Walt Whitman, poeta da democracia | Jornal Plural
25 jan 2019 - 0h00

Walt Whitman, poeta da democracia

Na estreia da seção de literatura do Plural, Guilherme Gontijo Flores traduz Whitman, o “cantor da democracia como convívio entre seres diferentes e irredutíveis que, ao mesmo tempo, se reconhecem numa partilha”.

O poeta, ensaísta, romancista e jornalista norte-americano Walt Whitman nasceu em 31 de maio de 1819, em Huttington (estado de Nova Iorque), descendente de ingleses e holandeses. Quando tinha 35 anos, publicou a primeira edição de Leaves of grass, obra que viria a ser um dos maiores marcos de toda poesia moderna ocidental, com um sucesso enorme em vida, a ponto de receber nove edições do autor, até sua morte em 1892, em Camden (estado de Nova Jérsei).

O livro foi tradicionalmente traduzido em língua portuguesa como Folhas de relva e já recebeu uma série de versões no Brasil e em Portugal; no entanto, percebo que até hoje sua obra permanece menos lida do que o esperado, talvez porque quase sempre lembramos de sua obra como uma revolução métrica, já que Whitman é o inventor do verso livre moderno, usando como base os versículos da Bíblia e o ritmo da vocalização. De certo modo, Whitman é mais lido em português nos seus grandes discípulos, dos quais dois merecem referência: o heterônimo Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa, e Jorge de Lima. Mas sua obra, ainda que traduzida, permanece pouco lida e comentada para além da “Canção de Mim Mesmo” (Song of Myself).

Na verdade, Whitman é também uma potência revigorante de vínculos humanos. É o cantor por excelência da confiança de se estabelecer uma democracia como convívio entre seres diferentes e irredutíveis que, ao mesmo tempo, se reconhecem numa partilha. Por isso tinha a necessidade de escrever num verso que já não se estabelecia como prática aristocrática; por isso a igual necessidade de falar um verso que dialogasse com um público amplo. Por apostar na vida, Whitman permanece sendo um poeta para multidões, e isso sem fazer concessão ao pensamento simplório ou ingênuo.

Há em sua poética revolucionária uma política revolucionária que não caberá jamais em puras agendas partidárias. Essa política é a do vínculo. Nós, assim como vários de seus poemas, somos como folhas de grama, folhas de capim que se entrecruzam, sem podermos nos considerar indivíduos atomizados. Penso que uma afirmação dessas é, mais do que nunca, necessária em tempos de cisão dos elos sociais e de desapontamento geral com a potência de uma política séria. Alguém pode dizer que usar Whitman é tirá-lo de seu contexto. Pelo contrário, usá-lo é plenamente dar-lhe vida em meio aos vivos. A poesia sem P maiúsculo, como lembrava Nicanor Parra, “Os poetas desceram do Olimpo”.

Este ano comemoramos 200 anos de seu nascimento. Por isso, traduzo aqui alguns poemas curtos do que chamo Folhas de capim. Porque desejo, ao verter Whitman num português brasileiro, reescutar os ritmos de uma voz pulsante para além do papel, porque anseio com que seja um convívio que extrapole o puro jogo literário. Seguem abaixo alguns poemas breves.

To You (from Inscriptions)

Stranger! if you, passing, meet me, and desire to speak to me, why should you not speak to me?
And why should I not speak to you?

A Você (de Inscrições)

Estranho! se você topar comigo e quiser falar comigo, por que não falaria comigo?
E por que eu não falaria contigo?

Thou Reader (from Inscriptions)
Thou reader throbbest life and pride and love the same as I,
Therefore for thee the following chants.

Tu, Leitor (de Inscrições)
Tu, leitor, pulsas vida, orgulho e amor tanto quanto eu,
Por isso para ti estes cânticos.

As Adam, Early in the Morning (from Children of Adam)
As Adam, early in the morning,     
Walking forth from the bower, refresh’d with sleep;
Behold me where I pass—hear my voice—approach,
Touch me—touch the palm of your hand to my Body as I pass;
Be not afraid of my Body.

Que nem Adão, bem cedinho (de Filhos de Adão)
Que nem Adão, bem cedinho,
Saindo do caramanchão, renovado pelo sono,
Olhem por onde passo — escutem minha voz — se acheguem,
Me toquem — toquem a palma da mão no meu Corpo quando passo;
Não tenham medo do meu Corpo.

To a Stranger (from Calamus)
Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,     
You must be he I was seeking, or she I was seeking, (it comes to me, as of a dream,)
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall’d as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me, or a girl with me,
I ate with you, and slept with you—your body has become not yours only, nor left my body mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass—you take of my beard, breast, hands, in return,
I am not to speak to you—I am to think of you when I sit alone, or wake at night alone,
I am to wait—I do not doubt I am to meet you again,     
I am to see to it that I do not lose you.

A um Estranho (de Cálamo)
Estranho que passa! você não faz ideia da saudade quando te olho,
Deve ser aquele que procuro, ou aquela que procuro (isso me vem como num sonho)
Nalgum lugar é certo que vivi em alegria com você,
Tudo retorna enquanto nos cruzamos, fluidos, afeiçoados, castos, maduros,
Você cresceu comigo, foi menino comigo, ou menina comigo,
Eu comia com você e dormia com você — teu corpo parou de ser só teu, nem deixou meu corpo ser só meu,
Você me dá o prazer dos teus olhos, rosto, carne, enquanto passamos — em troca, leva da minha barba, peito, mãos,
Não devo falar com você — eu devo pensar em você quando cismar sozinho ou acordar sozinho à noite,
Devo esperar — não duvido que vou te rever,
Devo cuidar pra não te perder.

Sometimes with One I Love (from Calamus)
Sometimes with one I love, I fill myself with rage, for fear I effuse unreturn’d love;
But now I think there is no unreturn’d love—the pay is certain, one way or another;
(I loved a certain person ardently, and my love was not return’d;     
Yet out of that, I have written these songs.)

Às Vezes com Quem Amo (de Cálamo)
Às vezes com quem amo me encho de raiva por medo de esbanjar amor incorrespondido;
Mas hoje penso: não tem amor incorrespondido — a paga é certa, seja como for;
(Amei uma pessoa ardentemente, e meu amor não foi correspondido;
Foi disso que escrevi estas canções.)

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