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O fim de uma era na Rádio Educativa

Governo Ratinho faz demissão em massa da geração que transformou a rádio em referência cultural e desfigura grade de programação

O fim de uma era na Rádio Educativa
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Trabalhar na Rádio Educativa do Paraná sempre significou ter uma espada sobre a cabeça: há décadas existia a ameaça de que quase todos perderiam seus empregos porque a contratação seguia um modelo irregular. O erro, claro, não era dos trabalhadores, mas sim de algum burocrata do passado que decidiu pagar todos como se recebessem cachês, e não salários. De tempos em tempos, a cada vez que uma reunião era convocada, a cada vez que mudava o governo ou a diretoria da rádio, os funcionários sentiam o frio na espinha. Nem por isso deixavam de fazer a rádio de referência do estado na área da cultura.

A Educativa se transformou em um verdadeiro patrimônio da comunicação e da cultura ao formar uma grade que transmitia conteúdos inexistentes nas emissoras comerciais. Além de uma extensa programação de MPB, que mostrava não só os clássicos, mas também raridades e lançamentos, havia espaço para jazz, música clássica, músicas de diversas nacionalidades. Alguns programas se tornaram clássicos, como os do maestro Osvaldo Colarusso, os do compositor Harry Crowl, o Tempo de Jazz, de Osvaldo Hoffmann Filho, o Radiocaos e o Música Oculta, criado pelo lendário Jack Shadow.

Desde o mês passado, quase tudo isso ruiu. Depois da demissão do presidente da Educativa, Rui Façanário, o novo responsável pela rádio, Rudson Weber, pôs em funcionamento uma operação que acabou com boa parte do que havia sido construído a duras penas. Demissões em massa e mudanças na grade desfiguraram a Educativa muito além do que em qualquer outro momento da história da rádio.

Harry Crowl: compositor de fama internacional perdeu programas que fazia de graça para a rádio

O começo da mudança

O antigo presidente, Façanário, primeiro gestor da rádio e da tevê, já havia começado com as transformações. Especializado em programas sobre pesca, Façanário acabou com a programação da tevê e transformou a emissora na atual Paraná Turismo. Não se interessou sequer em manter o convênio com a TV Cultura, de São Paulo, que rescindiu com a tevê estatal e passou a ser retransmitida por um canal privado, de propriedade de Wilson Picler. Sobrou uma programação integralmente destinada ao turismo, com zero de cultura.

Na rádio, a grade de programação já sofria. Osvaldo Colarusso, o maestro responsável por três programas, que explicavam a história da música clássica e das óperas, foi dispensado. O Tempo de Jazz, um clássico da hora do rush, perdeu o horário nobre das 18h para um programa de música "mais animada" em que até mesmo a tradição da rádio de apresentar o nome do artista, da faixa e do compositor foi desrespeitada.

Parecia ruim. Mas ficou pior com a entrada de Rudson - um profissional que se aproximou de Ratinho Jr. (PSD) como locutor de seus comícios e depois foi comissionado no cerimonial do Palácio. Ao assumir, quase imediatamente ele iniciou as demissões. Locutores com décadas de casa como Betina Müller e Rogéria Holtz, praticamente todos os programadores, e até mesmo um dos coordenadores da rádio, Cyro Ridal, foram dispensados.

Procurados pelo Plural, os funcionários demitidos dizem que sabiam do risco, mas que ficaram chocados com o tratamento recebido. Além de saírem sem rescisão (pois em tese não eram funcionários), parecia que a história que eles construíram simplesmente não foi levada em conta. "Aquilo é um patrimônio. Aquela rádio não é minha, nem é do governador. Ela tem uma história e uma missão, mas esse pessoal não consegue entender isso", diz um dos profissionais.

Ratinho Jr. inaugura o canal Paraná Turismo, que substituiu a TV Educativa. Foto:Jaelson Lucas / ANPr

Além dos funcionários, programas também deixaram de existir ou foram escanteados. O Radiocaos sumiu da programação, assim como o Música Oculta. O Tempo de Jazz, que já tinha mudado de horário, perdeu a locutora e passou a ser exibido apenas uma vez por semana. À meia-noite.

Em tese, os funcionários demitidos poderão ser substituídos por concursados. A EPR, uma estatal criada em parte para abastecer de pessoal a rádio e a tevê, fez um concurso que ainda pode ser aproveitado. Questionada pela reportagem, a Secretaria de Comunicação e Cultura respondeu que essa é uma hipótese.

"Buscam-se alternativas legais para as substituições dos profissionais, como a ampliação de contrato de gestão já existente com a EPR, que poderá aproveitar Teste Seletivo em vigência até dezembro de 2021, e contratação de empresa terceirizada para suprir necessidades técnicas, sem causar prejuízos a programação da emissora", diz a resposta enviada ao jornal.

O que diz o governo

A Secretaria afirma que o secretário de Comunicação de Ratinho, João Debiasi, comandará uma transição na Educativa, que passou pela formação de um conselho. Sobre as demissões, a Secretaria diz que foram necessárias em função da irregularidade identificada pelo Tribunal de Contas do Estado.

"A situação precisa ser regularizada e isso será feito com responsabilidade e sem causar impacto na qualidade da programação da emissora. O processo de escolha dos profissionais que atuam na emissora por meio de “cachê” contém vícios de legalidade, e o atual governo busca a solução mais adequada tecnicamente e que gere eficiência e economicidade", diz a resposta da Secretaria.

João Evaristo Debiasi. Foto: Arquivo pessoal

Sobre a preferência da nova gestão por encerrar programas que de fato tinham caráter educativo, ao apresentar música excluída da grade de emissores comerciais, como música erudita, jazz e world music, trocando tudo por música de caráter mais comercial, a Secretaria responde que "classificar uma obra musical de ´comercial´ é subjetivo".

"A pluralidade cultural e artística é essencialmente brasileira. A função primordial de conteúdo cultural, educacional e artístico da Paraná Educativa FM está garantida. A emissora tem papel fundamental de apoio a classe artística paranaense na 'retomada cultural' pós pandemia. É nossa missão abrir cada vez mais espaço para ações de promoção da produção da música local."

Tags: Cultura

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