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Dois desaparecimentos, duas mortes. Como nosso cérebro reage a uma tragédia?

Psicanalista de Londrina alerta que eventos trágicos, como os ocorridos no Paraná nesta semana, exigem tempo e reformulação para que a vida possa seguir, ainda que diferente do futuro sonhado

Dois desaparecimentos, duas mortes. Como nosso cérebro reage a uma tragédia?
Cachoeira em Sapopema, norte do Paraná Foto: Divulgação CBMPR

Nesta semana os paranaenses acompanharam com apreensão dois casos de desaparecimento com finais trágicos. Em Araucária, região metropolitana de Curitiba, o sumiço do menino João Gabriel Ferreira dos Santos, de 5 anos, um autista não verbal, mobilizou equipes durante três dias na propriedade rural em que ele vivia com os pais. Na terça-feira, dia 28, seu corpo foi encontrado dentro de um biodigestor.

Já no norte do Paraná, em Sapopema, as buscas pela fotógrafa londrinense Ana Paula Silveira Cardoso, de 29 anos, perduraram até quinta-feira, dia 30, quando os bombeiros a localizaram, já sem vida, no Salto das Orquídeas. Ana havia caído no rio no sábado (25), assim como sua amiga, Ana Carolyne Camilo, que sobreviveu e foi resgatada no domingo, horas após o acidente.

Duas tragédias que tomaram conta do noticiário e abalaram familiares e amigos. Como nosso cérebro se comporta diante da perda de pessoas amadas de forma trágica? Qual a reação do nosso corpo à experiência de proximidade da morte?

“O que separa a tragédia de outras dores é o susto. Quem acompanha um filho gravemente doente durante meses trava uma batalha igualmente terrível, mas de outra natureza, pois teve tempo, ainda que um tempo cruel. Já a notícia do menino que não foi encontrado vivo chega e é um horror”, comenta o psicanalista Sylvio do Amaral Schreiner, de Londrina.

O menino João Gabriel. Foto: Arquivo pessoal
O menino João Gabriel. Foto: Arquivo pessoal

Ele explica que a tragédia provoca reações físicas. “As pernas cedem. Alguém pergunta depois o que a pessoa sentiu e ela não sabe dizer, lembra do estômago, do ar que não entrava, de um zumbido, de que os sons vinham de longe como se atravessassem uma parede. Inundação, antes de ser significado”.

O psiquismo de uma pessoa atingida por uma tragédia fica entre o saber e o não saber o que aconteceu, “vai deixando a verdade entrar em doses que aguenta”, diz o psicanalista.

“Existem experiências que chegam brutas demais para serem digeridas, matéria que o aparelho psíquico não consegue transformar em algo pensável, pelo menos inicialmente. A morte de um filho inverte a ordem das gerações, e essa inversão é uma ferida no tempo: não morre apenas alguém amado, morre o futuro que foi depositado ali. Perder um filho é perder um pedaço de si”.
A fotógrafa Ana Paula Silveira. Foto: Reprodução Instagram
A fotógrafa Ana Paula Silveira. Foto: Reprodução Instagram

A culpa implacável

Em casos de morte acidental é inevitável que o fator culpa se some à dor. Pais, mães e responsáveis se questionam por que deixaram o portão aberto; por que não adiaram o passeio; por que deixaram a criança sozinha. 

“Vale prestar atenção no que essa culpa faz: ela devolve um resto de poder sobre o acontecido. Ser culpado é insuportável; ser impotente diante do acaso é pior. Preferimos nos acusar a admitir que o mundo é, em larga medida, sem governo”, analisa Schreiner.

Quem assiste de fora, sem ter relação direta com a vítima, também acaba, instintivamente, procurando culpados.

“A tragédia alheia mexe com as nossas catástrofes latentes, aquelas que evitamos formular em voz alta. Isso explica também o impulso quase automático de procurar o erro. A imprudência, a falha de vigilância, o lugar onde não deviam ter ido, a pergunta sobre onde estavam os adultos. No fundo estamos tentando restabelecer a crença de que o mundo é justo e de que a desgraça só encontra quem cometeu algum descuido, porque é essa crença que nos permite deixar os filhos saírem de casa amanhã de manhã”.

Depois do susto da tragédia, vem o luto. “E não há atalho”, lembra Schreiner. “O trabalho de luto se faz peça por peça, memória por memória, cada lembrança precisando ser convocada, revivida e só então elaborada”.

Leia também: TJ determina denúncia de três PMs do caso Davi Gregório

A proximidade da morte

Situações de sobrevivência a tragédias podem produzir efeitos traumáticos que aparecem somente depois. No momento do acontecimento, há quem reaja com lucidez, pedindo ajuda, tomando decisões, cuidando dos outros. São situações que ganham destaque, como sobreviventes de terremotos, ou outras catástrofes, flagrados, aparentemente bem, no resgate a outras vítimas. Quando o perigo passa, começam os pesadelos, a angústia, as lembranças invasivas.

“Mas é importante não transformar isso numa regra. Nem todo encontro com a morte se torna um trauma duradouro. O trauma não depende apenas da gravidade objetiva do acontecimento, mas de como ele encontrou aquela pessoa: sua história, suas perdas anteriores, os recursos psíquicos disponíveis e, sobretudo, o amparo recebido depois. Duas pessoas podem atravessar a mesma situação e reagir de maneiras muito diferentes”, alerta o psicanalista Sylvio Schreiner.

Os efeitos de um evento trágico podem, sim, permanecer durante muitos anos e até acompanhar as pessoas por toda a vida. Isso não significa, porém, que continuarão sempre com a mesma força.

“Uma cicatriz também permanece, mas deixa de ser uma ferida aberta”, compara Schreiner. “Mais do que ‘desvencilhar-se’ do trauma, talvez seja possível dar a ele outro lugar na própria história”.

O psicanalista orienta que, quando surgem pesadelos frequentes, crises de ansiedade, isolamento, culpa persistente, irritabilidade intensa ou a sensação de estar revivendo o acontecimento, convém procurar ajuda profissional.

“Elaborar um trauma não é esquecer nem voltar a ser exatamente quem se era. É conseguir viver sem que uma parte da vida permaneça para sempre presa naquele instante”, finaliza.

Cecília França

Cecília França

Jornalista há 20 anos, é especialista em Direitos Humanos.

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