Grande Curitiba perde 18 agências dos Correios em três anos | Jornal Plural
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23 set 2020 - 22h37

Grande Curitiba perde 18 agências dos Correios em três anos

Fechamento das unidades dá espaço a plano de privatização e deixa moradores na mão

Como em todo o Brasil, a disponibilidade de agências dos Correios vem diminuindo em Curitiba. Desde 2017, a Capital perdeu pelo menos dez unidades, segundo levantamento feito pelo Plural. Uma delas, a tradicional Agência Central, conhecida como Correio Velho, que lançou o serviço na cidade. Inaugurado em 1934, o prédio encerrou atendimento ao público em julho de 2019, quando outras 160 agências dos Correios de todo o país fecharam as portas.

Com as baixas na Região Metropolitana, o número de pontos de atendimento encerrados nos últimos três anos chega 18 na Grande Curitiba – como se uma unidade fosse fechada a cada dois meses. Parte do que o Governo Federal chama de ‘plano para conter a crise da empresa’, o fechamento das unidades dá espaço ao plano de privatização estudado pela equipe econômica de Jair Bolsonaro (sem partido), ao mesmo tempo em que deixa moradores na mão.

O levantamento feito pelo Plural apurou como fechadas em Curitiba as agências dos Correios Batel, Industrial de Curitiba (na Rua João Negrão), Bigorrilho, Ceasa, Uberaba, Portão, Mercês e Central. A agência franqueada Curitiba (na Avenida Marechal Deodoro) também não existe mais, assim como o Centro de Distribuição Domiciliar (CDD) Avenida Brasília, no bairro Novo Mundo.

Na Região Metropolitana foram encerradas oito agências, são elas: Borda do Campo (São José dos Pinhais), Jardim Brasília (Mandirituba), Campina Grande do Sul, Campo Magro, Roça Grande (Colombo), Itaperuçu, Jardim Paulista (Campina Grande do Sul) e Aeroporto Internacional Afonso Pena.

“Não tem nenhuma outra agência perto e é horrível agora. O pouco que a gente tem de serviço à disposição eles conseguem tirar”, lamenta a manicure Nicole Nielsen, 18 anos. Ela e a mãe têm um salão de beleza na Rua João Bettega, uma das mais importantes e movimentadas vias do bairro Portão, em Curitiba, que abrigava a maior agência do bairro.

Em agosto de 2020, a Agência Portão fechou e dificultou a rotina de milhares de curitibanos que dependia de uma das maiores agências dos Correios na Capital. “Eu e minha mãe usávamos direto. E não só a gente, porque tem muitas pessoas reclamando da falta que faz”, acrescenta a manicure.

Segundo o Sindicato dos Trabalhadores nos Correios do Paraná (Sintcom-PR), a agência funcionava como espécie de polo para ao menos sete bairros da Capital. Além do Portão, atendia também moradores do Capão Raso, Vila Izabel, Guaíra, Fazendinha, CIC e Campo Comprido. Agora, a agência própria mais próxima, uma franqueada, fica na Avenida Arthur Bernardes, a mais de meia hora de caminhada.

E as extinções das agências dos Correios se repetem já há algum tempo em vários outros pontos da cidade. A Agência Mercês, no bairro de mesmo nome, encerrou os atendimentos há cerca de dois anos, para descontentamento de moradores e comerciantes da região. A unidade ficava na extensa Avenida Manoel Ribas, em um trecho cercado de estabelecimentos comerciais.

“Aqui sempre tinha um movimento bem grande, era sempre bastante gente. Fez falta. O que eles disseram na época foi que fechou porque, como funcionava como banco também, tinha bastante assalto”, relembra a vendedora Vanessa de Almeida Barros, 38, que trabalha em frente ao antigo endereço da agência.

Os Correios não contestaram a lista e justificaram que os fechamentos foram definidos “conforme os parâmetros do  projeto de readequação da rede de atendimento dos Correios, iniciado em 2018”. A empresa garantiu que, apesar dos cortes, “a cobertura não foi afetada, visto que as demandas da população foram absorvidas por agências próximas”.

Foto: Jess Carvalho/Plural

Menos agência, menos cidadania

O encolhimento dos Correios impacta atividades importantes para a sociedade. Nas agências dos Correios oficiais, que chegam a todos os municípios do país, quer por unidades próprias ou pontos de atendimento, qualquer cidadão brasileiro pode obter o Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), documento obrigatório no Brasil. Em agências selecionadas, também há oferta de serviços bancários em correspondência com o Banco do Brasil, conforme mostra o site da empresa. Isso faz com que em áreas remotas, muitas vezes, este seja o único ponto de acesso a saques.

Contudo, nenhum destes serviços pode ser encontrado nas agências franqueadas, modelos de negócios próprios que operam sob a marca da empresa, mas sem a característica pública, e que vêm sendo mantidas pelo Governo.

Em discurso à Câmara dos Deputados em 2017, o professor Igor Venceslau, do Laboratório de Geografia Política e Planejamento da Universidade de São Paulo (USP), lembrou que o que está em jogo com a decisão do futuro dos Correios – e a restrição de agências disponíveis – não é apenas uma revisão econômica. Autor de uma dissertação de mestrado que analisa o papel dos Correios na formação socioespacial brasileira, o geógrafo destacou o poder de integração e universalidade como grandes marcas dos serviços prestados pela empresa brasileira.

“No Brasil, quando se fala em fechamento de agências, seja por iniciativa da empresa ou privatização, do que estamos falando é da entrega de vacina a não ser realizada, do livro didático, dos concursos públicos. Alguém já se perguntou como é feita a logística da prova do Enem?”, observou o pesquisador diante dos parlamentares. “Os Correios participam da elaboração de políticas públicas, não é só um serviço postal”, acrescentou.

Sobre as agências dos Correios no Paraná, a empresa diz ter hoje “mais de 500 pontos de atendimento disponíveis à população, ficando assegurado, assim, a universalização dos serviços postais.”

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