Entrevista: reitor da UP atribui demissões a "azar infernal" | Jornal Plural
21 jul 2020 - 11h49

Entrevista: reitor da UP atribui demissões a “azar infernal”

O economista José Pio Martins diz que a instituição desligou 277 pessoas, entre professores e funcionários

Desde a semana passada, o Plural vem noticiando demissões em massa e extinção de cursos e setores da Universidade Positivo (UP). A instituição, que foi fundada em 1988 e era administrada pelo Grupo Positivo, foi comprada, no fim do ano passado, pelo Grupo Cruzeiro do Sul. A nova mantenedora se manifestou apenas por notas à imprensa, sem confirmar ou negar números e informações.

A reportagem entrou em contato com o economista José Pio Martins, que segue à frente da reitoria da UP mesmo com a mudança. Ele atribuiu o corte de vagas a uma série de fatores, como decisões políticas e a própria pandemia. Acompanhe.

Plural: Como se deu o processo de venda?

Pio: A Universidade Positivo pertencia ao Grupo Positivo. No dia cinco de dezembro, foi anunciada a venda para o Cruzeiro do Sul. Mas o Cruzeiro do Sul não podia assumir, naquele momento, porque a transição precisava passar pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). O CADE levou até o dia quatro de março para analisar a operação. No dia cinco de março, o Cruzeiro do Sul veio para cá e foi a primeira vez que nós tivemos contato com eles.

Quem é o Cruzeiro do Sul?

O Cruzeiro do Sul tinha 12 Instituições de Ensino Superior (IES), entre faculdades, universidades e centros universitários. A Universidade Positivo é a 13ª IES deles. O Grupo não tem um grande nome nacional porque quando compra uma IES, não muda o nome. Se as 13 tivessem o mesmo nome, ok, seria bem conhecido. Mas eles têm: Universidade Franca, Universidade do Estado de São Paulo, Centro Universitário Distrito Federal e por aí vai… 

O senhor foi convidado para continuar no cargo de reitor?

Sim, eles me convidaram para ficar. Eu conversei com eles e perguntei qual era o propósito. Eu brinco que o “topa tudo por dinheiro” é um programa do Sílvio Santos, eu não topo tudo por dinheiro. Eu não sigo num projeto por dinheiro se eu não acreditar na moral e na qualidade. Eu já tenho uma carreira.

E concordou com as mudanças?

Na área educacional superior privada, tem uma coisa que as pessoas não entendem: existe uma empresa comercial, que tem vida no mundo do direito empresarial (financeiro, trabalhista, tributário), e essa empresa é a mantenedora de uma IES. A IES, no caso da Universidade Positivo, tem vida no mundo do direito educacional. Mas não é ela a patroa dos professores e nem dona da estrutura. A UP não tem CNPJ. Temos uma empresa comercial que se chama Centro de Estudos Superiores Positivo LTDA (CESPO). A empresa mantenedora foi vendida. O sócio do CESPO passou a ser o Cruzeiro do Sul. Eu sou reitor da Universidade, então eu dirijo uma instituição e tenho responsabilidade perante o direito educacional. Mas eu não assino cheque, eu não contrato professor. Eu sugiro, evidentemente. 

Como avalia essa transição?

O Cruzeiro do Sul levou um azar infernal, porque assumiu no dia cinco de março e no dia 15 – dez dias depois – eu estava numa reunião, na sala do reitor da Universidade Federal do Paraná, com 40 pessoas, inclusive a Secretaria de Estado da Saúde e a Secretaria Municipal de Saúde, decidindo o que fazer. No dia seguinte, as estatais suspenderam as aulas e as demais suspenderam em seguida. Nós fizemos isso no dia 19. E aí já veio o isolamento social. Então, eu conheci cinco ou seis pessoas do Cruzeiro e só. Tudo dali pra frente passou a ser pelo computador. 

Então as demissões tiveram a ver com a pandemia?

A presidente Dilma se reelegeu em outubro de 2014 e em dezembro anunciou praticamente o fim do FIES. Quase 30% dos estudantes dependiam do FIES. Hoje, ele é um programa morto. Só existe para aqueles que seguem pagando. Em 2015 e 2016, houve uma recessão brutal. Em 2017, o país cresceu um pouquinho, mas o FIES não reabriu, então o setor educacional como um todo começou a perder aluno. Aí veio um desemprego desastroso. Antes da recessão, o Brasil tinha cinco milhões de desempregados e a Dilma entregou para o Temer com 12 milhões. Juntando tudo isso, já vinha havendo uma queda muito grande nas mensalidades médias. As mensalidades que saem nos editais, viraram nominais, porque todas as instituições, inclusive nós, tiveram de montar programas de descontos e bolsas, senão perderiam alunos. Quando o Cruzeiro do Sul comprou a UP, comprou por tudo o que ela é e pensava em tocar um projeto, mas, como eu disse, dez dias depois de eles assumirem havia uma tragédia mundial chamada coronavírus. Foi uma desgraça. Muitos pais e alunos perderam emprego e renda, foi um caos. Aí começa aquela história: aluno trancando, aluno cancelando… A inadimplência subiu. 

De quais outras formas a Universidade tentou lidar com esse momento?

As aulas teóricas poderiam ser remotas, mas as práticas não. Tudo isso foi uma hecatombe. Pra mim, por exemplo, seria muito cômodo sair. Eu já tenho 45 anos de carreira profissional com carteira assinada. Mas eu disse ao pessoal: não abandono o barco no meio da tempestade. Vamos segurar esse rojão e adaptar. Propusemos aos alunos o parcelamento. Suspendemos o pagamento desses três meses de aulas remotas, eles podem pagar depois de formados. Fizemos uma pilha de coisas para tentar segurar os alunos. Mas tem inadimplência, queda de receita, trancamento, evasão… E a captação de alunos também não foi boa este ano. 

A solução final foi demitir?

Saíram por aí dizendo que demitimos 300 professores, é claro que não. Grande parte é de funcionários administrativos. Engenharia, manutenção, informática, financeiro, secretaria, atendimento… Se você tem uma padaria e compra outra, não vai contratar outro contador, o contador é o mesmo. Isso teria de ser feito com pandemia ou sem pandemia. Acontece que nós tínhamos outras questões… Tem muitos detalhes internos. Por exemplo: nós chegamos a ter 90 professores com poucas horas na UP. Muitas dessas pessoas que saíram foram nessas condições. Você tira três professores de oito horas e contrata um de 24. 

Não foram 300 professores, mas foram 300 funcionários. Certo?

Não chega a isso… Mas uma grande parte é junção é de áreas administrativas. 

Mas qual é o número?

De total de desligamentos?

Sim.

277 ou coisa desse tipo.

E de professores?

Isso dá 160… Mas tem um monte de professor que não ficou no mundo da lua. É médico, advogado, promotor… Tem outro trabalho. 

Mas nem todo professor, né?

É claro que tem muita gente que saiu, vai ter que pegar o dinheiro da rescisão e tentar se recolocar. 

Quantos profissionais a Universidade tem?

1.857.

Houve extinção de cursos?

Os cursos de licenciatura em Física, Matemática e Química, nós ofertamos para ver no que ia dar. Ocorre que o Cruzeiro do Sul já tem esses cursos no EAD. Outros cursos nós cancelamos porque nem têm alunos… Alguns têm cinco ou seis, nós estávamos tentando para ver se dava certo… Também fechamos uma unidade na Cidade Industrial e outra no Hauer, antes da pandemia. Tudo isso para fazer uma adaptação a essa realidade. Outro dia saiu no jornal: os tubarões do lucro. Achei engraçado que até a PUC tá no meio, chamaram os padres de tubarões do lucro… Não tem lucro nenhum. Tudo o que nós fizemos foi para evitar um prejuízo de mais de 50 milhões só neste ano. 

Os cursos EAD passam a ser ofertados de São Paulo?

Nós temos 13 ou 14 mil alunos EAD e 16 mil presenciais. Entramos tarde no EAD. O Cruzeiro é muito grande e tem a Cruzeiro do Sul Virtual. É um prédio inteiro, em São Paulo, onde eles administram tudo isso. Os cursos que estão na Universidade Positivo continuam, a UP é a dona do curso. Mas a administração, o apoio pedagógico, a parte de informática e tecnologia, tudo isso vem de uma área central. O Cruzeiro deve ter uns 150 mil alunos EAD, nós temos uns 10% disso… O nosso forte é o presencial.

O senhor confia no Grupo Cruzeiro do Sul?

Claro que nós mesmos estamos observando o Cruzeiro do Sul. Por todas as informações que eu tirei, é um grupo sério, ético e de boa qualidade. Eu preciso confirmar isso. Empreendedor é um sujeito que tem três sonhos na vida: crescer, investir e aumentar. Ele tem um espírito animal, no sentido positivo da palavra. É uma coisa boa. Empresário que cresce, investe e tem bons resultados, contrata. A pior desgraça que pode acontecer na vida de um empreendedor é ter que demitir. Até admito que em alguns casos não é nem pelo amor ao trabalhador. É porque ele só demite se tiver que reduzir. Eu não tenho nada com o Cruzeiro do Sul, comecei a conhecê-los agora. Mas o fundador está desde 65 na área educacional e mandou uma carta para cada colaborador dizendo: é o momento mais triste e constrangedor de minha vida ter que enfrentar essa pandemia e ajustar para não morrer. E lá na frente, esperar que isso tudo acabe, o país comece a crescer e contratar esse povaréu que está desempregado.

Vocês pretendem mexer no campus Ecoville ou sair de lá?

Não, o campus está alugado por 20 anos. 

São milhares de egressos com o nome da Universidade Positivo no currículo. No que a instituição vai se transformar?

Minhas três filhas têm Universidade Positivo no currículo e eu estou lá há 20 anos. Se eu vier a descobrir que o Cruzeiro tem más intenções e quer fazer uma coisa de quinta, eu não fico nisso de jeito nenhum. Não vou jogar uma carreira no lixo. Reconheço a crise. 

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Um comentário sobre “Entrevista: reitor da UP atribui demissões a “azar infernal”

  1. Resumo da entrevista do Excelentíssimo Sr. Reitor da Universidade Positivo:
    Continuou no cargo de Reitor mesmo com a venda da UP para o Grupo Cruzeiro do Sul por “não topar tudo por dinheiro” mesmo tendo uma carreira de 45 anos como Economista.
    Ele dirige uma Instituição de Ensino Superior mas suas prioridades são a “Moral”, o “Direito Educacional” e os interesses da “Empresa Comercial”.
    Só a Cruzeiro do Sul levou um “azar infernal” com a Pandemia do Corona vírus.
    Ele não gosta da ex-Presidente Dilma e tem 3 filhas que em seus currículos tem cursos da UP.
    O Reitor não abandona o barco no meio da tempestade, mas abandona os tripulantes: entre eles 277 professores, funcionários e prestadores de serviços.
    Na opinião dele a Cruzeiro do Sul é um grupo sério, mas se estiver com más intenções ele não irá jogar sua “carreira” no lixo.
    O Reitor em nenhum momento se referiu aos pais e alunos que acreditaram no histórico do Grupo Positivo e investiram seus bens mais preciosos para obter mais do que um diploma de graduação ou pós graduação, e sim uma formação profissional e cívica de qualidade baseada em conhecimentos técnicos, científicos e éticos.
    Também não citou que desde março os pais e alunos não foram notificados sobre a venda para o Grupo Cruzeiro do Sul da Universidade Positivo e quais seriam suas consequências e mudanças na vida acadêmica dos alunos.
    Trataram apenas de facilitar o pagamento das mensalidades, mas em nenhum momento falaram em reajustar os valores de cursos presenciais para EAD no período em que durar a Pandemia.
    Nenhum comunicado direto da instituição, nem sequer um email de apresentação da Cruzeiro do Sul informando de seus princípios educacionais e ações que serão tomadas para enfrentar os desafios que esse momento demanda foi enviado.
    O Digníssimo Sr. Reitor não pode “jogar a vida dele no lixo” e os Pais, Alunos, Professores e Funcionários podem?

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