A Sol-te chega ao 34º Festival de Curitiba com dois espetáculos gratuitos em cartaz, e pela segunda vez. “Juventude”, o primeiro da companhia, foi criado para um público que nem sempre é retratado com sinceridade e cuidado no teatro, e segue em temporadas sazonais há três anos. É um feito e tanto, ainda mais considerando que só estreou porque seus idealizadores resistiram – e resistiram muito. A vontade de realizar o projeto era tamanha que venceu até a pandemia. Por sua vez, “Brio Breu” é a segunda produção deles e a primeira para o público infantil. A ideia para a peça saiu das páginas de um livro do Emicida.
As quatro sessões de “Juventude” são nos dias 9/04 e 10/04, às 16h e 20h, no Espaço Fantástico das Artes (R. Trajano Reis, 41. Centro); e as também quatro de “Brio Breu” são nos dias 11/04 e 12/04, às 11h e 15h, no mesmo local. É preciso chegar meia-hora antes do espetáculo para retirar os ingressos.
Sol-te Companhia
Uma dupla está à frente da Sol-te Companhia: Mariana Mello, mestre em escrita criativa, dramaturga e diretora teatral, além de artista da dança; e Nathan Milléo, ator e também dramaturgo. Em entrevista exclusiva ao Plural, os dois explicaram o que define a companhia que surgiu em 2020: trabalhos de pesquisa cuidadosos e o interesse por montar espetáculos de repertório – ao invés de produções que morrem ao cumprir o número de sessões exigido nos editais de incentivo à cultura. Também revelaram de onde veio a ideia de trabalharem juntos, enredos de obras, curiosidades e os planos para o futuro da Sol-te. Leia a seguir.
Como surgiu a companhia e quando?
Mariana Mello: A gente se conheceu durante a graduação na Faculdade de Artes do Paraná, fizemos o nosso Trabalho de Conclusão de Curso juntos. Quando a gente terminou a graduação, em 2013, cada um foi um pouco para o seu lado. Eu fui mais para a vida acadêmica. O Nathan também ficou um pouco fora de Curitiba, foi para São Paulo. Trabalhou com vários diretores. E, um pouquinho antes da pandemia, a gente falou: acho que é a hora de voltarmos a trabalhar juntos e colocar os nossos projetos autorais no mundo. E daí nasceu a Sol-te Companhia.
Isso foi há cinco anos, acho que efetivamente cinco. O projeto vem de seis anos, mais ou menos. Mas o tempo de realmente parar, escrever um projeto e começar a criação foi ali no comecinho da pandemia.
Hoje são quantos espetáculos no repertório da Sol-te?
Nathan Milléo: A gente tem dois espetáculos na companhia. O de estreia foi o “Juventude”, um espetáculo que a gente começou porque queríamos começar a realizar as nossas ideias, pensar na concepção de um projeto todo era algo que nos interessava.
Mandamos o “Juventude” para um edital, tudo de uma forma muito despretensiosa, ainda aprendendo a como enviar um projeto, como é a apresentação, o orçamento e toda essa dinâmica que é importante para um artista entender. E nesse primeiro edital, o projeto foi aprovado logo de cara.
Aí, começamos os ensaios e veio a pandemia. A gente teve que mudar o formato, aquele sonho de realizar o primeiro espetáculo presencial foi por água abaixo. A dinâmica teve que ser totalmente diferente, a gente acabou morando junto para conseguir fazer os ensaios. E com toda a equipe artística, foi preciso chegar com as propostas muito mais encaminhadas porque realizamos tudo online.
Como todo o projeto foi em formato online, funcionou quase como uma mostra do processo. Ainda não havia possibilidade de ter público, de ter a dinâmica da temporada do espetáculo. E, no ano de 2023, a produtora curitibana Montenegro Produções assistiu ao projeto online e gostou muito. Eles estavam realizando uma exposição no Shopping Pátio Batel sobre a geração Z e nos convidaram. Então, a partir do espetáculo, a gente participou de uma exposição artística, cuidando de toda a parte audiovisual, de cenas da exposição, que era o “Conversarte”.
Após isso tudo, a gente acabou estreando presencialmente por um outro edital na cidade de Maringá e depois na cidade de Curitiba, no Teatro Novelas Curitibanas. Um ano depois, fomos convidados para fazer a Virada Sustentável com “Juventude”. E, ano passado [2025] a gente entrou no Festival de Curitiba, com todas as sessões gratuitas, e estamos voltando esse ano depois de uma circulação por todas as regionais de Curitiba.
Qual é a faixa etária ideal para a plateia de “Juventude”?
Nathan Milléo: A gente considera que é um espetáculo possível para assistir a partir dos 12 anos de idade. Ele é muito democrático, o jovem se interessa muito, mas a gente também recebe retorno de adultos, idosos, que se sentem contemplados.
Mariana Mello: Nós começamos a pensar o projeto já com a ideia de fazer um espetáculo para público adolescente. Durante o processo, fomos entendendo de que maneira contemplar e transcender esse público, para também se conectar com o jovem que cada um leva dentro de si. Então, a gente dialoga com muitos jovens que foram referências em diferentes momentos históricos, desde Roberto Carlos, Beatles, Caetano, Madonna, enfim vamos passando por muitos ícones, e também por referências recentes da cultura contemporânea.
E realmente é uma dificuldade encontrar produtos culturais que abordem esse público de maneira sensível, profunda, fugindo dos estereótipos. Foi uma preocupação nossa pensar como a gente trata o jovem, na sua complexidade, como um ser que está aí, recebendo este mundo dos mais velhos e da gente também. Como integrar e trazer esse jovem para o teatro com tantas distrações e tanto acesso à tecnologia, redes sociais, Netflix?
Como está sendo a receptividade do público?
Mariana Mello: Não é um público fácil de agradar, mas até agora tivemos boas experiências. A gente consegue lidar com assuntos que fazem parte do cotidiano do jovem: redes sociais, dúvidas sobre profissão, sobre o que fazer da vida, pressão social e dos pais, descobertas amorosas. E conseguimos tratar desses assuntos com muita sensibilidade, então o público se reconhece.
Vai ser legal que, neste ano, faremos uma difusão por todas as regionais de Curitiba, com trabalho de mediação nas escolas públicas também. Pela primeira vez vamos experimentar encher o teatro só com adolescente e ver o que acontece. Até agora, a plateia sempre teve adolescentes e jovens, mas em grupinhos com a família.
“Brio Breu” é o segundo espetáculo da Sol-te. Mariana, ele foi sua primeira direção em infantis?
Mariana Mello: Sim, foi minha primeira experiência dirigindo um espetáculo para crianças e a minha segunda experiência em um projeto para crianças. Eu já tinha participado como bailarina em um espetáculo infantil, mas para mim, era uma linguagem muito nova. Eu só topei porque confio muito no Nathan e trabalhamos muito bem juntos. Foi um desafio.
Nathan, você vem de uma carreira no teatro infantil?
Nathan Milléo: Olha, a minha formação vem da FAP [atualmente Unespar], mais voltada para o teatro contemporâneo. Junto com a FAP, eu fazia curso no Cena 1, que tem uma vertente mais tradicional, e no Teatro Guaíra eu também tive um outro tipo de experimentação. Eu sempre tive vontade de ser um ator que transita por muitas linguagens.
E o teatro infantil surgiu um pouco também pelo meu perfil, eu sou pequenininho, danço, canto, e os espetáculos para criança pedem isso. O primeiro convite veio do Maurício Vogue (1966-2025) e foi muito legal. Era para o espetáculo “Algum pontinho no caminho entre o céu e a terra”, em que eu ganhei o Troféu Gralha Azul. Eu continuei na companhia dele e da Regina Vogue por muito tempo, depois trabalhei com outras companhias, com a Montenegro Produções, que também tem um trabalho muito forte com teatro para crianças. E aí fui desenvolvendo a minha pesquisa também com o teatro contemporâneo, com outras companhias, diretores e diretoras.
Como nasce “Brio Breu”?
Nathan Milléo: Eu sempre tive muita vontade de fazer um teatro para crianças com uma marca autoral, falando das problemáticas do mundo contemporâneo. Quando estive em São Paulo trabalhando com o Gabriel Villela, eu ensaiava e ia ver teatro à noite, então vi uma possibilidade muito grande de linguagens, inclusive no teatro para crianças.
Aí eu trouxe a ideia do “Brio Breu”, a partir de um livro do Emicida, para a Mariana. Era um desafio pensarmos juntos a dramaturgia, a proposta era muito diferente dos projetos que eu estava. A partir dessas referências, do mote de ser um irmão branco e uma irmã preta, as questões eram como o diálogo poderia acontecer, a alteridade, o medo do desconhecido. E a gente foi construindo o espetáculo, que é para crianças de todas as idades. Tem piadas, tem muito subtexto que só o adulto vai entender. O retorno vem sendo especial, é um espetáculo que tem se mantido e, hoje, é muito difícil manter uma peça em circulação.
As duas peças estão há mais de dois anos em cartaz com temporadas sazonais. Dá para dizer que o objetivo da Sol-te é criar espetáculos de repertório?
Mariana Mello: Isso é um grande desejo nosso. Quando terminamos, entre muitas aspas, a criação do “Juventude”, notamos que tínhamos feito um esforço tão grande numa criação, colocamos tanto de nós ali, que seria frustrante acabar como um projeto curto. Passamos a buscar estratégias de manutenção do repertório, para não ficar pulando de uma criação para outra, o que acontece como resultado das próprias lógicas de produção e financiamento, de várias questões. Mas a gente decidiu muito claramente: vamos insistir no nosso repertório. Vamos fazer de tudo possível. Até hoje a gente manda projetos sempre pensando no “Juventude”: como a gente pode desdobrar esse espetáculo? Para o “Brio Breu”, é a mesma coisa.
Por exemplo, lá em Maringá fizemos uma exposição. Abrimos uma convocatória para jovens artistas visuais mandarem obras e junto com o espetáculo tinha a exposição acontecendo no Mercadão de Maringá. A gente vai encontrando estratégias para fazer com que o espetáculo continue, que o repertório esteja ativo, e também para desdobrar o trabalho numa pesquisa mais ampla de linguagem e de interseção com outras linguagens artísticas.
Nathan Milléo: E, no “Brio Breu”, nossa equipe e elenco funcionam também neste sentido. Apesar de o mote ser a questão da racialidade, a personagem da Pisca-Pisca é interpretada pela Pietra Silvestre. Ela, para quem não conhece, é uma influenciadora com muitos seguidores e também uma atriz com síndrome de Down, autismo e deficiência auditiva, o que cria uma nova camada para a personagem. É muito bonito de ver, porque acessamos um público que geralmente não se vê representado no teatro.
Mariana Mello: E convidamos a Pietra, por quem ela é com suas características, mas ela está num lugar que não busca uma validação. Não se trata de “vamos fazer um espetáculo para falar disso e educar as crianças sobre isso”, o que é importante e válido, entretanto também é muito importante encontrar espaços de representatividade com outras dimensões para a pessoa, em que ela não seja só a deficiência dela — como na atuação da Pietra no elenco da peça, por exemplo. Então a gente traz as características que ela já tem e coloca numa narrativa, sem revitimizar, de certa maneira, por causa das questões do preconceito, do capacitismo etc. O papel dela é uma personagem alto-astral, alegre, amorosa.
Nathan Milléo: Já com o Laser, interpretado pelo Henrique Augusto, a gente trabalha o tema da imigração; e, com a Flecha, papel de Aline Maria, trazemos a importância da ciência em um mundo com a questão negacionista em pauta – e é uma menina que é cientista, que tem esse interesse.
Conta um pouco mais do enredo de “Brio Breu”, por favor.
Mariana Mello: O espetáculo fala da história de Brio e Breu, esses dois irmãos - um irmão branco e a irmã preta. Eles, a Pisca-Pisca, o Laser, e a Flecha vivem juntos numa casa, talvez uma instituição, um abrigo, um orfanato, onde a personagem da Interruptora é a figura da ordem, da disciplina, da censura, coibindo as crianças o tempo inteiro.
O dilema começa quando a Breu conta para o Brio que eles são irmãos. Ele não consegue aceitar porque a Breu é tão escura como a noite, e ele tem muito medo do escuro. Uma das discussões em cena é o medo. A criança também se sente validada nos seus medos. Então, a princípio, Brio rejeita a irmã. Mas a turma decide encontrar um jeito de fazer Brio se acostumar com a escuridão, para que ele possa aceitar a sua irmã e se aceitar. A grande questão da peça é como a gente consegue se encontrar nas nossas diferenças?
Como essas duas peças conversam entre si?
Mariana Mello: Nos dois casos, nós escrevemos a dramaturgia juntos e temos uma pesquisa de como se comunicar de uma maneira ampla com o público. Na Sol-te Companhia, não nos interessa fazer teatro só para pessoas que já estudaram teatro, que tenham um arcabouço teórico ou acadêmico. Estamos realmente interessados na conexão com as pessoas, com o público que até pode estar num teatro pela primeira vez e vai viver aquela experiência. Isso acaba balizando um pouco os dois trabalhos.
E tem outra coisa, a busca por como falar de assuntos urgentes da contemporaneidade para as pessoas comuns. De que maneira falamos sobre isso no teatro sem se isentar das discussões que são importantes hoje? A gente não pode isentar as crianças dessas discussões, precisamos conversar com elas e com os jovens também.
Em “Juventude”, por exemplo, há questões contemporâneas como: crise climática, críticas das redes sociais, pressão pelo sucesso, a ideia de que o importante é ser famoso — não importa com o quê, contanto que você seja famoso —, cobrança por produtividade exacerbada e falta de oportunidades no mercado de trabalho. A gente trata tudo isso com profundidade, mas também de uma forma leve.
E cenicamente, as peças se conectam, mesmo com linguagens diferentes. Falando da encenação, como diretora, me interessa criar espetáculos visualmente cuidados. As referências estéticas são fortes, eu sempre começo pensando nas imagens: que tipo de imagem quero produzir no palco? As duas montagens trazem isso na integração entre os elementos cênicos, por exemplo, na iluminação e cenografia, o cenário tem luz e é luz, os adereços também trazem luz.
Como você vê isso Nathan?
Nathan Milléo: Eu concordo com ela. Confio muito na Mariana, ela é uma diretora muito acessível e cuidadosa com todos. Ela traz propriedade no que fala, com uma calma que a gente vai seguindo. Eu sou muito propositivo e ela me deixou muito livre, principalmente no “Juventude".
E, como estamos à frente da companhia juntos, a gente mantém uma discussão aberta. Eu sempre estive no “Brio Breu” como colega de elenco e, ao mesmo tempo, tive sempre esse olhar um pouco de fora e trazia isso para ela. A questão da encenação é muito forte para a Mari e eu trago pontos das interpretações dos atores, da dinâmica de cena. A construção é colaborativa, próxima, horizontal.
Eu acredito que a gente é muito aberto no sentido de entender a equipe, de ter a equipe artística junto conosco no processo. O iluminador, por exemplo, o Lucas Amado, tem um papel muito importante na idealização e na construção da cena. A Guenia Lemos, cenógrafa, participou de muitos ensaios como criadora — não foi só chegar, entregar o cenário e pronto. Gostamos de trabalhar com uma equipe realmente propositiva, efetiva, que pense não só na sua área, mas no espetáculo como um todo.
E nos casos de “Juventude” e “Brio Breu”, são espetáculos com muitas camadas. Tem cenas em que a gente aborda um tema de forma mais leve e outras em que a plateia está claramente emocionada. O “Juventude”, principalmente, tem muito dessas dinâmicas, não sabemos exatamente para onde ele vai. Ele começa numa estrutura muito reconhecível, quase naturalista — até a sonoplastia aponta para isso – e, aos poucos, tudo vai sendo desfigurado, fica fragmentado, estranho, até chegar a uma certa esquisitice no final.
Já o “Brio Breu” tem tudo o que a Mari comentou sobre acessibilidade, mas a gente não abre mão de uma linguagem pop, de falar diretamente com o público, de fazer piadas fáceis e engraçadas e, ao mesmo tempo, tocar em assuntos profundos de uma forma poética, sutil — que encontra um lugar no coração de cada espectador.
Quais os próximos planos da Sol-te?
Nosso desejo é continuar expandindo esses espetáculos. Já temos uma circulação aprovada do “Brio Breu”, em Curitiba, e estamos começando a ‘cozinhar’ algumas criações novas como um espetáculo para adultos, que - por enquanto - se chama “Nunca Mais Terra”. Ainda estamos pensando em continuar a saga do “Brio Breu" para abordar as histórias dos outros personagens, numa ideia de trilogia, para dar continuidade a essa equipe, que é muito potente, e a esses personagens, que também são muito potentes.
34º Festival de Curitiba
De 30/3 até 12/4 de 2026
Ingressos gratuitos e pagos até R$85 (mais taxas administrativas), à venda no site www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller - Piso L3 (Segunda a sábado, das 10h às 22h e, domingos e feriados, das 14h às 20h).
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