A Prefeitura de Curitiba paga vencimento abaixo do piso nacional do magistério a 2.391 professores de educação infantil — 49% do cargo, quase metade. Elevar todos ao piso do magistério custaria R$ 12,4 milhões por ano, com 13º e terço de férias. É 2,7% do que a cidade desembolsa para manter a passagem de ônibus em R$ 6, ou o equivalente a 9,7 dias de subsídio ao transporte.
Os números são de um levantamento da Plural nas folhas de pagamento que a própria Prefeitura publica, mês a mês, desde 2016 — 3,6 milhões de registros de vencimento —, cruzadas com as portarias do Ministério da Educação que fixam o piso do magistério e com as respostas que o Executivo enviou à Câmara Municipal.
O piso nacional do magistério em 2026 é de R$ 5.130,63 para 40 horas semanais, fixado pela Portaria 82 do MEC em 30 de janeiro. O vencimento inicial do professor de educação infantil em Curitiba, carreira de 40 horas, é de R$ 4.760,92. Faltam R$ 369,71 por mês, 7,2%.
Em agosto de 2026, a folha registra 4.881 vínculos no cargo de professor de educação infantil, entre efetivos e contratados temporários. Destes, 2.391 tinham vencimento básico abaixo do piso do magistério. A soma das diferenças naquele mês foi de R$ 930.065,70.
Desde 2024, a tabela de Curitiba não alcança o piso
Vencimento inicial do professor de educação infantil (40 horas) e piso nacional do magistério, em agosto de cada ano. Passe o cursor sobre os pontos.
| Ano | Inicial em Curitiba | Piso nacional | Diferença |
|---|---|---|---|
| 2022 | R$ 3.205,62 | R$ 3.845,63 | −R$ 640,01 |
| 2023 | R$ 4.731,58 | R$ 4.420,55 | +R$ 311,03 |
| 2024 | R$ 4.335,26 | R$ 4.580,57 | −R$ 245,31 |
| 2025 | R$ 4.526,88 | R$ 4.867,77 | −R$ 340,89 |
| 2026 | R$ 4.760,92 | R$ 5.130,63 | −R$ 369,71 |
Fonte: folhas de pagamento publicadas pela Prefeitura de Curitiba (valor mais frequente em agosto de cada ano) e portarias do MEC. Cálculo da Plural.
Quase metade da categoria, todo mês
Professores de educação infantil com vencimento básico abaixo do piso, mês a mês em 2026. Inclui efetivos e contratados temporários.
Fonte: folhas de pagamento da Prefeitura de Curitiba, comparadas ao piso de R$ 5.130,63. A folha de junho foi publicada sem nenhum registro. Cálculo da Plural.
Um ano de piso cabe em dez dias de ônibus
Quanto custaria elevar todos ao piso durante um ano, com 13º e terço de férias, comparado ao subsídio que a Prefeitura paga ao transporte coletivo.
Fonte: cálculo da Plural sobre a folha de agosto de 2026 e os processos de tarifa técnica da URBS de julho (R$ 36.653.730,20) e agosto (R$ 39.660.987,14) de 2026.
O que a Prefeitura paga para segurar a tarifa
Enquanto isso, o transporte coletivo consome um aporte que cresce a cada mês. Os processos de cálculo da tarifa técnica da URBS registram R$ 36.653.730,20 de subsídio em julho de 2026 e R$ 39.660.987,14 em agosto. Nos dois meses, R$ 76,3 milhões.
A tarifa que o passageiro paga é de R$ 6. A tarifa técnica, o custo real por passageiro, foi de R$ 9,0642 em julho e R$ 9,6302 em agosto. A diferença é coberta pelo orçamento municipal.
No ritmo desses dois meses, o subsídio ao transporte soma cerca de R$ 457,9 milhões por ano. Os R$ 12,4 milhões que faltam para levar todos os professores ao piso do magistério representam 2,7% disso.
Dito de outro modo: os dois meses de subsídio ao ônibus de julho e agosto pagariam mais de seis anos de piso do magistério para toda a educação infantil da rede.
A tabela nasceu igual ao piso do magistério e ficou para trás
Não foi sempre assim. Em agosto de 2022, a Câmara aprovou por unanimidade, em regime de urgência, o projeto enviado por Rafael Greca que virou a Lei 16.049. Ela elevou o inicial da carreira para R$ 3.845,63 — o valor exato do piso do magistério daquele ano.
De lá para cá, o piso do magistério subiu 33,4% e o inicial de Curitiba, 23,8%. A folha mostra o resultado ano a ano: em 2023, único exercício em que a tabela municipal superou o mínimo federal, a diferença era de R$ 311,03 a favor do professor. Desde 2024 ela é negativa, e cresce: R$ 245,31 em 2024, R$ 340,89 em 2025, R$ 369,71 em 2026.
A defasagem mais recente veio do descompasso entre os reajustes. A Lei Municipal 16.643, de 17 de dezembro de 2025, corrigiu a tabela do funcionalismo em 5,17%, com efeito a partir de novembro. O piso do magistério subiu 5,4% em janeiro.
Entre 2022 e agosto de 2026, considerando os 47 meses em que a Prefeitura publicou a folha, a soma das diferenças entre o que a rede recebeu de vencimento e o que o piso do magistério exigia chega a R$ 47,57 milhões.
A "vantagem complementar" que virou permanente
Para fechar a conta sem mexer na tabela, a Prefeitura criou um complemento. É o Decreto 2.304, de 7 de dezembro de 2023, assinado por Greca. O texto institui uma "vantagem complementar" de "natureza temporária", igual à diferença entre o piso do magistério e o vencimento básico de quem ganha menos, apurada mês a mês.
O decreto diz que a vantagem "vigerá enquanto lei municipal não dispuser sobre o assunto". Dois anos e nove meses depois, a lei não veio.
O mecanismo tem um problema jurídico conhecido. O Supremo Tribunal Federal já firmou que o piso do magistério da Lei 11.738/2008 se refere ao vencimento básico, não à remuneração total. Complementar por fora, com uma vantagem separada, mantém o vencimento básico abaixo do mínimo legal — e é sobre o vencimento que incidem progressões, gratificações e aposentadoria.
Há ainda uma divergência entre os próprios números oficiais. A Secretaria Municipal de Gestão de Pessoal informou à Câmara, na Informação Técnica 586/2026, que 1.731 professores receberam o complemento em julho de 2026. A folha publicada pela Prefeitura mostra 2.392 com vencimento abaixo do piso do magistério no mesmo mês — 661 a mais. Os universos batem: 4.886 na folha, 4.907 informados à Câmara. A diferença está em quem recebeu.
Quatro anos de perguntas na Câmara
Desde 2022, três vereadores protocolaram nove pedidos de informação sobre o piso do magistério. As respostas do Executivo, todas na base da Câmara, acompanham a defasagem.
Abril de 2022. Dois meses depois de o MEC elevar o piso do magistério em 33,24%, o vereador Professor Euler perguntou quando Curitiba cumpriria o novo valor. A então Secretaria de Administração respondeu em uma linha: "a questão está sob análise técnica e jurídica". O vereador reiterou. Em julho, a resposta foi que uma portaria federal "não é dotada de aplicabilidade direta" no município e que "seria medida de irresponsabilidade administrativa estabelecer qualquer previsão". Um mês depois, Greca enviou à Câmara o projeto da Lei 16.049.
Janeiro de 2023. Com o piso do magistério 15% maior, em R$ 4.420,55, Euler voltou a perguntar. A resposta informou apenas o salário inicial do professor do ensino fundamental, de R$ 2.491,95 por 20 horas — acima da metade do piso do magistério. Não mencionou a educação infantil. O vereador repetiu a pergunta em outubro. Em dezembro, a Prefeitura respondeu anexando o Decreto 2.304, assinado uma semana antes.
Março de 2025. A vereadora Giorgia Prates perguntou se Curitiba aplicaria o piso do magistério daquele ano. A Secretaria de Gestão de Pessoal respondeu que "o Município já cumpre, e até supera, o valor mínimo estipulado pela legislação federal" e que "não há necessidade de aplicação de reajuste adicional". A resposta tratou só do professor do ensino fundamental. Naquele mês, o inicial da educação infantil estava R$ 340,89 abaixo do piso do magistério.
Agosto de 2026. Respondendo à vereadora Camilla Gonda, a secretaria informou que "não foi localizado até o momento o recebimento de documentação formal referente a atualização do respectivo valor referente a 2026" — sobre um piso do magistério publicado em 30 de janeiro. Memória de cálculo, metodologia e parecer jurídico foram respondidos com "conforme resposta ao item 2".
A secretaria também se recusou a estimar o impacto de adequar a tabela ao piso do magistério, porque "qualquer impacto prévio será impreciso". E negou o pedido de cópia das folhas de pagamento do magistério, alegando que seriam "mais de 200 mil folhas ordinárias". Essas folhas são publicadas pela própria Prefeitura, em arquivo aberto, e foram a base deste levantamento.
Sobre reajuste, a resposta diz que a pasta "tem realizado reuniões com as entidades sindicais" e que "a discussão da pauta econômica será realizada posteriormente, sobretudo ante a discussão de novos Planos de Carreira".
Quantos professores são, segundo o Censo Escolar
O número de professores foi conferido em duas fontes independentes.
Na folha de pagamento de agosto de 2026, o cargo de professor de educação infantil reúne 4.881 vínculos. A Secretaria Municipal de Gestão de Pessoal informou à Câmara que o cargo tinha 4.907 pessoas em 31 de julho — 4.471 concursados e 436 temporários. A folha do mesmo mês registra 4.886. A diferença, de 21 vínculos, é de 0,4%.
O Censo Escolar de 2025, do Inep, mede outra coisa e serve de moldura. Nas 439 escolas municipais de Curitiba em funcionamento, há 6.114 docentes atuando na educação infantil — 2.949 em creche e 3.369 em pré-escola, com sobreposição entre as duas etapas. O Censo conta quem dá aula em cada etapa, independentemente do cargo; a folha conta quem ocupa a carreira. A pré-escola nas escolas municipais também é atendida por Profissionais do Magistério, o que explica o Censo registrar mais docentes do que o cargo tem servidores.
Para a questão do piso do magistério, o universo correto é o da carreira, porque é o vencimento da carreira que a lei federal fixa.
Quem entra, entra abaixo
A defasagem atinge com força quem chega. Na folha de julho de 2026, todos os 442 professores contratados por Processo Seletivo Simplificado (PSS) estavam abaixo do piso do magistério — sem uma única exceção, todos no inicial de R$ 4.760,92. Entre os concursados, a proporção era de 43,9%.
Os três primeiros degraus da carreira estão abaixo do mínimo legal: R$ 4.760,92 (1.275 professores em agosto), R$ 4.894,22 (286) e R$ 5.031,26 (258). Não é caso isolado nem erro de lançamento — é o início da tabela que ficou para trás.
A carreira de Profissional do Magistério, do ensino fundamental, com jornada de 20 horas, não tem o problema: o inicial de R$ 2.878,65 supera a metade do piso do magistério, de R$ 2.565,32. Dos 11.726 profissionais nessa carreira em agosto, 14 ficaram abaixo — casos pontuais de meses parciais.
Fontes: folhas de pagamento publicadas pela Prefeitura de Curitiba no portal de dados abertos (conjunto Servidores, Cargos e Encargos, 109 arquivos mensais de agosto de 2016 a agosto de 2026, 3,6 milhões de registros de vencimento); Portarias 82/2026, 61/2024 e 67/2022 do Ministério da Educação; Leis Municipais 16.049/2022 e 16.643/2025; Decreto Municipal 2.304/2023; respostas do Executivo aos pedidos de informação 062.00234.2022, 062.00414.2022, 062.00042.2023, 062.00883.2023, 062.00387.2024, 062.00713.2025 e 062.02443.2025, e Informação Técnica 586/2026 da SMGP; processos de cálculo da tarifa técnica da URBS de julho e agosto de 2026 (protocolos 01-204837/2026 e 01-204844/2026). Levantamento feito em 26 de setembro de 2026.