É bem no alto e pela janela da sua sala que o redator I.F. de, 35 anos, observa e capta o que acontece na Praça Santos Andrade. Com a câmera apontada para as escadas da Universidade Federal do Paraná, compartilha as mais variadas interações no ponto histórico e turístico da capital. Começou sem pretensão em novembro de 2025 e, atualmente, é acompanhado por pouco mais de 17 mil seguidores nas redes.
Postando o que chama de “dia a dia da escadaria mais movimentada da cidade”, a página do Instagram mescla observação e crônicas do espaço público. Na administração da conta, o redator publicitário preza pelo anonimato e prefere seguir fora dos holofotes. Quando perguntam quem ele é, responde com uma pergunta: “Por que você quer saber de mim?” Há uma universidade centenária na sua frente, uma praça com histórias diárias. “A cidade não é sobre mim”, insiste.
A história que o colocou nesta residência começou por uma sucessão de acasos. O redator viveu três anos em São Paulo, até que o trabalho voltou a ser remoto e ele pôde regressar a Curitiba. Mudou-se para o mesmo prédio onde já morara, em frente ao Passeio Público; mas os donos venderam o imóvel em seguida. Achou uma cobertura em outro endereço do centro e assinou o contrato; uma semana antes da mudança, a vistoria verificou que o teto do apartamento estava prestes a desabar.
Desesperado, foi atrás de um imóvel que vira antes, mas que tinha treze pessoas na fila. Como os trâmites da imobiliária já estavam adiantados, deram-lhe prioridade e as chaves do lugar onde mora atualmente. A entrada escura incomodou nos primeiros dias, mas a vista da janela da sala e do quarto encantou de primeira.
Ainda sobre acasos, foi dessa forma que a página surgiu. O Google Drive lotou e, para não perder as fotos que tirava diariamente da praça, resolveu postá-las sem compromisso. Criou o perfil @escadaria_ufpr como um arquivo pessoal. No começo, eram imagens quaisquer, de pessoas sentadas nas escadas da universidade.
A primeira postagem é do dia 11 de novembro de 2025 – mas a imagem era de abril do mesmo ano. A publicação rendeu 18 curtidas e 1 comentário. No dia 27 de novembro (16 dias depois), ele gravou um vídeo de quinze segundos da árvore de Natal montada na praça e dos bailarinos ao lado; o post viralizou e alcançou quase um milhão de visualizações. Ficou atônito com a visibilidade.

A fama involuntária, no entanto, encontrou um terreno fértil para a resistência: I.F (como prefere ser reconhecido) trata a ansiedade e fobia social há anos. Sente dificuldade com aniversários, holofotes e multidões. No mesmo sentido, teme o universo dos influenciadores, o celular virado no rosto, o fluxo interminável de gente falando sobre qualquer assunto. “A cidade e a praça têm muito mais para oferecer do que eu”, repete. Por isso, mantém-se anônimo – uma condição que lhe permite observar sem ser observado, como um flâneur, mas confinado ao alto de um edifício.
A página cresceu, e com ela vieram algumas dores de cabeça. No mesmo post natalino, um seguidor reclamou da música em inglês no vídeo. Diz que respondeu com educação, mas deu uma risadinha e colocou um emoji. Em seguida, o usuário hackeou sua conta, descobriu seus dados e ameaçou processá-lo porque não gostou da interação. O tempo passou e nenhuma notificação chegou.
Em outro caso, um senhor, cuja filha estuda psicologia na UFPR, convocou as pessoas a “defecar nos degraus” da universidade, por motivação política. Logo printou a foto do homem, marcou-o e escreveu: “Quem defecar no meu quintal será filmado.” As reações foram imediatas; o homem jamais respondeu.
Apesar desses incômodos e do engajamento positivo (que são a maioria dos casos), se recusa a monetizar a página nos moldes sensacionalistas. “Nada disso aqui me dá dinheiro. Se eu fechar a conta, minha vida segue normal”, afirma. Além disso, sente aflição com a possibilidade de se tornar conhecido pela página e pelas consequências que isso pode causar na sua rotina.
Olhando para dentro do apartamento, o redator divide o mesmo teto com a cadela Riley, uma basset de pelagem escura e tons marrons. Com seis anos, é uma companhia agitada que adora brincar com bolinhas de plástico pela casa. O nome veio da ONG que a resgatou, e o tutor não quis mudar para não interferir na identidade da companheira. “Ela é minha amada. Sofreu no passado, mas agora é patricinha. A vida arrebentou com ela. Teve que ficar internada e não sabia nem tomar água. Hoje ela está toda saudável e vive aqui comigo”, disse.
Ainda na parte interna do imóvel, o redator classifica o seu espaço como um museu afetivo. Os móveis vêm de garimpos, as plantas foram plantadas pela mãe, a tapeçaria na parede foi comprada em um bazar. A casinha de boneca, que era da sobrinha, é um dos seus passatempos favoritos e fica ao lado da janela que dá na UFPR. “Daqui da janela, quando eu olho as pessoas lá embaixo, elas são miniaturas, bonequinhos. A universidade é uma grande casinha de boneca e é mais ou menos isso que eu estou fazendo”, comenta.

Segundo o redator, parte deste apreço pelo cotidiano vem das influências literárias. No ensino médio, ouvia o professor falar sobre a escuta e a observação no ônibus. Mais tarde, encontrou em Dalton Trevisan um espelho: o “vampiro de Curitiba”, que não dava entrevistas e que escrevia sobre o que a cidade silenciava – e segue silenciando –, como o racismo, a homofobia, os barracos que a vizinhança finge não ouvir. Essa característica é o que admira na escrita de Dalton. Aos 17 anos, descobriu o endereço do escritor e mandou um telegrama; hoje ele ri dessa atitude e sente vergonha da possibilidade de ter sido lido.
Seguindo as referências que formam o seu trabalho, compartilha que Manoel de Barros é um dos seus autores favoritos porque fala sobre o ‘chão’, o ‘quintal’ dele e de dar ênfase nas pequenas coisas. Gosta do Leminski, que o olha todos os dias pelo mural em um prédio vizinho. É fã de David Bowie, ficou extremamente abalado com o falecimento do cantor em 2016. Confessa que escuta Adele com frequência, e que é sua diva pop favorita.
Antes de descobrir a poesia do quintal em Manoel de Barros e os textos curitibanos de Dalton, já aprendera a ler o mundo pelas rachaduras da própria necessidade. Adotado, relata ser filho de uma mãe que perdeu tudo com a morte do pai – um engenheiro da Itaipu e da Embratel –, e conta que passou fome na infância. Lembra-se de quando a família estava sem um mísero café para oferecer a uma amiga rica, a Vera. Quando a mãe foi ao banheiro, a visita abriu a geladeira e os armários para espiar. Ele tinha cinco anos e assistiu a cena, e considera ser uma triste lembrança.
Na transição para a vida adulta, afirma que andou por toda Curitiba para entregar currículos, porque não tinha dinheiro para a passagem. Na chuva, com fome, com o sapato prestes a rasgar. Esse estado de alerta aguçou-lhe a percepção. Anos depois, quando a vida melhorou, o medo se transformou em encantamento. “Como se tirasse uma lente cinza e Curitiba ficasse rosa”, descreve.
De olho no que acontece na praça, define esse espaço como um palco onde todos têm lugar. É ali que ele vê as pequenas epopeias, como os trabalhadores da limpeza, as mães com crianças, os ciclistas, os vestidos de noiva. É isso o que lhe interessa.

Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional