Assim como tantas outras coisas, a literatura também tem suas modas. Uma delas, em tempos recentes, tem sido a autoficção. A palavra é vaga e há quem nem goste da definição, mas a coisa está no ar, e entre outras coisas rendeu um Nobel à francesa Annie Ernaux.
Nesse mundo em que desejamos falar cada vez mais de nós mesmos e das coisas que são mais próximas a nós, o romance de estreia de Paulliny Tort faz o caminho oposto. Procura um espelho naquilo que existe de mais distante de nós na história da humanidade. É isso que são os neandertais: quase humanos, ao mesmo tempo muito diferentes de nós e tremendamente parecidos conosco.
“Os Imortais”, lançado pela Fósforo, é o segundo livro disponível de Paulliny, uma jornalista brasiliense que trocou a rádio pela literatura. Depois de um livro que hoje está sumido (e que ela não faz questão de trazer de volta à tona), a autora ganhou a cena nacional de verdade com “Erva Brava”, um volume de contos que venceu prêmios importantes falando da periferia de uma cidade imaginária.
A história do livro, segundo Paulliny, surgiu aos poucos. Depois de fazer várias graduações, numa delas, em Biologia, a jornalista teve a chance de estudar Primatologia. Conviveu com um grupo de macacos-pregos e viu as características (a personalidade?) de cada um. Uma coisa leva à outra, e ela leu uma tonelada de livros sobre primatas e sobre “os humanos antes da humanidade”, como diz o título de um deles.
O primeiro personagem que surgiu em sua cabeça, conta ela, foi “O Homem”. Afinal, ninguém na pré-história tinha RG, e só o chefe do clã é que ganhava a distinção do título. Pelo menos no livro é assim, vá saber. E “O Homem”, a figura mais incrível do livro, comanda o grupo de neandertais junto com “A Mulher”. Isso é: durante boa parte da história, antes de ele ter uma mudança de postura ao mesmo tempo inacreditável e absolutamente pungente.
Na cena que veio à cabeça de Paulliny, o Homem está junto com os seus quando encontra, durante uma das viagens meio sem rumo típica de seu nomadismo, um grupo de javalis. Com armas rudes, esfomeados, os neandertais podem tanto ter achado o jantar quanto se deparado com o fim. Atacar ou correr? Eis a decisão que eles precisam tomar.
O livro acompanha o clã por diversas situações limite: a fome é uma constante, assim como o medo do inverno que se aproxima. E um dos momentos decisivos para a trama é o surgimento de uma garota e sua mãe que parecem diferentes: mais altos, com traços levemente estranhos. São Homo Sapiens, e é preciso decidir se eles são inimigos a serem mortos, cativos que devem ser escravizados ou alguma outra opção.
Paulliny diz que não fez pesquisa exclusivamente para o livro. Impressionada havia anos (desde nova) por filmes como “A Guerra de Fogo” e impulsionada por suas leituras de faculdade e de hobby mesmo (cita Darwin e títulos como “O Macaco Nu”), foi criando seres que, afinal, precisam ser um pouco imaginados, já que deixaram pouquíssimos resquícios a serem estudados. Ninguém sabe como falavam, como se comportavam, como amavam.
Mas os personagens estão longe da ideia do troglodita que estamos acostumados a ver. Têm sentimentos muito parecidos com os nossos. Perguntei, por exemplo, como ela sabe que os neandertais tinham ciúmes. Ela fez outra pergunta. “Você tem cachorro? Vê como eles são ciumentos? Todo mamífero tem ciúmes”, diz ela.
As tretas e brigas no clã são violentas, deixam birras, são causadas pelos motivos mais mesquinhos e, principalmente, têm a ver com a sobrevivência. Graças ao talento de narradora (e de observadora) de Paulliny, são também absolutamente críveis e chocantes.
Embora nem tenham nomes, há personagens inesquecíveis, como o Pequeno, um caçador ambicioso que quer o lugar de chefe do clã, mesmo todo arrebentado pelas lutas com animais; e a Menina, que humana entre seus quase iguais, é vítima de escárnio e preconceito, e que tem no Homem seu ideal de comportamento.
A transformação do Homem, que não é o caso de contar aqui, é o grande momento do livro, e sela seu destino. E é uma belíssima reflexão do livro que mostra como somos, como podemos ser, e como lidamos com o diferente quando ele se coloca em nosso caminho.
Afinal, é possível falar de nós mesmos quando olhamos para longe, para o outro. Para o mais distante outro. E Paulliny Tort faz isso com grande inteligência, com um texto lindamente burilado e com uma história que fica na cabeça por muito tempo depois da última e chocante página.
Serviço
"Os Imortais", de Paulliny Tort
Editora Fósforo, 232 páginas
R$ 84,50 (em papel) ou R$ 59,40 (ebook)