitibanos.

1. Nova sede da Câmara Municipal

O mais polêmico é o projeto da nova sede da CMC. O primeiro ponto que salta aos olhos é como será paga a conta das novas instalações, pois os valores não batem, conforme análise feita anteriormente pelo Plural (leia o texto aqui). 

Depois tem a opinião de quem é o verdadeiro dono da "casa do povo". Alguns comentários feitos no perfil do Facebook do prefeito Rafael Greca criticam o investimento de verba pública necessário para a obra e outros questionam as escolhas arquitetônicas do projeto, apelidado ali de "nave da Xuxa", "abóbora da Cinderela" e até "repolho". Trocando em miúdos, muitos não consideram a nova sede da câmara prioridade diante de outras necessidades da população e tem gente que achou a "coisa" feia mesmo.

2. Praça da Araucária com mirante

No vácuo da nova sede da Câmara Municipal vem a Praça da Araucária com mirante que promete uma vista invejável da cidade. Dá para notar como os pontos de vista sobre esse presente para a cidade são conflitantes nos 274 comentários que acompanham o post de Greca no Facebook, feito na última quinta-feira (12), sobre o lançamento desse projeto.

Muitos falam sobre a prefeitura lançar mais uma praça enquanto outras obras estão atrasadas, como a da Linha Verde, e sobre o abandono de praças e parques mais afastados do centro da cidade. Há ainda quem solicite atenção para ruas em péssimo estado e investimentos em saúde, por exemplo. 

Existem elogios e – é claro – também tem a falta de moderação do alcaide diante de críticas expressas ali. Em um desses casos, uma pessoa que pergunta se a cidade não tem mais o que priorizar, o prefeito apresenta alguns argumentos até válidos, mas emenda no final: "[Para] Inspirar você a ser menos mal humorado #XôEspíritoSemLuz". Em outro, afirma que a prefeitura está realizando um programa de obras de R$ 3 bilhões e complementa: "Se vc não vê, azar só seu. Se vc odeia ficará doente (sic)".

3. Hospital e Maternidade Bairro Novo

A nova estrutura para o hospital é a obra menos polêmica entre as três listadas aqui. Melhorias na saúde são sempre bem-vindas, além de necessárias e urgentes. Contudo, existe um ponto comum entre esses três projetos: arquitetos e entidades representativas da arquitetura criticam a utilização do Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba) para criar esses projetos em vez de promover concursos públicos. 

Concursos públicos de projeto de arquitetura

Tudo poderia ser melhor ao optar pelo concurso de projetos, segundo as fontes consultadas pela reportagem do Plural. A modalidade é prevista na Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos (14.133/2021) e o consenso é de que resulta em soluções mais interessantes e criativas, além de que o próprio diálogo com a comunidade é ampliado no processo, e vale lembrar de que estamos falando de obras públicas. A sugestão de adotar a criação dos projetos através do mecanismo de concurso também permite que o Ippuc se dedique ao que é sua excelência: a pesquisa e o planejamento da cidade.

Modelo consagrado e assertivo

O arquiteto sócio do escritório ArquiBusiness, Keiro Yamawaki, destaca locais considerados cases de sucesso dessa prática. "Bogotá e Medellín são exemplos, fazem concursos até de uma pracinha de 3 metros x 3 metros e isso enriqueceu muito a arquitetura nessas cidades, são modelos latinos que deram muito certo", diz ele.

Keiro ainda explica que quando equipamentos com a mesma função, como uma escola, passam por concursos diferentes, nenhum resultado é igual ao outro, todas têm um valor arquitetônico próprio: "Elas não são só uma escola, elas são pontos turísticos para arquitetos".

A crítica do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/PR) segue a mesma linha. Não se trata de avaliar o mérito do que o Ippuc fez, mas sim de continuar na "militância" para que os concursos de arquitetura sejam adotados em Curitiba. Segundo o presidente da entidade, Milton Zanelatto, eles são a forma mais assertiva para a criação de projetos de obras públicas hoje. 

"Num concurso desses, por baixo, você pode ter 150 pessoas ou escritórios interessados em participar. São 150 propostas pensadas de forma diferente e você paga apenas pelo melhor, que vai ser escolhido por uma banca capacitada", diz Zanelatto. 

Excelência curitibana

No caso específico de Curitiba, ainda é preciso levar em conta que a capital é o endereço de profissionais premiados em concursos no Brasil e no exterior. Os nomes vão dos tradicionais, como os escritórios de Jaime Lerner e de Manuel Coelho, até a nova geração, com o pessoal da Grifo Arquitetura, da Arquea e do Estúdio 41 (que ganhou fama ao vencer o concurso internacional para a reconstrução da Estação Comandante Ferraz, na Antártica, em 2013). 

Entre os destaques mais jovens, o arquiteto do Estúdio 41, Fabio Henrique Faria, considera que é preciso lembrar que os concursos de arquitetura são uma maneira de contratação democrática. "Se estimula a participação social e o envolvimento político. Podem surgir propostas desenvolvidas por profissionais e equipes diversas, de qualquer cidade do país. Isso é uma forma de trazer vanguarda novamente para Curitiba", afirma ele, que também está pesquisando o tema em seu mestrado. 

Recomendação da Unesco 

O Departamento do Paraná do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-PR), em nota enviada ao Plural, destaca vários aspectos favoráveis aos concursos. Entre eles, são listados resultados que se tornaram construções icônicas – como o Teatro Guaíra, na arquitetura paranaense, e a Pirâmide do Museu do Louvre, o Centro Cultural Georges Pompidou e a Ópera de Sydney, na arquitetura mundial. O texto também explica que existe uma recomendação da Unesco para que seus países membros "adotem o Concurso Público de Projeto como forma de contratação para Projetos Públicos de Arquitetura e de Urbanismo."

Remunerados ou não

Sobre o tema, a Associação Paranaense dos Escritórios de Arquitetura (Asbea/PR), se posicionou em mensagem assinada por seu presidente, Frederico Carstens: "A Asbea sempre prezou pela contratação da iniciativa privada e por concursos para projetos públicos. Mas a posição da associação, por se tratar de projetos de caráter públicos, é de que os mesmos deveriam ser fruto de execução por via de concursos públicos remunerados. Não concursos gratuitos que exploram o trabalho dos arquitetos, mas concursos remunerados". 

Uma cidade plural

Na opinião do arquiteto vice-presidente da Asbea/PR, Jorge Elmor, o Ippuc é essencial para o desenvolvimento da cidade, mas o órgão e a prefeitura falham na gestão participativa e deveriam buscar o olhar da população, dos arquitetos que vivem e que moram aqui e até de nomes internacionais, com a promoção dos concursos. "Porque isso, ao meu ver, seria mais democrático e com certeza a gente conseguiria ter uma visão mais plural e uma cidade mais plural", diz ele.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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