Ahistória do livro “Pessoas normais”, de Sally Rooney, acompanha Connell eMarianne, dois adolescentes que não conseguem se afastar um do outro. A relaçãodeles lembra muito a vida real, cheia de mal-entendidos e deduções erradas.Apesar disso, o afeto que sentem em nenhum momento desaparece de verdade.
Aamizade entre os dois era improvável. Connell, na escola, era mais do tipopopular, a estrela do time de futebol, enquanto Marianne preferia ficar quieta,longe dos outros, sendo ignorada e desprezada pelo resto da escola. Mesmo comessa diferença de popularidade entre os dois, uma amizade que aparentava serimpossível começa a ser criada porque Connell costuma buscar a mãe no trabalho– e ela é faxineira na casa da família rica de Marianne.
Umasituação em que a diferença econômica deles é visível: “Nunca falavam, porexemplo, do fato de que a mãe dela pagava à mãe dele para esfregar o chão ependurar as roupas lavadas, ou do fato de que esse dinheiro circulavaindiretamente até Connell, que o gastava, de modo geral, com Marianne”.
Anarrativa do livro avança rápido, tendo sempre uma diferença de alguns mesesentre um capítulo e outro. Essa passagem de tempo dinâmica pode serinteressante em alguns momentos, mas em vários outros deixa pontas soltas, evocê fica sem saber exatamente o que aconteceu depois. Mesmo isso pode serlegal às vezes porque te força a imaginar os eventos que preenchem os meses nãoescritos.
Ummomento que mostra bem como o livro é cheio de mal-entendidos é quando Connellestá sem dinheiro para pagar o aluguel. Ao contar isso a Marianne, ele esperaque ela o chame para dividir o apartamento. Ela, por sua vez, entende aspalavras dele como um fora:
É, ele disse. Vou ter que sair do apartamento do Niall.
Quando?, perguntou Marianne.
Logo. Talvez na semana que vem.
O rosto dela se enrijeceu, sem demonstrar nenhuma emoção especifica. Ah, ela disse. Então você vai voltar pra casa. (…)
Ela assentiu, ergueu as sobrancelhas brevemente e voltou a baixá-las, e fitou a xícara de café. Bom, ela disse. Imagino que você volte em setembro.
Seus olhos doíam e ele os fechou. Não conseguia entender como aquilo havia acontecido, como deixou a discussão lhe escapar desse jeito. Seria tarde demais para falar que queria ficar com ela, isso era claro, mas quando havia ficado tarde demais? Parecia ter acontecido imediatamente.
Aautora não se preocupa em avisar quando os personagens estão falando, por isso elanão usa aspas, muito menos travessões. Esses pequenos detalhes, e a histórianarrada, tornam o livro atraente, ainda que ele não tenha um clímax, um eventode grande importância e euforia, se igualando mais uma vez ao cotidiano da vidareal – constante, sem emoções extremas, tanto boas quanto ruins.

Serviço
“Pessoas normais”, de Sally Rooney. Tradução de Débora Landsberg. Companhia das Letras, 264 páginas, R$ 54,90.