Imagine o seguinte cenário: uma mulher que sofre violência, física ou psicológica, toma coragem e decide procurar ajuda. Abre o celular e digita no Google Maps “Delegacia da Mulher”, copia o endereço e vai até o local. Chegando lá, encontra uma casa abandonada, caindo aos pedaços e sendo utilizada por usuários de drogas.
Essa cena simbólica foi realidade em Curitiba a partir de 2017, quando o prédio da antiga Delegacia da Mulher, localizado na Rua Padre Antônio, 33, foi desativado. Os serviços que estavam disponíveis nesse espaço passaram a ser oferecidos em outro local, na Casa da Mulher, que fica no bairro Cabral. Porém, o endereço da antiga delegacia continuava em canais oficiais e na internet.
Em 2025, após oito anos de abandono do imóvel, um coletivo de mulheres escolheu mudar isso. O Movimento Olga Benário ocupou esse espaço no Dia Internacional da Mulher Negra, Latina e Caribenha, em 25 de julho. A ocupação transformou o local, que fica ao lado do Colégio Estadual do Paraná, na Casa Enedina Marques, uma casa de referência para mulheres 24 horas por dia.
Gabriela Torres, militante do Movimento Olga Benário, sintetiza as atividades do local: “Casa de referência é um lugar onde a mulher vai para ter atendimento e acolhimento com uma profissional da área de que ela necessita, seja uma assistente social, psicóloga ou advogada.”
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado, mostra em sua 10ª edição que 35% das mulheres do Paraná já sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem. Desde o início das atividades da Casa Enedina Marques, em julho de 2025, 78 mulheres já procuraram ajuda e foram acolhidas na ocupação. Em dois anos de atividade em Curitiba, o Movimento Olga Benário já acolheu mais de 180 mulheres.
As profissionais que atuam na Casa Enedina Marques são assistentes sociais, psicólogas e advogadas voluntárias, que simpatizam com a causa. Para que o atendimento seja 24 horas, as militantes se organizam em turnos, caso mulheres busquem apoio em situações de abuso ou violência.
Para a segurança das mulheres atendidas, a ocupação não funciona como uma casa-abrigo — um local onde mulheres que têm sua integridade física em risco podem ficar. Quando esse é o caso, as voluntárias fazem o encaminhamento da situação para a organização “Beleza Escondida”, que atua na proteção de mulheres e seus filhos por meio de casas protetivas, inserção no mundo do trabalho, apoio social e psicológico, além de outras atividades.
Torres afirma que a Casa Enedina Marques possui forte interlocução com instituições como a Casa da Mulher Brasileira, CRAS e CREAS. A organização não conta com apoio do governo e depende de doações, contribuições e, principalmente, da venda de peças de roupa no brechó que funciona no local. O brechó funciona todos os dias, mas o fluxo maior é aos sábados e domingos.
“Uma parte grande das mulheres, inclusive, vem por causa do brechó, vem porque tem a oficina do bolo de pote, um curso de marxismo, e começa a entender que está em situação de violência posteriormente”, comenta Torres.
Além do brechó, a casa promove diversas oficinas e formações, como a oficina de gravura que ocorreu em novembro de 2025 e aulas de Dança e Capoeira, que são frequentes. As atividades são divulgadas na conta do Instagram da casa (@casaenedinamarques.)
Como pedir ajuda?
Em caso de emergência, quando há necessidade de intervenção imediata, ligue 190. Em caso de violência contra meninas e mulheres que não requerem intervenção imediata, disque 180.
A Casa da Mulher Brasileira de Curitiba tem recepção e Delegacia da Mulher 24 horas por dia. O endereço é Avenida Paraná, n.º 870 – Bairro Cabral. Telefones: (41) 3221-2701 e (41) 3221-2710.
Há organizações da sociedade civil, como a Casa Enedina Marques, que oferecem acolhimento, acesso a profissionais da saúde especializados em violência de gênero e acesso a terapeutas que trabalham gratuitamente.
O Mapa do Acolhimento oferece suporte direto a mulheres sobreviventes de violência, conectando-as a uma rede nacional de psicólogas e advogadas voluntárias. Há voluntárias em todos os estados do Brasil.