Ela abre a porta e vê um homem. “Pois não?”, diz ela, em francês. O homem diz que está ali por causa do anúncio. Ela procura alguém para dividir o apartamento. “Desculpe, mas eu estou esperando uma mulher”, diz ela. “Uma mulher?”, diz ele. “Sim, o nome dela é Camille.” O homem sorri e diz: “Eu sou Camille”. Assim começa a relação de Émilie Wong e Camille Germain, uma das histórias que formam “Paris, 13º Distrito”, em cartaz na MUBI.
"Paris, 13º Distrito" tem uma elegante fotografia em preto e branco, sem nenhum exagero de luzes e sombras, e que remete muito ao cinema francês dos anos 1960. E isso não acontece por acaso. Em entrevistas, o diretor Jacques Audiard disse que sua intenção era fazer referência à nouvelle vague de maneira geral e a um filme em particular: “Minha noite com ela”, de Éric Rohmer. No filme de 1969, Françoise Fabian e Jean-Louis Trintignant passam a noite conversando, com um interesse óbvio um pelo outro, mas que não vai além da conversa.
Paris, 2021
“Paris, 13º Distrito”, por se passar em outra época, na Paris de 2020 ou 2021, as pessoas conversam menos e transam mais. Ou conversam depois, a depender da qualidade do sexo.
Assim Émilie (Lucie Zhang, em seu primeiro filme) abre a porta para Camille (Makita Samba) e os dois acabam se envolvendo. Ela trabalha com telemarketing e vive no apartamento que é de sua avó. A ideia de alugar um quarto é para fazer um dinheiro extra. Camille é um professor que dá aulas para adolescentes e pensa em se dedicar a um doutorado. Eventualmente, ele muda de ideia para assumir a direção da imobiliária de um amigo.
Nesse novo papel, ele conhece e se encanta por Nora (Noémie Merlant), uma mulher de 30 e poucos anos que vem de Bordeaux para Paris a fim de terminar a faculdade. Numa festa de estudantes, ela é confundida com uma atriz pornô que ganha dinheiro com um serviço de webcam.
O episódio traumatiza Nora e ela vai atrás de Amber Sweet (Jehnny Beth), a atriz, e as duas acabam virando amigas.
Comédia romântica
Essas histórias que se cruzam parecem vibrar como a música eletrônica da trilha sonora. Elas têm algo de uma cidade grande e algo impessoal. Sem dúvida, “Paris, 13º Distrito” é uma comédia romântica que se passa em Paris, mas de um jeito muito diferente de como se convencionou fazer um filme desse gênero na capital francesa.
Além da fotografia em preto e branco, que cria faz contraste com uma história absolutamente atual (porque as pessoas costumam associar filmes em preto e branco ao passado), o diretor Jacques Audiard não oferece nenhuma cena da torre Eiffel ou dos bulevares do centro histórico parisiense. O romance de “Paris, 13º Distrito” se passa no bairro residencial do título, também chamado de Olympiades, que raramente aparece no cinema porque não tem nada da Paris antiga.
Audiard é um senhor de 70 anos dado a fazer filmes violentos. “Dheepan” é dele, assim como “O profeta”. Com esse romance moderno, ele mostra que tem coração, além de mostrar um capacidade impressionante de falar sobre como jovens se relacionam hoje, com aplicativos de encontro, troca de mensagens por celular e pornografia ao alcance de um clique.
Mas é razoável supor que o trunfo de Audiard, sua jogada de mestre, foi contar com duas escritoras mais jovens e muito talentosas para fazer o roteiro: Céline Sciamma e Leá Mysius. Das duas, Sciamma é a mais famosa, por ter escrito e dirigido “Retrato de uma mulher em chamas” e “Petite Maman”.
Onde assistir
“Paris, 13º Distrito” está em cartaz na MUBI.