“Pessoas normais” lembra muito a vida real, cheia de mal-entendidos | Jornal Plural
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20 jan 2020 - 16h54

“Pessoas normais” lembra muito a vida real, cheia de mal-entendidos

Livro da irlandesa Sally Rooney narra a história dos jovens Connell e Marianne, e do afeto que sentem e não conseguem exprimir

A história do livro “Pessoas normais”, de Sally Rooney, acompanha Connell e Marianne, dois adolescentes que não conseguem se afastar um do outro. A relação deles lembra muito a vida real, cheia de mal-entendidos e deduções erradas. Apesar disso, o afeto que sentem em nenhum momento desaparece de verdade.

A amizade entre os dois era improvável. Connell, na escola, era mais do tipo popular, a estrela do time de futebol, enquanto Marianne preferia ficar quieta, longe dos outros, sendo ignorada e desprezada pelo resto da escola. Mesmo com essa diferença de popularidade entre os dois, uma amizade que aparentava ser impossível começa a ser criada porque Connell costuma buscar a mãe no trabalho – e ela é faxineira na casa da família rica de Marianne.

Uma situação em que a diferença econômica deles é visível: “Nunca falavam, por exemplo, do fato de que a mãe dela pagava à mãe dele para esfregar o chão e pendurar as roupas lavadas, ou do fato de que esse dinheiro circulava indiretamente até Connell, que o gastava, de modo geral, com Marianne”.

A narrativa do livro avança rápido, tendo sempre uma diferença de alguns meses entre um capítulo e outro. Essa passagem de tempo dinâmica pode ser interessante em alguns momentos, mas em vários outros deixa pontas soltas, e você fica sem saber exatamente o que aconteceu depois. Mesmo isso pode ser legal às vezes porque te força a imaginar os eventos que preenchem os meses não escritos.

Um momento que mostra bem como o livro é cheio de mal-entendidos é quando Connell está sem dinheiro para pagar o aluguel. Ao contar isso a Marianne, ele espera que ela o chame para dividir o apartamento. Ela, por sua vez, entende as palavras dele como um fora:

É, ele disse. Vou ter que sair do apartamento do Niall.
Quando?, perguntou Marianne.
Logo. Talvez na semana que vem.
O rosto dela se enrijeceu, sem demonstrar nenhuma emoção especifica. Ah, ela disse. Então você vai voltar pra casa. (…)
Ela assentiu, ergueu as sobrancelhas brevemente e voltou a baixá-las, e fitou a xícara de café. Bom, ela disse. Imagino que você volte em setembro.
Seus olhos doíam e ele os fechou. Não conseguia entender como aquilo havia acontecido, como deixou a discussão lhe escapar desse jeito. Seria tarde demais para falar que queria ficar com ela, isso era claro, mas quando havia ficado tarde demais? Parecia ter acontecido imediatamente.

A autora não se preocupa em avisar quando os personagens estão falando, por isso ela não usa aspas, muito menos travessões. Esses pequenos detalhes, e a história narrada, tornam o livro atraente, ainda que ele não tenha um clímax, um evento de grande importância e euforia, se igualando mais uma vez ao cotidiano da vida real – constante, sem emoções extremas, tanto boas quanto ruins.

Serviço

“Pessoas normais”, de Sally Rooney. Tradução de Débora Landsberg. Companhia das Letras, 264 páginas, R$ 54,90.

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