Ainda bem que Hermann Hesse (1877–1962) contrariou o desejo dos pais e não se tornou um pastor. Aos 14 anos, ele fugiu do Mosteiro de Maulbronn para se dedicar à literatura e, apesar de subestimado em vida, se tornou um dos escritores mais importantes do século 20.
Antes de qualquer coisa, o alemão Herman Hesse era um jovem insubordinado que lutava contra as normas que instituições como religião, a sociedade, a família ou o Estado tentavam lhe impor. Além de não seguir a tradição familiar que o levaria a uma vida religiosa, Hesse não se conformava com a disciplina das escolas, com a vida matrimonial ou com a filosofia e o modo de pensar do Ocidente – o que influenciaria, mais tarde, seu trabalho como escritor.
Mesmo recebendo o Prêmio Nobel de Literatura em 1946, o reconhecimento de Hesse veio após sua morte, ocorrida em 1962. Hoje, sua obra está disponível em mais de 60 idiomas e já vendeu muitos milhões de cópias no mundo todo.
Herman Hesse
Romancista, Hermann Hesse escreveu, muitas vezes de maneira autobiográfica e reflexiva, sobre a luta contra o estilo de vida burguês, a busca pela própria identidade, além das frustrações e angústias da juventude.
Com obras consideradas ícones da contracultura dos anos 1960 e 1970, como "Sidarta", "Demian" e "O lobo da estepe" (esse último inclusive inspirou o nome da banda Steppenwolf, famosa pela música "Born to Be Wild"), o primeiro sucesso do autor veio em 1904, com o romance "Peter Camenzind". Nessa época, Hesse era casado com a fotógrafa Maria Bernoulli, com quem teve três filhos. O autor, no entanto, deixou a família e viajou à Ásia, onde entrou em contato com a cultura oriental e as tradições hinduístas e budistas. A experiência resultou no livro "Sidarta".
De volta ao ocidente, Hesse mudou-se para a Suíça, onde se naturalizou e escreveu "O lobo da estepe". Em 1914, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914–1918), ele passou a auxiliar prisioneiros de guerra e a escrever críticas constantes ao militarismo alemão. Foi durante esse período que ele produziu a obra "O jogo das contas de vidro".
A Primeira Guerra também causou uma crise emocional em Hesse, o que fez com que ele buscasse ajuda psicológica. Foi quando entrou em contato com o psicanalista Joseph Lang, discípulo de Carl Jung, que teve influência direta na obra "Demian".

Correspondência
Além de livros e poemas, Hermann Hesse foi um grande escrevedor de cartas e resenhas de livros. O autor chegou a receber mais de 40 mil correspondências de amigos, como Thomas Mann e Stefan Zweig, e de leitores, às quais respondia, normalmente, de próprio punho.
Parte dessas cartas está hoje guardada no Arquivo Suíço de Literatura, em Berna, e no Arquivo Alemão de Literatura, em Marbach. Só em Berna, segundo o jornal "Swissinfo", são cerca de 100 caixas com mais de 20 mil cartas vindas de 100 países e mais de 6 mil remetentes diversos.
"As cartas dão uma ideia extraordinária e mostram o autor de vários ângulos. Muitos se identificavam com ele. Ele transmitia a impressão de que eles não estavam sós com seus sofrimentos e entusiasmos", disse ao Swissinfo o funcionário do Arquivo Suíço de Literatura, Lukas Dettwiler.
Contradições
Mesmo seis décadas após a morte de Hesse, seu trabalho continua sendo lido e apreciado por milhares de pessoas. Isso porque o autor fala sobre angústias existenciais que praticamente todas as pessoas precisam enfrentar enquanto tentam descobrir seu lugar no mundo.
Em entrevista ao jornal alemão "Deutsche Welle", o biógrafo de Hesse, Gunnar Decker, afirmou que a popularidade e atemporalidade do autor estão no fato de Hesse ser um escritor que "sempre enfrentou as contradições do indivíduo no século 20".
"A gente sempre se pergunta: o que é a vida, de verdade? Como é essa vida que todos nós deveríamos viver, uma vida não alienada, mais humana? E como podemos conviver, apesar de tudo o que nos separa? Nesse aspecto, Hesse é um autor que constrói muitas pontes", disse.