“Há vários anos acompanho o início da atividade reprodutiva dos sabiás-laranjeira em Curitiba. Embora eles tenham começado a cantar - nos últimos 10 anos - a partir de julho, é logo no início do mês de agosto que a cantoria se intensifica. E se torna especialmente repetitiva em setembro/outubro, época de reprodução, quando são ouvidos e vistos por toda a cidade. Mas 2020 está assustadoramente diferente.”
O relato é do ornitólogo (especialista em aves) Fernando Straube. Ele integra o grupo Avifauna, de Curitiba, e participou dos primeiros levantamentos de aves na Capital e no Paraná; também é um dos pioneiros na popularização da observação de aves no país. O profissional recorda que, em anos passados, ao fim de agosto já era possível observar muitos sabiás pela cidade, no Centro, nos bairros, em parques e praças. O que caracteriza o início do período reprodutivo da espécie. O canto é característica dos machos para atrair as fêmeas e marcar território.
“Mas eles não estão mais aqui. Muito raramente se ouve - um ou outro - cantando timidamente ao longe. Neste exato momento, são 5h50 de 1° de setembro de 2020, estou no Pilarzinho, não ouço nenhum canto. Em outros anos, eu poderia escutá-los em grande quantidade, como comprovei por anos e anos a fio. Isso é indiscutível! Isso é assustador.”
Straube consegue ouvir joão-de-barro, pitiguari, bem-te-vi, avoante, guaxe, tucano-de-bico-verde, rolinha, quero-quero, saracura-do-mato e periquito. Mas nada do sabiá. “Em um percurso de 12 km entre ida-e-volta, do Pilarzinho ao Santa Cândida, não vimos um único indivíduo”, lamenta.
Em suas redes sociais, o post sobre o sumiço dos sabiás-laranjeira teve quase 300 comentários em apenas um dia. “Pelos relatos das pessoas, entre leigos e pesquisadores experientes, os sabiás não estão cantando também em outros lugares do Brasil, como a região de Corumbá/MS, Fortaleza/CE e vários outros pontos. Os que afirmam estar ouvindo, possivelmente os estão confundindo com outros pássaros”, avalia o ornitólogo.
Causas
O sumiço da espécie é relatado com muita preocupação. “Não é um fenômeno que obedece uma tendência, com declínio gradativo ao longo do tempo. Os sabiás-laranjeira, uma das espécies mais populares de nossa cidade, simplesmente sumiram de Curitiba. No ano passado, tudo parecia normal e, neste 2020, o silêncio ocorreu.”
Para Straube, não há dúvidas de que algo está errado. “Ou por consequência direta (redução do número de sabiás) ou indireta (variação climática). Não acho que faça sentido atribuir isso tudo somente à seca ou à onda de frio que presenciamos nos últimos dias. Condições climáticas especiais sempre ocorreram aqui e isso nunca afetou o ciclo sonoro urbano.”
Apesar dos estudos, o pesquisador diz que ainda não foi possível chegar a uma causa exata para o sumiço do canto dos sabiás. Há apenas uma certeza: “Estamos destruindo nossa natureza e nossa biodiversidade e isso não está sendo percebido pelas pessoas, que continuam acomodadas, pensando que tudo pode ser consertado. O racionamento de água é outro sinal. Eles nos mostram a urgência em mudar nosso modo de pensar e agir", alerta o biólogo.