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Flávio Bolsonaro comemeça campanha tentando obstruir fim da escala 6x1

Senador do PL-RJ articulou obstrução contra a PEC que acaba com a escala 6x1, mas Davi Alcolumbre abriu a primeira das cinco sessões no Senado; metade da bancada do Paraná assinou emenda que adia a mudança por dez anos.

Flávio Bolsonaro comemeça campanha tentando obstruir fim da escala 6x1
O governador eleito Sergio Moro e o candidato à presidência, Flavio Bolsonaro. Foto: Tami Taketani/Plural

Levantamento com base na sessão do Senado Federal de 6 de outubro de 2026 e na tramitação pública da PEC que acaba com a escala 6x1.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do PL à Presidência, articulou nesta terça-feira (6) uma manobra para esvaziar o plenário do Senado e impedir a abertura das sessões de votação da PEC que acaba com a escala 6x1 — o regime em que o trabalhador cumpre seis dias de jornada para um de folga. A tentativa falhou: 49 senadores registraram presença, exatamente o quórum mínimo exigido para discutir uma emenda constitucional, e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), abriu a primeira das cinco sessões necessárias antes do voto em dois turnos, que ele quer concluir ainda nesta semana.

A PEC muda a jornada máxima prevista na Constituição de 44 para 40 horas semanais e inviabiliza a 6x1, abrindo caminho para o modelo 5x2, de cinco dias de trabalho e dois de descanso. O texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 27 de maio e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em 2 de setembro, mas a votação em plenário vinha sendo adiada. Segundo o líder do governo, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), o atraso é fruto de articulação de Flávio com o líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN) — que também coordena a campanha presidencial do senador do PL.

O que Flávio defende no lugar

Flávio apresentou, em parceria com Marinho, uma proposta alternativa, a PEC 12/2026, que mantém a escala 6x1 e cria em paralelo um regime de trabalho por hora. Nesse modelo, empregado e empregador negociariam diretamente a carga horária, com remuneração e direitos proporcionais às horas efetivamente trabalhadas — sem a garantia dos dois dias semanais de descanso nem redução geral da jornada. O senador classificou o debate aberto pelo governo como "oportunista" e afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve quatro anos para tratar do tema e aproveita o segundo turno das eleições municipais para ganhar vantagem eleitoral. Em termos práticos, a proposta troca a redução compulsória da jornada por um regime individual de pactuação, em que caberia ao trabalhador aceitar ou não a oferta do empregador. Flávio diz que o novo modelo daria "liberdade de escolha" e vem acompanhado de uma promessa de auxílio para creche privada, voltado, segundo ele, a mães que não conseguem cumprir oito horas diárias.

Por que isso pesa no Paraná

O debate chega quente ao Paraná. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego apontam que cerca de 15 milhões de brasileiros com carteira assinada estão hoje na escala 6x1, além de 1,4 milhão de trabalhadores domésticos nas mesmas condições. No estado, levantamentos setoriais indicam que mais de 1,17 milhão de trabalhadores formais do comércio e da indústria estão em segmentos que seriam diretamente afetados pela mudança da jornada constitucional. A concentração é maior justamente nos ramos que puxam o emprego em Curitiba e na região metropolitana: no transporte aéreo, 53,2% dos trabalhadores cumprem a 6x1; na hospedagem, são 52%; na alimentação — bares e restaurantes —, 47,1%; e no comércio varejista, 42,2%, segundo compilação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) com base em microdados oficiais.

As posições em campo

Entre os paranaenses, as posições estão demarcadas. Como a Plural mostrou em 19 de maio, 15 dos 30 deputados federais do estado — metade da bancada — assinaram a Emenda nº 2 à PEC 221/2019, protocolada pelo paranaense Tião Medeiros (PP-PR) e que soma 171 signatários no sistema oficial da Câmara. O texto fixa a jornada em 40 horas semanais apenas no papel: autoriza acordos individuais ou coletivos a ultrapassar o limite em até 30%, chegando a um teto de 52 horas, e adia por dez anos a redução efetiva — que ainda dependeria de lei complementar e de metas de produtividade. Até lá, continua valendo o regime atual, de 44 horas e escala 6x1. Pelo Paraná, assinaram Tião Medeiros (PP), Toninho Wandscheer (PP), Padovani (PP), Dilceu Sperafico (PP), Pedro Lupion (Republicanos), Sergio Souza (MDB), Luiz Nishimori (PSD), Luisa Canziani (União Brasil), Geraldo Mendes (União Brasil), Paulo Litro (União Brasil), Beto Richa (PSDB), Luiz Carlos Hauly (Podemos), Felipe Francischini (Podemos), Sargento Fahur (PL) e Vermelho (PL). No campo empresarial, a Associação Comercial do Paraná (ACP), a Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Paraná (Faciap) e a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) classificaram a PEC como "inadequada e inoportuna", com alerta para fechamento de empresas, perda de postos de trabalho e aumento da informalidade — risco que, segundo as entidades, recai especialmente sobre micro e pequenos negócios. Do outro lado, centrais sindicais e movimentos sociais defendem a aprovação; em fevereiro de 2025, levaram trabalhadores às ruas de Curitiba pedindo redução de jornada sem corte de salário. A CUT argumenta que cerca de 64% dos trabalhadores com carteira já cumprem mais de 40 horas semanais e que a mudança devolveria tempo para família, estudo e saúde.

O calendário no Senado

Alcolumbre colocou a PEC em pauta única e trabalha para encerrar as cinco sessões de discussão e os dois turnos de votação na mesma semana. Para passar em cada turno, são necessários 49 votos — três quintos dos 81 senadores. Se o Senado aprovar o texto sem alterações, a PEC segue para promulgação; qualquer mudança obriga nova passagem pela Câmara. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro deve manter a estratégia de obstrução e tentar deslocar o debate para a PEC 12/2026, do trabalho por hora, de modo a evitar que o fim da 6x1 vire bandeira do governo Lula na reta final da eleição.

Perguntas rápidas

O que é a escala 6x1? É o regime de trabalho em que o empregado cumpre seis dias de jornada para um dia de folga, respeitando o limite constitucional de 44 horas semanais.

O que a PEC muda? Reduz a jornada máxima prevista na Constituição de 44 para 40 horas semanais e inviabiliza a 6x1, abrindo caminho para o modelo 5x2, com dois dias de descanso.

Qual a posição de Flávio Bolsonaro? Contra. O senador articulou obstrução no Senado em 6 de outubro de 2026 e defende, no lugar, a PEC 12/2026, que mantém a 6x1 e cria um regime paralelo de trabalho por hora.

Quantos trabalhadores são atingidos? Cerca de 15 milhões de brasileiros com carteira assinada e 1,4 milhão de trabalhadores domésticos. No Paraná, mais de 1,17 milhão de empregados formais do comércio e da indústria estão em setores diretamente afetados.

Como apuramos esta reportagem

A reportagem reuniu, em 7 de outubro de 2026, registros públicos da sessão do Senado Federal de 6 de outubro, a tramitação da PEC do fim da escala 6x1 na Câmara (aprovada em 27 de maio) e no Senado (CCJ, 2 de setembro), além de levantamentos da CUT a partir de microdados do Ministério do Trabalho e Emprego sobre a distribuição da jornada 6x1 por setor. A relação dos 15 deputados federais do Paraná signatários da Emenda nº 2 à PEC 221/2019 foi conferida na ficha de tramitação da Câmara dos Deputados e cruzada com a cobertura da própria Plural, publicada por Bruno Soares em 19 de maio de 2026. O recorte do Paraná combina ainda dados agregados de emprego formal no comércio e na indústria do estado com declarações públicas da ACP, da Faciap e da Fiep. A reportagem não teve acesso ao texto final da PEC 12/2026, apenas a sua ementa e às declarações públicas de Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho sobre o conteúdo. Os números gerais foram arredondados para leitura, e as citações entre aspas reproduzem termos atribuídos pelos próprios senadores em entrevistas publicadas na semana da votação.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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