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De Pernas Pro Ar 3: filme tem boa música, mas poderia debater questões atuais

Ingrid Guimarães está de volta ao papel de Alice na trilogia.
Escrito por Daniel Derevecki
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Nesta quinta, dia 11, estreia nos cinemas de todo o Brasil o terceiro filme da franquia nacional De Pernas Pro Ar, protagonizado por Ingrid Guimarães no papel da empresária Alice Segretto, dona de uma marca fictícia de produtos eróticos. No primeiro filme ela acaba de ser demitida e encontra no prazer feminino uma possibilidade de empreender e fugir do desemprego. O sucesso obtido faz com que, na continuação da história, a empresa criada por ela chegue a Nova Iorque e, agora, no terceiro longa, os negócios ganham nova dimensão, com os produtos de Alice conquistando o mundo e fazendo de qualquer lugar um “país das maravilhas”. Entretanto, os desafios da chamada “Indústria 4.0” batem à porta.

A trilha sonora original foi composta pelo brasileiro Zé Ricardo, que já assinou a música de outras comédias nacionais de sucesso, como Loucas Pra Casar (2015). Neste novo trabalho, o músico parece ter optado por uma trilha com referências que vêm das comédias internacionais, como transições instrumentais para marcar os momentos cômicos e as confusões nas quais as personagens se envolvem. Não há um “tema de Alice” e isso não faz falta, porque a música ocupa um pano de fundo discreto, porém bastante conectado ao texto e às cenas. Nota-se isso logo nos primeiros minutos, quando um mapa estilo Indiana Jones ilustra as viagens da protagonista para fechar negócios ao redor do globo. Cada lugar por onde ela passa ganha menção na trilha sonora, tanto no ritmo quanto nas escalas e harmonias adotadas. Quando, por fim, o filme desembarca no Rio de Janeiro pela primeira vez, a Bossa Nova avisa: chegamos.

O filho de Alice, Paulinho (Eduardo Mello), tem seu momento ao violão. Ele canta e toca uma canção que traz uma progressão de primeiro e quarto graus, C (Dó Maior) e F7M (Fá com sétima maior). A formação dos acordes pode ser vista através de um bom enquadramento que valoriza o braço do instrumento. Essa progressão, da tônica à subdominante, surge em outros temas musicais ao longo da trama, criando um arco interessante, inclusive para os momentos finais e decisivos, quando se ouve uma composição que lembra o tema principal do filme O Amor Não Tira Férias (2006), dirigido por Nancy Meyers e com a trilha sonora de Hans Zimmer. Se foi apenas uma coincidência eu não sei, mas de qualquer forma é uma ótima referência.

Nem só de música original vive uma trilha, uma seleção de canções ajuda a contar a história. Neste caso o trabalho também foi bem feito. As canções escolhidas são bastante apropriadas, a começar por um clássico do “brega”: “O Meu Sangue Ferve Por Você”, na excêntrica voz de Sidney Magal. Tem ainda uma versão de “Like a Virgin” e muita música eletrônica. Diferente dos filmes anteriores, o funk carioca não está por lá. Talvez a razão esteja no fato de que a cidade de Paris tem uma importância significativa na trama, fazendo com que canções francesas ocupem lugar na seleção musical.

Discussões

O que há de comum entre os três filmes? Alice, que continua uma workholic compulsiva, trabalhando da hora em que acorda à hora em que vai dormir e tentando, ao mesmo tempo, levar uma “vida normal”. A comédia, dirigida por Julia Rezende, procura trazer várias discussões atuais, sendo a principal delas o papel da mulher no mercado de trabalho e o do homem nos afazeres domésticos. Contudo, as coisas são um pouco estereotipadas, com as tarefas da casa não sendo “pilotadas” de fato pelo marido João (Bruno Garcia), um talentoso arquiteto que agora se aventura pelo universo do design, mas sim por Rosa (Cristina Pereira), a caricata governanta da família.

Nota-se de imediato que o padrão de vida dos Segretto não corresponde à realidade dos brasileiros em geral, com os seus milhões de desempregados. Nem de perto Alice vive os dissabores enfrentados pelas mulheres empreendedoras no mercado de trabalho real. O Rio de Janeiro que aparece no filme é aquele das novelas do Manoel Carlos, não o dos filmes do José Padilha. Além do mais, vê-se a família viajando do Rio a Paris repetidas vezes. A impressão que se tem é que o tempo e os custos dessa viagem assemelham-se a “subir” no Ligeirinho em alguma cidade da Região Metropolitana e “saltar” na Praça Rui Barbosa, como se esta fosse o Aeroporto Charles de Gaulle. Não dá para esquecer que se trata de uma ficção, portanto essa visão idealizada de prosperidade se torna coerente com o sucesso meteórico obtido pela personagem principal em apenas oito anos como empresária.

Com relação ao mercado consumidor dos produtos de Alice, parece não haver crise. Isso, no primeiro filme da franquia, há quase dez anos, com o Brasil experimentando um crescimento econômico pujante e o dólar a patamares aceitáveis, até fazia sentido, porque era uma época em que as pessoas passaram a ter dinheiro para comprar itens não-essenciais. Hoje, quem tem grana para “brinquedos”? Talvez só mesmo no exterior. O filme faz rir? Faz e não é pouco. Faz pensar? Nem tanto.

Mas não são apenas essas as questões que poderiam merecer outras abordagens. A única personagem negra, por exemplo, é uma funcionária de Alice. O filho, que agora é um rapaz, começa a desfilar algumas namoradas pela casa: uma ruiva, uma loira e uma oriental. As coleguinhas da escola particular de classe média alta da filha caçula são todas brancas. Enfim, poderia ser dado espaço maior à diversidade e à situação econômica, política e social do país, ainda mais tendo em vista a temática central do filme e o momento vivido pela sociedade atual.

Apesar disso, a trama é bastante eficiente ao apresentar um aspecto da vida humana sobre o qual ninguém tem controle: a passagem do tempo. Esta se mostra cruel com Alice, quando percebe que o filho cresceu e ela não esteve lá para ver. Tentando evitar o mesmo com a filha mais nova Clarinha (Duda Batista), de 6 anos, ela deixa os negócios e volta para casa. É quando entra em cena uma jovem competidora, Leona (Samya Pascotto), com quem Alice vai viver uma disputa tipo Cersei Lannister e Margaery Tyrell versão brasileira.

A Paris Filmes, distribuidora do longa, lançou uma playlist no Spotify com algumas músicas relacionadas ao filme, aproveite para conferir antes do lançamento. No mais, reserve dinheiro para a pipoca, convide sua companhia e ria bastante.

Para ir além

De Pernas Pro Ar, Spotify

https://open.spotify.com/user/parisfilmes/playlist/6Uv9vfrurJ8z7Jt9zfplwj?si=tSpKZj5nQT6wKjn25ZktPw

De Pernas Pro Ar 3, teaser

https://youtu.be/uqP80FPduK0

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Sobre o autor

Daniel Derevecki

Bacharel em Música Popular pela Universidade Estadual do Paraná/FAP. https://www.danielderevecki.com

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