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Morre Francisco Camargo, ilha de sensatez no jornalismo paranaense

Camargo era uma raridade: um sujeito que passou décadas em redações de jornais grandes sem mudar uma vírgula daquilo em que acreditava

Morre Francisco Camargo, ilha de sensatez no jornalismo paranaense
Francisco Camargo: mais de quatro décadas de jornalismo. Foto: Arquivo da família

Se você entrasse na redação da Gazeta do Povo num final de noite, no começo dos anos 2000, ia ver um monte de gente correndo pra todo lado. Editores desesperados com o horário, diagramadores pressionados, gente da gráfica exigindo mais páginas. No meio do caos, um único jornalista jamais perdia a calma: e era justamente o chefe de fechamento, a pessoa que mais seria cobrada caso algo desse errado.

Francisco Camargo, o Pancho, era uma ilha de sensatez em meio à bagunça, e não só por ser mais velho, mais experiente. Claro, tinha passado por mais redações do que qualquer um de nós. Começou no Última Hora, contava, na época em que para ir à delegacia fazer a notícia de algum crime o repórter precisava ir de terno. Nós, todos de camisetas com estampas de desenhos animados, calças rasgadas e alargadores na orelha, não tínhamos nem nascido.

Mas a calma do Camargo vinha de algo mais profundo - de uma profunda segurança, da certeza que ele tinha de que ia tirar aquilo de letra. E tirava. E nós sabíamos que seria assim, o que dava uma sensação de que estávamos, ao fim e ao cabo, em boas mãos. A manchete dele seria a mais correta; o desenho da primeira página sempre perfeito; e para cada notinha da coluna que saía na capa, ele se esmerava, com um texto que ninguém ali saberia fazer igual.

Camargo era uma raridade: um sujeito que passou décadas em redações de jornais grandes sem mudar uma vírgula daquilo em que acreditava; e, mais, incitando todos nós a fazermos o mesmo. A nos mantermos fiéis ao jornalismo, e não ao dono do jornal; a fazermos a coisa certa. Quando contavam que alguém tinha aceitado algo porque, afinal, era preciso dar de comer aos filhos, ele respondia, sempre com voz baixa, sem perder o prumo: "Eu nunca usei meus filhos como desculpa, nunca pus as crianças como escudo na minha frente."

Tirava sarro da própria honestidade. Contava uma piada de um juiz (imaginário) que, ao se aposentar, ganha uma festa da cidadezinha em que passou a maior parte da carreira. Todos elogiam o fato de ele nunca ter enriquecido, de jamais ter se vendido. Aquele juiz era uma bênção! Ao lhe darem o microfone, ele só diz uma coisa. "Eu queria saber quem foi o filho de uma puta que espalhou que eu era incorruptível."

O bom humor era marca registrada. Estava presente nas tiras e cartuns que desenhava, nas tiradas sarcásticas contra colegas que considerava venais e nas brincadeiras que fazia com os colegas mais próximos. Ao me ver uma vez de camisa xadrez, sapecou essa: "Galindo, você está mal vestido até para uma festa junina".

Fui vítima também por supostamente atrasar o jornal mais vezes do que qualquer editor num determinado ano. Ele e mais alguns colegas me ofereceram, ao fim de uma noite de trabalho, um troféu improvisado de Grande Atrasador. Infelizmente, não tenho registro disso: até uma repreensão (brincalhona) do Camargo era uma honra.

O humor não resistia, porém, a três coisas: mau caratismo alheio, chatice (ah, como ele odiava os chatos) e as derrotas do Athletico Paranaense. Decerto não resistiria também à falta do cigarro, companheiro de todas as horas: de tempos em tempos, lá estava ele no barracão fumando e jogando um pouco de conversa fora com os mais chegados.

Jamais visto em grosserias, mesmo estando no topo da hierarquia dos jornais em que trabalhou (Tribuna, Correio de Notícias, Gazeta do Povo, Primeira Hora), era comum que ele aparecesse ao lado da mesa de um editor pedindo algo com a delicadeza de alguém que parecia não querer incomodar: "Será que não dava para colocar uma nota disso?", dizia. Ao invés do clássico de outros chefes: "Posso saber por que vocês não estão noticiando isso?"

Quando completou quarenta anos de jornalismo, seus colegas de Gazeta prepararam uma festinha surpresa no VU, bar da moda de propriedade, à época, do jornalista Márcio Reinecken. Camargo foi e obviamente ficou feliz com a homenagem, mas não podia dar o braço a torcer. No dia seguinte, quando alguém perguntou como foi, tascou: "Me levaram num bar de veado".

Bar mesmo para ele era o Luzitano, boteco do Juvevê onde batia ponto e ficava, muitas vezes sozinho, longas horas com a mesma garrafa de cerveja à frente. Lia, rabiscava desenhos, produzia suas tiras e cartuns. Se aparecesse um amigo, conversava. Também via por lá seus desafetos. Disse uma vez a um amigo, vendo na mesa ao lado um desses que considerava anátema: "Já demiti aquele cara duas vezes, e estou louco pra demitir a terceira".

Com Lúcia Camargo, também jornalista, criou os três filhos mais velhos. Depois se casou com Fátima e teve mais uma menina. Nos últimos anos, separado, quem o via achava deprimido.

Seu último trabalho como jornalista foi no Plural, onde desde 2019 até 2022 assinou uma coluna e seguiu publicando seus cartuns.

Nesta terça-feira (18), morreu depois de um longo internamento por pneumonia. Deixa os filhos Fabiano, Adriana, Guilherme e Clara.

O velório acontece nesta quarta (19), das 12h30 às 16h. O corpo será cremado.

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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