Pular para o conteúdo

O primeiro dia no xilindró ninguém esquece

Benett imagina como seria o primeiro dia de Jair Bolsonaro na cadeia

Por Benett
O primeiro dia no xilindró ninguém esquece
Publicado:

Pelo corredor tenebroso de um cadeião perdido no Brasil (Papuda, talvez?) chega-se à cela reservada para o futuro ocupante mais ilustre do lugar. No alto da porta há um "Boas Vindas, meu presidente”, desenhado com giz de cera, caligrafia infantil e dois erros ortográficos em um cartaz rosa, para tentar fazer com que tudo não pareça tão cinza assim. Um detento “de confiança” se encarrega de mostrar ao novo inquilino como será seu lar pelos próximos 28 anos.

Detento de Confiança: - Bom, aqui é o seu estúdio.

Jair Bolsonaro: - Estúdio?

Detento de Confiança: - É. É um nome pomposo para não dizer cela, jaula ou quitinete. Sabe como é. Publicitários...

Jair: - Que cheiro é esse?

Detento de Confiança: - É o aroma de milhares de existências que estratificaram suas histórias nestas paredes, sob a solidão e a ribalta tênue do cárcere.

Jair: - Poderia falar em português?

Detento de Confiança: - É o tal cheiro de bunda de cadeia. Logo você se acostuma.

Jair: - E o que é aquele buraco no chão?

Detento: - É para onde você deve destinar o número 1 e o número 2. E não estou falando de seus filhos. Chamam de “boi".

Jair: - Boi? Ótimo. É bom saber que o agro ainda está do meu lado.

Detento de Confiança: - Aliás, deixe eu me apresentar, antes de mais nada. Eu sou Virgílio…

Jair: - Nome de viado! Hã hã hã.

Virgílio: - …

Jair: - Desculpe, é o meu jeitão brincalhão. Quando não estou sendo escroto, estou fazendo piadas escrotas.

Virgílio: - Vou me lembrar disso antes de cuspir na sua marmita todos os dias. Não, mentira. Quer dizer, sim, verdade. Não, mentira. Hm, talvez faça isso. Não. Mas pode acontecer.

Jair: - É, meu amigo. O que era um sonho se tornou pesadelo. Eu era tão poderoso quanto um imperador huno naqueles saudosos dias de 2018, 19. Como um encantador de cavalos, hipnotizei metade da população com minhas grosserias e minhas limitações morais e intelectuais. Me movia pelo Poder como erisipela em uma perna necrosada. Virgílio, como eu era popular, Virgílio! Arrebatava multidões. A classe média me amava porque me enxergava como um deles.

Virgílio: - Eu sei, iletrado mas de olhos claros.

Jair: - Eu era um estrondo. Misturei milícias com extremismo religioso, terraplanismo com Escola de Chicago, música sertaneja com Harley Davison. Médicos deixaram de acreditar na ciência por mim. Juristas deixaram de lado a Constituição por mim. Pais e filhos, irmãos e irmãs, maridos e esposas brigaram por mim. Eu queria mudar o sistema por dentro…

Virgílio: - Que tal o prisional? Sempre há uma segunda chance.

Jair: - Golpe. Todo mundo fala em golpe. Se eu tentei dar um golpe? Deixe eu te dizer uma coisa. EU sou o golpe. Rá, por essa você não esperava.

Virgílio: - Só para avisar, o chuveiro está queimado. Estamos esperando a prisão do Oswaldo Eustáquio para ele trocar pra você…

Jair: - Costuramos o apoio da Fiesp, Fierj, Fiep…

Virgílio: - Por falar em costurar, você sabe costurar bolas de capotão?

Jair: - Algo tinha que ser feito depois da eleição do nove dedos. Tinha que virar a mesa, como disse o General Heleno, meu personal Yoda. Haveria um banho de sangue? Sim, mas nada significativo. Jornalistas, oposição, políticos de esquerda, artistas e ativistas. Pretos e pobres. E gays… talvez alguns anões e albinos.

Virgílio: - Tem TV no quarto? Claro, isso aqui é a suíte presidencial da penitenciária. TV de ectoplasma. Veja quantos fantasmas…

Jair: - Seria preciso alguma tortura? Umas unhas arrancadas, afogamentos, choques elétricos nos testículos. O importante é não ser muito repetitivo, variar um pouco para não ficar maçante. Mulheres grávidas com ratos em suas vaginas e os filhos de cinco anos assistindo tudo? Seria desejável. Você não sabe quantos cristãos se masturbariam vendo essa cena…

Virgílio: - O Champinha, por exemplo…

Jair: - Perdemos oportunidades. Matar o Lula. Queriam matar envenenado. Eu fui contra. Absolutamente contra. Imagina ele agonizando. Gaaahhh (imita uma pessoa morrendo sufocada). Dois tiros na nunca seria perfeito. Depois nossos articulistas da imprensa paranaense corroborariam a tese de suicídio culposo. Um colunista mais engraçadão poderia dizer que ele foi tentar limpar a arma e… bum! Como Getúlio Vargas. Ou Vladimir Herzog. Nosso amigo, o governador Ratinho Jr., viria a público dizer que teria que esperar até a decomposição completa do corpo para saber o que de fato aconteceu. E, se não colasse, usaríamos a tese da legítima defesa. Sabe aquele papo, o elemento foi abordado após uma denúncia anônima, houve troca de tiros, ele revidou e deu no que deu. Poderíamos plantar drogas no bolso e dizer que ele estava numa moto roubada. Por favor, somos referência m undial em chacinas e execuções. O que poderia dar errado?

Virgílio: - Seus aposentos se resumem àquele catre feito com tubos de PVC. O colchão é da linha “leopardo”. Como assim, leopardo, Virgílio? Já vem cheio de manchas. 

Jair: - Depois seria a vez do Xandão. Penduraríamos seu corpo numa estátua da Havan por uma semana. Arrastaríamos seu corpo em uma motociata financiada por um empreendedor do ramo de hambúrgueres feitos com pão de padeiro.

Virgílio: - Vi que o senhor trouxe alguns livros. Uma Bíblia Sagrada e a biografia do Brilhante Ustra. Leituras que se complementam, eu diria.

Jair: - Estranho. Tudo está ficando embaçado. Frio. Que escuridão. Já está ficando noite…

Virgílio: - E não são nem dez da manhã. Senhor "Uncle Scrooge", tenho certeza que vai gostar de sua nova residência oficial. Podemos dizer que é um condomínio fechado. Claro, um pouco mais modesto que o Vivendas da Barra mas mais seguro. Bem, é isso, preciso ir. Tenho uma floresta inteira para atravessar. Aproveite o tempo livre para escovar os dentes. Eles estão horríveis.

Virgílio sai da cela, deixando Bolsonaro sozinho na escuridão com os olhos vidrados, como um cachorrinho abandonado na mudança. Ele tranca a porta, faz o caminho de volta como se flutuasse pelo corredor e joga a chave fora.

FIM

Benett

Benett

Cartunista e jornalista, é um dos sócios-fundadores do Plural. Chargista da Folha de S. Paulo e da Piauí.

Todos os artigos

Mais em Humor

Ver todos

Mais de Benett

Ver todos

De nossos parceiros