Bandeira vermelha é quase impossível no sistema da Prefeitura de Curitiba | Jornal Plural
6 out 2020 - 0h39

Bandeira vermelha é quase impossível no sistema da Prefeitura de Curitiba

Apenas com todos os indicadores no alerta máximo é possível chegar ao valor necessário para se declarar bandeira vermelha

Instituído em 9 de junho, o Sistema de Monitoramento da Covid-19 da Prefeitura de Curitiba determinou três níveis de alerta para comunicar a situação da cidade na pandemia: amarelo, laranja e vermelho. Neste último, o Sistema prevê uma total restrição às atividades, como forma de conter o avanço do coronavírus. Era para ser um sistema objetivo, baseado em números, portanto, imune à pressão política.

O único problema: da forma que foi concebido, o sistema faz da bandeira vermelha uma improbabilidade matemática. Só um em 20 valores possíveis resultaria na bandeira vermelha. Isso porque o cálculo criado pela Secretaria Municipal de Saúde faz uma média ponderada dos 9 indicadores, cujo valor máximo é 3, e só o 3 corresponde ao alerta máximo.

A bandeira laranja, que é o alerta moderado, é indicada para todos os valores entre 2 e 2,99. Já a bandeira amarela corresponde a todos os resultados de 1 a 1,99.

Para chegar ao indicador da bandeira vermelha a cidade teria que registrar, por exemplo, de uma semana para outra, 100% de aumento – ou mais – nas confirmações de novos casos de óbitos, a redução pela metade de todos os leitos, entre outros registros dramáticos.

Isso chamou a atenção do engenheiro mecânico Murilo Linzmayer. “É simplesmente impossível que todos os parâmetros cheguem à bandeira vermelha”, diz. Só com todos os nove indicadores na bandeira vermelha, a média final chega ao valor necessário para definir a bandeira vermelha na cidade.

O cálculo

O sistema criado pela Secretaria Municipal de Saúde tem nove indicadores. Para cada indicador há três faixas de valores, uma para cada bandeira. “Para que o valor final indique a bandeira vermelha, todos os nove parâmetros precisam também indicar o mesmo”, diz Linzmayer.

O Plural simulou a situação e confirmou a tese do engenheiro. Só com todos os indicadores no vermelho a bandeira vermelha pode ser decretada.

Acompanhe o cálculo referente à semana do dia 25 de setembro:

  • Indicador 1 | Número de casos novos confirmados nos últimos sete dias, em relação ao número de casos novos confirmados nos sete dias anteriores: 2.449/2.936 = 0,83
  • Indicador 2 | Número de internados por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em UTIs no dia, em relação ao mesmo número de sete dias atrás: 604/640 = 0,94
  • Indicador 3 | Número de pacientes de covid-19 confirmados em leitos de UTI no dia, em relação ao mesmo número de sete dias anteriores: 258/281 = 0,91
  • Indicador 4| Número de pacientes de covid-19 confirmados em leitos clínicos no dia, em relação ao mesmo número de sete dias atrás: 271/298 = 0,92

Para esses quatro indicadores, os resultados até 1 correspondem à bandeira amarela (valor 1), entre 1 e 2 é bandeira laranja (valor 2) e mais que 2 é bandeira vermelha (valor 3). O peso para cada indicador é de 0,375. Com isso, temos:

=> Para cada indicador de 1 a 4: Valor 1 * 0,375 (peso) = 0,375/cada
Total: 1,50
BANDEIRA AMARELA

  • Indicador 5 | Número de casos confirmados nos últimos sete dias para cada 100.000 habitantes: 126,69
  • Número de óbitos nos últimos sete dias para cada 100.000 habitantes: 3,52

No Indicador 5, os valores até 5 correspondem à bandeira amarela (valor 1), até 15, bandeira laranja (valor 2) e maior que 15, bandeira vermelha (valor 3). Para 126,69 o valor correspondente é 3.

=> O peso para este item é 1,75.
Total: 5,25
BANDEIRA VERMELHA

Já no indicador 6, os valores até 1 correspondem à bandeira amarela (valor 1), até 2,50, bandeira laranja (valor 2) e maior que 2,50, bandeira vermelha (valor 3). Para 3,52 o valor correspondente é 3.

=> O peso para este item é 1,75.
Total: 5,25
BANDEIRA VERMELHA

  • Indicador 7 | Número de leitos de UTI disponíveis para atender covid-19 no dia: 76

Este indicador tem valor de bandeira inversamente proporcional ao número de leitos disponíveis. Se houver menos de 84 leitos livres, a bandeira correspondente é vermelha. Entre 85 e 139 leitos, a bandeira é laranja. E mais de 140 é bandeira amarela.

=> O peso desse indicador é 1.
Total: 3
BANDEIRA VERMELHA

  • Indicador 8 | Número de leitos de UTI disponíveis para atender covid-19 no dia, em relação ao mesmo número de sete dias atrás: 76/53 = 1,43
  • Número de leitos de enfermaria disponíveis para atender covid-19 no dia, em relação ao mesmo número de sete dias anteriores: 112/95 = 1,18

Ambos indicadores recebem valor 1 (bandeira amarela) se o resultado for maior que 0,99 (o que indica que o número de leitos livres se manteve ou aumentou em relação à semana anterior. Para resultados entre 0,50 e 0,98 o indicador recebe valor 2 (bandeira laranja) e para valores inferiores a 0,49 o resultado é 3 (bandeira vermelha).

=> Na data do cálculo, estes indicadores receberam, ambos, valor 1. Os dois tem peso 2.
Total: 4
BANDEIRA AMARELA

Valor final = 19/10 = 1,90
BANDEIRA AMARELA

Mudança brusca

Para chegar ao valor 3, quase todos os indicadores precisariam de mudanças bastante acentuadas. Por exemplo, o indicador 1 é descrito pela Secretaria como “Número de casos novos confirmados nos últimos 7 dias/ Número de casos novos confirmados nos 7 dias anteriores”. Ou seja, é preciso somar os novos casos confirmados dos últimos 7 dias e dividir pela soma dos casos novos confirmados da semana anterior.

No último dia 25 de setembro, o total de novos casos confirmados em 7 dias foi de 2.449, e o dos 7 dias anteriores foi 2.936. O resultado da divisão de 2.449 por 2.936 é 0,83. Para este e os demais primeiros três indicadores, a SMS determinou faixas por bandeira, conforme descrito abaixo:

Valores por bandeira para os quatro primeiros indicadores do Sistema de alerta da Secretaria Municipal de Saúde

Com isso, o valor da bandeira para o indicador 1 é 1, ou bandeira amarela. Esse cálculo traduz em números a relação entre o comportamento dos novos casos de uma semana para outra. Se o resultado é menor que 1, quer dizer que houve menos casos confirmados na semana atual em relação à anterior. De 1 a 2, quando o indicador é para bandeira laranja, os novos casos da semana do cálculo são mais do que da semana anterior.

Para passar de dois, o número de casos da semana precisa ser o dobro, ou mais, dos casos da semana anterior. No caso da semana do dia 25, o número de novos casos teria que ir de 2,9 mil para 5,8 mil em sete dias.

Já o indicador 9 é o número de leitos de enfermaria disponíveis no dia do cálculo, dividido pelo número de leitos disponíveis sete dias antes. No dia 25, estavam livres 112 leitos; sete dias antes, eram 95. O resultado é 1,18, o que corresponde, pela escala da Prefeitura, à bandeira amarela. Para chegar à bandeira vermelha, o município teria que ter menos de 46 leitos livres.

O mesmo vale para o indicador 8, que calcula o índice para leitos de UTI livres. No dia 25, o resultado para esse item foi de 1,43 – uma vez que havia 76 leitos livres e 53 sete dias antes. Para chegar ao indicador vermelho seria necessário que menos de 25 leitos estivessem livres.

Mas mesmo se todos os itens, menos 1, estivessem na bandeira vermelha, o resultado ainda seria bandeira laranja. Por exemplo, se apenas o indicador 8, que tem peso 2, ficasse na bandeira laranja, enquanto os demais tivessem valor 3 (bandeira vermelha), o resultado da média ponderada ficaria em 2,8, ou seja, bandeira laranja.

Na prática, teria acontecido o seguinte: o número de casos, de óbitos, de internados com Covid-19 e com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) teria dobrado em sete dias. O índice de casos e óbitos por 100.000 seria alto (mas se manteria na bandeira vermelha, que já é o indicador hoje). Também teríamos menos de 84 leitos livres de UTI.

E, por fim, o número de leitos livres de enfermaria teria caído pela metade de uma semana para outra. Mesmo assim, o indicador ainda manteria a bandeira laranja.

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