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Rock e barulho irritam público em show da sitarista Anoushka Shankar na Ópera de Arame

No mesmo dia e horário do show de música instrumental acústica, aconteceu uma festa embaixo do teatro

Sitarista Anoushka Shankar e teatro da Ópera de Arame
Show na Ópera de Arame foi o primeiro de Anoushka Shankar no Brasil. (Fotos: 1, Anushka Menon; 2, Reprodução do Instagram de Ópera Arte.)
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No último sábado (21/03), a Ópera de Arame foi palco de “Dancing In Madness", show de música instrumental acústica da sitarista Anoushka Shankar. A artista, que já foi indicada a 14 prêmios Grammy, é filha do artista Pandit Ravi Shankar (1920-2012) e irmã da cantora Norah Jones. A apresentação tinha tudo para ser memorável e foi. Mas não por bons motivos. No mesmo dia e horário, o espaço Ópera Arte, localizado embaixo do teatro, foi alugado para um casamento, com direito a banda tocando rock ao vivo. O som da festa vazou para a plateia e atrapalhou a noite de quem pagou de R$ 200 a R$ 660 para assistir à primeira turnê da artista em Curitiba e no Brasil.

As reclamações surgiram principalmente nas redes sociais, nos perfis do Instagram da Curitiba Jazz Sessions (produtora do show) e da Ópera de Arame. Um grupo de espectadores no WhatsApp também foi criado para organizar pedidos de providências. Segundo os relatos, o lado esquerdo da plateia foi o mais prejudicado.

A mestranda em Gestão Pública e estudante de Direito da UFPR, Clara Spindola Tschumi, diz que sua decepção é muito maior do que os valores pagos pelas entradas. “Em janeiro, eu comprei para levar meu pai, que sonhava com isso desde a adolescência". Segundo ela, seu pai é um grande fã de Ravi Shankar e o ingresso foi um presente de aniversário. “Ele colocava as músicas para eu escutar desde pequena, queria que o dia fosse perfeito. Mas, assim que a Anoushka entrou no palco, a banda do casamento começou a tocar. Foi frustrante, eu chorei na hora mas abstraí durante o show, mas não é certo que outras pessoas passem por isso”, conta Clara.

A expectativa da jornalista Flavia Bortolon foi igualmente frustrada quando o barulho de fora se sobrepôs aos instrumentos de Anoushka e dos demais músicos no palco. “O som externo vinha da lateral esquerda da plateia, onde eu estava. Parecia vir de baixo e das paredes, que eram cobertas apenas por cortinas. Era de outro show ao vivo, com música alta, além de muitas pessoas cantando e gritando, o que interferia diretamente na apresentação principal”, explica a jornalista.

Outro espectador pediu para não ser identificado, mas contou à reportagem que a experiência deveria ter sido imersiva no jazz e música indiana e se tornou uma tortura. “Anoushka não pode tocar as músicas lentas e suaves com volume mais baixo, porque o show da festa de casamento inundou o auditório, arruinando o espetáculo.”

E teve bis

Entre os comentários nas postagens da produtora do evento, há relatos de que o problema já aconteceu anteriormente. No show do Hermanos Gutierrez, em abril de 2024, o som alto de uma festa na parte de baixo do local vazou e prejudicou a apresentação do duo instrumental.

Mas, desta vez, foi feita uma denúncia à ouvidoria do Ministério Público (MP). “Queremos que nunca mais um evento cultural sofra interferências de um evento privado no ambiente da Ópera de Arame. O teatro é administrado por uma concessionária, mas é necessário que o interesse público seja respeitado, assim como o direito das pessoas de fruição cultural e de receber um serviço legal da produtora dos shows", fala a estudante Clara. O grupo também pretende registrar reclamações no Procon-PR.

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A festa continuou após o show de Anoushka Shankar. (Imagens: Reprodução do Instagram.)

Produção do show de Anoushka Shankar em Curitiba

Procurada pelo Plural, a Curitiba Jazz Sessions informou que não irá se pronunciar. A produtora publicou uma nota oficial no Instagram sobre o caso, confira a seguir a íntegra do comunicado.

“A produção do espetáculo da artista Anoushka Shankar, realizado em 21 de março de 2026, na Ópera de Arame, reconhece as manifestações recebidas sobre a ocorrência de interferência sonora externa em alguns momentos da apresentação.
Lamentamos o desconforto causado à parte do público que teve sua experiência parcialmente impactada, especialmente em áreas mais sensíveis a essa incidência sonora.

O concerto foi realizado e marcou uma noite de grande relevância artística para o Curitiba Jazz Sessions, projeto que, desde 2019, vem sendo construído com dedicação para viabilizar em Curitiba apresentações de artistas de destaque internacional, como Anoushka Shankar. A produção está em diálogo com a administração do espaço para o aperfeiçoamento dos procedimentos necessários.
Agradecemos as manifestações recebidas e seguiremos tratando este episódio com a seriedade que ele exige.”

DC Set, responsável pela gestão do Parque das Pedreiras Jaime Lerner

A reportagem ainda entrou em contato com a DC Set Group, concessionária do Parque das Pedreiras Jaime Lerner, onde estão a Ópera de Arame e o Ópera Arte. Entre as perguntas, foi questionado se há o isolamento acústico necessário para comportar dois eventos simultaneamente nos locais e também se as agendas do teatro e do espaço de eventos são conferidas antes do aluguel. Em resposta, a assessoria de imprensa da empresa enviou a seguinte nota:

“O complexo é projetado para receber múltiplas experiências simultâneas, sempre com planejamento técnico rigoroso. Nesta ocasião, estamos em contato com as produtoras para alinhar parâmetros técnicos e garantir que o impacto junto ao público esteja em sintonia com o planejado. Reafirmamos nosso compromisso com a excelência das entregas, o respeito ao público e aos artistas, sempre visando a melhoria contínua.”

Como funciona a Ópera de Arame

A Pedreira Paulo Leminski e a Ópera de Arame são espaços públicos da Prefeitura de Curitiba. Em 2012, a DC Set Eventos venceu a licitação de concessão dos dois locais, e ainda do Parque Náutico, para gestão e operação por 25 anos. O contrato (nº 2952/2012) estabelece entre as obrigações da concessionária construções, adequações e reformas em vários itens, como a acústica, e pagamento de outorga para a cidade de 5% sobre o faturamento bruto gerado ali.

Em 2020, foi publicado no Diário Oficial um aditivo (Nº 23.715/2019) que devolveu as operações do Parque Náutico ao município e aumentou o prazo da concessão da Ópera e da Pedreira para a DC Set por mais dez anos, até 2047. Atualmente o complexo também inclui o polo gastronómico Rua da Música e foi rebatizado como Parque das Pedreiras Jaime Lerner.

A DC Set fez reformas na Ópera de Arame desde que se tornou concessionária do espaço. A primeira foi finalizada em 2014, entretanto segundo registros de 2016 na imprensa local, falhas no isolamento acústico persistiram. Em 2023, reclamação também ligada ao isolamento de sons foi levada à empresa por Conselhos Comunitários de Segurança (Consegs) de Curitiba.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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Tags: cultura Shows

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