Sobre a luta para ver as coisas como elas são | Plural
25 nov 2019 - 21h53

Sobre a luta para ver as coisas como elas são

Para lidar com alguns problemas do século 21, livro busca inspiração em duas figuras cruciais do século 20: o primeiro-ministro Winston Churchill e o escritor George Orwell

Um dos argumentos mais importantes do livro “Churchill & Orwell” é o de que você pode e deve buscar no passado as referências para tentar entender melhor o presente. É uma ideia meio óbvia, mas reafirmar o valor de ideias óbvias nunca pareceu tão necessário quanto agora.

A vantagem de Thomas E. Ricks é que, mesmo advogando em nome de ideias incontestáveis, ele tem um texto claro e elegante, e constrói seu argumento de maneira envolvente. O autor escolheu duas figuras cruciais do século 20 para sublinhar a importância da liberdade, da democracia e dos direitos civis.

Ricks é um especialista em assuntos militares que já venceu o Pulitzer com reportagens sobre a Guerra ao Terror (no Washington Post) e o futuro das Forças Armadas dos Estados Unidos (no Wall Street Journal). Para um homem que conhece muito sobre geopolítica e conflitos armados no Oriente Médio, ele é incrivelmente otimista.

“A luta para ver as coisas como elas são talvez seja o principal vetor da civilização ocidental”, escreve ele, citando um percurso que começou com Aristóteles, passando por vários pensadores e cientistas, para chegar até Winston Churchill (1874-1965) e George Orwell (1903-1950). “Trata-se do consenso de que a realidade objetiva existe, de que as pessoas de boa-fé podem vê-la e de que outras pessoas irão mudar seu ponto de vista quando conhecerem os fatos objetivos.”

O argumento de Ricks é significativo porque arremata o livro e se refere a problemas que enfrentamos no presente – quando vemos a realidade objetiva ser questionada por tantos, notamos a ausência das pessoas de boa-fé em posições de autoridade e convivemos com uma maioria silenciosa que ignora os fatos objetivos simplesmente porque não dizem o que ela quer ouvir.

O curioso é que, em vez de cair na armadilha de ficar reclamando de políticos incompetentes – apesar de descer o sarrafo no ex-primeiro-ministro Tony Blair, por apoiar George W. Bush na invasão do Iraque –, Ricks constrói um argumento a favor da humanidade, concentrando-se no copo meio cheio e nos exemplos de Churchill e Orwell.

O livro alterna capítulos sobre um e outro, buscando pontos de contato entre eles, que são poucos porque Orwell ainda não era ninguém quando Churchill já era Churchill. Parte das conexões que Ricks faz têm a ver com as entradas de Orwell em seu diário, quando fazia comentários sobre o então primeiro-ministro, mostrando simpatia em relação às decisões que Churchill tomava de resistir aos alemães.

A influência de Orwell aumentou muito depois de sua morte, à medida que “A revolução dos bichos” e “1984” passaram a ser lidos por mais e mais pessoas. O primeiro livro é uma fábula que explica os mecanismos de um estado autoritário. O escritor tinha Stálin e os russos em mente quando criou a história, mas sua perspicácia extrapola o comunismo. O segundo é profético ao tratar de um estado baseado nos serviços de inteligência (embora o escritor não tenha imaginado que o maior bisbilhoteiro da vida alheia não seria o estado, mas empresas com interesses comerciais).

George Orwell morreu relativamente desconhecido e subestimado. Hoje, há quem o considere o maior escritor inglês do século 20. (Foto: Reprodução)

Já Churchill viveu para ver sua ascensão e queda (política), mas teve um bocado de reconhecimento em vida. Depois de escrever os seis volumes de suas memórias da Segunda Guerra Mundial, um livro indesviável para qualquer um que se interesse pelo assunto, Churchill ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1953.

Churchill era um conservador que defendia o império britânico (uma fonte citada por Ricks diz que “Nenhum homem sem uma dose de despotismo em seu caráter conseguiria enfrentar Hitler”). E Orwell era um sujeito que cultivava a própria comida e abominava o comunismo, o fascismo e o imperialismo. Hoje, seu legado é disputado por gente com posicionamentos políticos à esquerda e à direita. Na prática, Orwell era contra os abusos de poder cometidos pelos dois lados.

Talvez a maior sacadas do livro de Ricks seja mostrar que dois homens com posicionamentos políticos distintos tinham valores em comum (a liberdade sendo o maior deles) e compartilhavam também o dom de enxergar o que estava diante de seu nariz enquanto outros não conseguiam fazer o mesmo.

Serviço

“Churchill & Orwell – A luta pela liberdade”, de Thomas E. Ricks. Tradução de Rodrigo Lacerda. Zahar, 352 páginas, R$ 69,90.

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