Empresários de Curitiba lançam manifesto contra reabertura de comércios | Jornal Plural
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16 abr 2020 - 16h37

Empresários de Curitiba lançam manifesto contra reabertura de comércios

Donos de 93 bares e restaurantes assinaram documento que pede medidas mais enérgicas contra a expansão da Covid-19

Um dia após o prefeito Rafael Greca (DEM) anunciar a reabertura dos comércios em Curitiba, proprietários de bares e restaurantes da capital, lançaram uma carta aberta em que se manifestam contra a medida. Para os empresários, a decisão de Greca ignora sob o ponto de vista técnico, a proteção da população e, com isso, favorece a vontade de forças políticas econômicas.

Na carta, os 93 proprietários solicitam que os governos municipal e estadual tomem medidas mais rígidas e preventivas para mitigar os efeitos da Covid-19 e garantir a sobrevivência econômica da gastronomia curitibana, durante e depois da pandemia. Entre essas ações está a renegociação das contas de água e luz dos estabelecimentos e a atuação/regulação junto aos serviços de delivery que monopolizam o mercado na atualidade.

Ieda Godoy, proprietária dos estabelecimentos Mafalda e Mãe, uma das porta-vozes do manifesto, destaca que a reabertura é prejudicial em um momento de ascensão no número de casos do novo coronavírus. Para ela, essa decisão pode levar a uma expansão ainda maior do vírus e isso resultaria em um novo fechamento dos comércios. “Isso acaba desestabilizando a sociedade e os empresários, porque fica nesse vai e vem, essa atitude é um retrocesso!”, diz Ieda.

Os empresários ainda disseram que os estabelecimentos permanecerão fechados por tempo indeterminado. No entanto, destacam que os pronunciamentos conflitantes entre governos, prefeituras e sindicatos patronais tem dificultado a clareza dessa decisão. Para eles, o avanço do coronavírus no Paraná e a diminuição do isolamento social, provam a necessidade de se manter comércios fechados.

O prefeito Greca disse ontem nas redes sociais que jamais mandou fechar o comércio. E ressaltou que os comerciantes fizeram isso porque quiseram. Já os empresários disseram na carta que só vão reabrir os seus estabelecimentos, quando os 6 itens para flexibilização da quarentena, recomendados pela OMS, forem atendidos pelo município.

Entre essas instruções estão: o controle da transmissão do vírus; a capacidade do sistema de saúde em detectar, testar, isolar e tratar os infectados pela doença; o controle de surtos em locais como hospitais; medidas preventivas nos ambientes de trabalho escolas; o manejo de novos casos importados; e o engajamento da população com as medidas de higiene.

Para Ieda Godoy, é importante que todas as pessoas que se sintam desamparadas por essa pandemia sejam ouvidas. Segundo ela, a reabertura normal dos comércios deve ser feita somente quando houver segurança. “Os órgãos tem que ter mais firmes na hora de defender a sociedade do problema”, afirmou.

Leia a íntegra da carta:

ESTAMOS FECHADOS

Carta aberta de empresários curitibanos contra a reabertura precoce dos comércios na cidade.

Nós, proprietários de bares, restaurantes, cafeterias e casas noturnas de Curitiba, solicitamos por meio desta carta que autoridades municipais e estaduais apresentem medidas mais enérgicas, essenciais e preventivas para mitigar os efeitos da Covid-19, bem como ações em relação à sobrevivência do setor da gastronomia curitibana durante e após a pandemia.

Estamos fechados. E permaneceremos enquanto for necessário. No entanto, pronunciamentos conflitantes entre governos, prefeitura e sindicatos patronais têm dificultado a clareza desta decisão, tornando-a cada dia mais difícil. Do lado de governo e prefeitura, cada instituição se pronuncia de uma forma e dá um entendimento de medidas. Do lado dos sindicatos patronais, alguns pedem a reabertura e outros, o fechamento.

A decisão de reabertura do comércio ignora, sob ponto de vista técnico, a proteção da população, dando vez à influência de forças econômicas e políticas, quando a prioridade deveria ser unicamente a saúde pública.

O iminente avanço do Coronavírus no país, a projeção pessimista para o número de mortes e o descaso com a importância do isolamento social provam a necessidade disso. E, quando aqueles que nos representam em qualquer esfera dão de ombros, cabe à sociedade civil agir.

Aos fatos:
● 16 de março de 2020, o Governador do Paraná, por meio de decreto 4.318/20, determinou o fechamento de comércios em todo o estado;
● 23 de março – Governador mantém recomendação de que comércio não abra suas portas;
● em 26 de março, Governo mantém ordem de isolamento doméstico;
● em 27 de março, Prefeito de Curitiba manifesta publicamente a necessidade do isolamento social para evitar mortes;
● em 7 de abril, Prefeitura de Curitiba e Governo do Estado decidem manter o isolamento social como recomendação prioritária;
● em 9 de abril, o Ministério Público suspende convite de ACP para reabertura dos comércios;
● Em 15 de abril, Prefeito de Curitiba nega que Prefeitura sugeriu fechamento do comércio e cita que setor atuou por “modismo”. Ignorando o histórico recente e recomendações da OMS, a Prefeitura de Curitiba, a Associação Comercial do Paraná e o SindiAbrabar pretendem reabrir os comércios na próxima sexta-feira, 17 de abril.

Sem nenhuma evidência de que o distanciamento social deva ser abandonado, o que pauta a decisão de reabrir comércios?

Diferentemente do que os órgãos acima citados indicam para a próxima sexta-feira, seguiremos fechados.

Fechados contra os “modismos” das decisões públicas permeadas por lobbies empresariais.

Fechados com a vida de milhares de pessoas. E só reabriremos quando os 6 itens para “flexibilização da quarentena”, recomendados pela OMS, forem minimamente atendidos pelo Município.

Ressaltamos que esta decisão conjunta é permeada por dados – e que especulações, opiniões pessoais e teorias negacionistas não irão sobrepor estudos científicos.

A reabertura precoce e a consequente elevação de contágios resultará em um novo fechamento de portas. E novos prejuízos serão contabilizados: perda do poder de negociação com fornecedores e/ou locatários, desgaste nas relações de trabalho já estabelecidas, problemas com aquisição e validade de estoque, entre outros.

Conscientes de que perdas financeiras acontecerão, mas que vidas jamais podem ser tratadas como moeda de negócio, seguiremos fechados – também em consideração a todo o esforço realizado até aqui para que a curva de contágio seguisse minimamente controlada.

Além de nos mantermos fiéis às recomendações do Ministério da Saúde e da OMS, requisitamos às entidades competentes que assumam sua responsabilidade neste momento e nos posicionem sobre pautas e medidas que, de fato, fortaleçam os comerciantes do Estado, sem expor a vida de milhares de pessoas ou deixar negócios por sua própria conta e risco em um momento tão delicado. Entre elas:

● Abertura de discussão com a comunidade com participação deste grupo que vos escreve.
● Apresentação de medidas econômicas em prol do setor de Bares e Restaurantes de Curitiba enquanto a Covid-19 estiver, pelo menos, na sua fase aguda – projetada, por ora, segundo estudo anexo, até 15/05/2020.
● Atuação e/ou regulação junto aos APPs de delivery que monopolizam o mercado e retiram 20% de margem na operação, o que, em grande parte, inviabiliza o negócio, favorecendo a atuação de inúmeros negócios que atuam nas plataformas sem se enquadrar em regimes tributários – canibalizando o mercado formal –, além de medidas claras para a segurança dos entregadores.
● Proposta para renegociação das contas de água e luz.
● Apoio e agilidade na disponibilização de crédito via CEF e Fomento PR.
● Proposta não apenas de postergação de pagamentos de impostos, mas redução dos mesmos.
● Coerência nas orientações do poder público nos âmbitos estadual e municipal. Se a principal estratégia de contenção da Covid-19 adotada no Brasil é o distanciamento social, é fundamental que salões de restaurantes e bares permaneçam fechados e que sejamos orientados semanalmente sobre os próximos passos.
● Medidas de conscientização junto aos locadores de pontos comerciais sobre a necessidade de renegociação e carência de aluguéis.

Curitiba, 16 de abril de 2020.

Andrew Guilherme Pereira dos Santos – Ananã Coquetéis
Karin Louise Kaudy – Ananã Coquetéis
Thiago Gabardo – Polpettas – Pizzas e Cozinha Italiana
Leonardo Z. Gabardo – Polpettas – Pizzas e Cozinha Italiana
Janaina Santos – Cosmos G/astrobar
Ricardo Saad – Cosmos G/astrobar
Bruno Milek – Jazz Café
Ênio Guilherme Motta – Jazz Café
Lívia Farah – A Caiçara
Fredy Ferreira – A Caiçara
Flávia Pizzani Prieto – Paradis Club
Edson Luis de Oliveira – Paradis Club
Isabelle Todt – Paradis Club
Luiz Melo – Supernova Coffee
Renata Schaitza – Mornings
Daphne Kondo- Yada Yada Yada
Daphne Kondo – Nada Nada Nada
Alyssa Aquino – Yada Yada Yada
Alyssa Aquino- Nada Nada Nada
Daniele Giovanelli Jorge – Desafinado Café
Rafael Andrade Suzuki – Manifesto Café
Fabiola Jungles – Flama Torras Especiais
Daniel Mocellin – Whatafuck e Pizzaria da Mathilda
Ana Priscila de Mello Raduy – James Bar
Luciano Franco Geraldo – James Bar
Patricia Bandeira – Botanique Cafe Bar e Plantas
Juliana Girardi – Botanique Café Bar e Plantas
Patricia Belz – Botanique Café Bar e Plantas
Ieda Godoy – Mãe
Ana Adade – Mãe
Ieda Godoy – Mafalda
Sandra Pliatti – Mafalda
Pedro Vieira – Ginger Bar
Milena Costa de Souza – Ginger Bar
José Carlos Gomes dos Santos – VU e PULP
Marcio Reineken – VU e PULP
Amanda Kosinski – Central do Abacaxi
Keiji Mitsunari – Izakaya Hyotan

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