Em 2020, Curitiba enfrenta sua pior seca em 40 anos | Jornal Plural
4 maio 2020 - 20h33

Curitiba enfrenta sua pior seca em 40 anos

Sanepar lança mão dos rodízios no fornecimento porque o volume de água em um dos rios que abastece a cidade caiu 70%

Curitiba é uma região de baixa disponibilidade hídrica – na qual há pouca oferta de água e uma população elevada – e seguirá preocupada com seu abastecimento pelo menos até o fim de 2020.

Faz seis semanas que a cidade enfrenta períodos de racionamento de água cada vez mais frequentes. A princípio, o motivo era uma baixa nos reservatórios, mas agora, com a confirmação de uma seca intensa – a pior dos últimos 40 anos –, os rodízios no fornecimento de água podem virar rotina por pelo menos quatro meses. 

O problema está no Sistema Miringuava, um dos quatro que abastece Curitiba e Região Metropolitana, e o único que não conta com barragens. A captação da água nesse sistema é feita superficialmente, direto do rio de mesmo nome. Com a falta de chuva na região, a vazão do rio caiu 70%. Antes, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) conseguia retirar mil litros por segundo do Miringuava e, agora, esse volume caiu para 300 litros. Embora as barragens também apresentem baixa em seus níveis, elas permitem o armazenamento de água, ao contrário da captação superficial, na qual a água segue direto do rio para a estação de tratamento.

“Isso fez com que tivéssemos de adotar o rodízio de água nos bairros abastecidos por esse sistema produtor”, explica Fabio Basso, gerente de produção da Sanepar. De fato, a região passa por uma seca intensa. “Se você analisar os dados, desde outubro vem chovendo pouco em Curitiba. Não é de agora”, diz o pesquisador Pedro Fontão, especialista em secas e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 

Barragem do Passaúna também sofre consequências da seca em seus níveis. Foto: Sanepar/Divulgação

A situação pode se agravar com o outono e o inverno. “Habitualmente, os meses de outono e inverno são meses de estiagem – as chuvas normalmente são reduzidas, comparadas aos outros meses. Estamos entrando em uma condição de seca com uma intensidade muito elevada, como não víamos desde o início da década de 1980”, avalia o pesquisador, ao analisar dados climatológicos de Curitiba de 1961 até os dias atuais. 

De acordo com o Standardized Precipitations Index(SPI), recomendado pela organização Meteorológica Mundial para o monitoramento de secas, estamos diante de um período difícil. Dados do Instituto Federal de Meteorologia apontam que, em março, data do início dos rodízios, Curitiba teve precipitação de 13,8 mm ao longo dos 31 dias do mês.

Segundo Fontão, a falta de chuva se explica pelo comportamento das frentes frias que passaram pela região durante a primavera e o verão. Atuando com mais intensidade na região sul do país, as massas de ar trouxeram altas pressões atmosféricas, resultando em um tempo seco, ensolarado e com pouca chuva. Ideal para férias, mas um problema no longo prazo. “A seca é um fenômeno lento, você não consegue enxergá-la imediatamente. Às vezes demora meses para você sentir o que está acontecendo”, diz.

Hoje, o rodízio ocorre porque há o que técnicos chamam de “incapacidade de oferta” de água potável, uma vez que, sem a água do rio Miringuava, não há matéria-prima para produzir água potável. Para tentar amenizar os impactos da seca, parte da demanda de abastecimento da cidade tem sido feita com água remanejada de outros dois sistemas: o Iguaçu, cuja captação vem dos rios Iraí, Itaqui e Pequeno; e o Passaúna, cuja principal fonte de água é a Represa do Passaúna. “Nós conseguimos minimizar impactos, mas não conseguimos suprir totalmente a falta de um sistema”, explica Basso.

Em março, Curitiba registrou apenas 13,8 mm de chuva. Foto: Sanepar/Divulgação

Se não for possível abastecer os bairros usando, por exemplo, a transposição de parte da água de outro sistema, a Sanepar lança mão do rodízio. A duração e o período em que o racionamento ocorre é determinado por uma série de fatores: tamanho e demanda dos bairros, e a capacidade de produção de água potável no momento da realização do cronograma. 

Bairros maiores acabam recebendo água por métodos diferentes, e têm sua extensão dividida por regiões, podendo haver até três delas em um mesmo bairro. “Quando fazemos o rodízio e falamos que o Tatuquara [por exemplo] vai ficar sem água, um dia é uma região, no outro dia é outra”, explica o gerente de produção. Nesses casos, a Sanepar disponibiliza um mapa para que os curitibanos possam conferir quando sua região será afetada. 

Sem solução, mas com impactos

“Depois que a seca está configurada, e não há grandes fontes de água próximas para serem usadas, a chuva seria a solução”, diz Fontão. Segundo o pesquisador, uma chuva volumosa o suficiente para recuperar os mananciais da região só deve acontecer a partir de setembro. Será preciso, primeiro, que as chuvas tenham um volume de 30 mm a 50 mm, ao longo de um período de 24 horas. Outro fator determinante será a região: a chuva tem de cair sobre grandes áreas da bacia hidrográfica. 

Há uma chuva prevista para cair nesta terça (05) ou quarta-feira (06), mas ela será, na melhor das hipóteses, um pequeno alívio. “Não recupera os mananciais, mas alivia”, diz Fontão. 

Os impactos socioeconômicos da seca são vários – dos rodízios ao aumento no preço de produtos da lavoura e da indústria. “Se há um rodízio no momento em que mais precisamos lavar a mão, isso tem um impacto muito grave. Se afetar o preço de alguns produtos, é um impacto extremamente grave num momento em que muita gente está ficando desempregada”, diz o pesquisador. 

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