Joana Nin é a diretora do longa-metragem “Os 80 Gigantes”, documentário que conta a trajetória comovente da Cia dos Ventos, companhia de teatro do casal de bonequeiros Tadica Veiga e Joelson Cruz, sediada em São José dos Pinhais (PR) desde os anos 2000. O filme paranaense está em cartaz em exibição em salas de Curitiba-PR, São Paulo-SP, Rio de Janeiro-RJ, e Vitória-ES.
https://youtu.be/98FVA4F9n9o?si=WyLSORex-MhzcmBb
Não se trata do primeiro documentário da cineasta. A carioca radicada em Curitiba tem uma trajetória de 20 anos como documentarista, também é produtora e roteirista, além de sócia de Ade Muri na Sambaqui Cultural. Seu filme de estreia foi o curta-metragem “Visita Íntima” (2005) e tem dois outros longas no currículo, entre outros trabalhos: “Cativas - Presas pelo Coração” (2015) e “Proibido Nascer no Paraíso” (2021).
Ao Plural, Joana contou que o caminho até as filmagens de “Os 80 Gigantes” começou há 20 anos, quando conheceu o Museu do Boneco Animado, , revelou o quanto a história trágica “fala de todos nós artistas que estamos dia após dia tentando viver da nossa arte e resistir”. A diretora também falou de curiosidades, do modelo de lançamento itinerante adotado, e sobre a importância e a dificuldade de entrar em salas de exibição. Na entrevista, Joana Nin ainda contou ao jornal sobre planos futuros, estreias que acontecerão em breve, e deu sua opinião sobre o efeito “Ainda Estou Aqui” no cinema nacional. Confira a seguir.
Como você conheceu a história da Cia dos Ventos? O que comoveu você para decidir fazer um documentário sobre essa família de artistas?
A Cia dos Ventos é uma companhia familiar de teatro de bonecos que tem 30 anos de existência. Quando meus filhos eram pequenos, 20 anos atrás, eu conheci o Museu do Boneco Animado, em São José dos Pinhais, e tive a oportunidade de vivenciar um pouquinho do que foi esse projeto incrível deles, que se chamava “O Boneco e a Sociedade".
No início de 2019, a Tadica Veiga, que criou a companhia junto com Joelson Cruz, postou no Instagram que estava vendendo fantoches de dedo - ou como a gente gosta de chamar, ‘dedoches’. Comprei alguns para dar de presente e fui na casa dela buscar. Conversa vai, conversa vem, ela me contou o que tinha acontecido com a companhia, que era uma coisa trágica e muito chocante. Eu disse para ela: precisamos fazer um filme sobre isso. Eu escrevi o projeto em um edital da Secretaria da Cultura do Paraná e ganhamos. Assim nasceu o documentário “Os 80 Gigantes", que passou por vários desafios até ser realizado - incluindo a pandemia de Covid-19.
Conte o momento mais emocionante e o maior desafio durante a produção?
Nós conseguimos apoio da Prefeitura de São José dos Pinhais e podemos utilizar o teatro do município para realizar parte das filmagens. Mas isso tinha um componente emocional muito forte porque anos antes eles tinham sido expulsos de lá e ironicamente agora estávamos recebendo esse apoio. Não sabíamos como ia ser filmar lá, preparar no palco do teatro um espetáculo que estava sendo montado para ser apresentado na rua. Foi muito forte, mas não consigo nem imaginar como teria sido filmar em outro lugar.
O momento mais difícil certamente foi o dia em que a Tadica engoliu um alfinete no meio das filmagens. Levamos ela para a emergência de um hospital e depois para um especialista, um gastro. Ela teve que fazer exames e aguardar uma semana para ser liberada para filmar novamente. Esse momento inclusive está filmado, só não entrou no documentário. Ainda bem que deu tudo certo e ela não teve maiores consequências do acidente, mas foi um susto enorme!
O Teatro Vento Forte e a Escola de Capoeira Angola Cruzeiro do Sul, tombados como parte do Parque do Povo – foram demolidos há cerca de uma semana (13/02) pela prefeitura de São Paulo. Qual a importância de documentar a história da paranaense Cia dos Ventos frente a tantos descasos do poder público com a cultura?
Esse filme não fala apenas da Cia dos Ventos, ele fala de todos nós artistas que estamos dia após dia tentando viver da nossa arte e resistir. A realidade é que no Brasil, assim como em vários outros países, a atividade artística ainda é muito dependente do Estado para existir. Muitos projetos como esse deles “O boneco e a sociedade” vivem a mercê de mandos e desmandos de governos, de todas as esferas de poder. O que aconteceu com o Teatro Vento Forte é muito triste, com a Escola de Capoeira Angola Cruzeiro do Sul, com a Cia dos Ventos… Existe um descaso enorme com o artista e uma invisibilidade considerável também, por mais transformadora que seja a nossa arte, por maior que seja a comunidade impactada.
Em quanto tempo foi produzido “Os 80 Gigantes"? Qual a equipe envolvida e como foi o financiamento do filme?
O filme ganhou o edital da SEEC/PR no final de 2019, mas ficou parado até o início de 2022, por causa da pandemia. Nós filmamos em abril de 2022 e só agora estamos conseguindo chegar com o filme nas salas de cinema graças a um outro edital do Estado do PR, esse vinculado à lei Paulo Gustavo. É uma alegria enorme ter a oportunidade de realizar o lançamento comercial associado a uma campanha de impacto, que é um modelo que eu pessoalmente acredito muito. Os documentários acabam não tendo acesso a mesma verba de publicidade que um filme mais comercial. A ideia de fazer uma campanha de engajamento, levando o filme de graça a públicos específicos e conquistando o apoio desse público para multiplicar a divulgação é a grande chave dessa proposta de impacto social. Esse modelo passou a ser chamado de campanha de impacto, que chegou ao Brasil lá por 2017. Tem muito pouco tempo que trabalhamos dessa forma, mas dá um resultado ótimo.
O longa-metragem está fazendo a proeza de entrar em exibição em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória, mas não em grandes redes multiplex. Qual a importância dessas salas para o cinema brasileiro?
A Sambaqui Cultural tem registro de distribuidora há muito tempo, mas nunca tinha lançado nenhum filme porque esse não é o nosso foco de atuação. No caso de “Os 80 gigantes” decidimos assumir para nós mesmos esse desafio mas contamos com uma equipe que tem muita prática em lançamentos - tanto de impacto social, quanto em salas de cinema. As redes de shopping têm mais dificuldades em programar filmes independentes, até porque a nossa reserva de mercado é mínima - a chamada Cota de Tela. A gente sabe que está disputando inclusive com os filmes que estão concorrendo ao Oscar, o que não é uma tarefa simples. Nos preparamos para esse momento, estamos trabalhando há mais de um ano para chegar nesta semana e lançar o filme. Acreditamos que vamos conseguir o melhor espaço que esse filme poderia conseguir nesse modelo de lançamento que estamos propondo. A nossa permanência nas salas depende da frequência do público especialmente nesse primeiro final de semana. Mas faremos um lançamento Itinerante até 10 de maio, não vamos nos limitar às salas de cinema oficiais que aceitarem programar o filme embora a gente queira muito estar com ele nesse espaço nobre que é o da telona.
Esse não é o primeiro documentário da carreira como cineasta. Você se considera uma documentarista por excelência? Qual o papel da ficção em sua produção?
Os 80 Gigantes é meu terceiro longa-metragem documentário e os três estrearam em salas de cinema e tiveram de alguma forma a campanha de impacto social, mesmo antes de eu conhecer essa expressão. E eu já tenho um quarto longa pronto que foi exibido na Premiere Brasil do Festival do Rio 2024 e deve estrear em salas de cinema em abril deste ano, que é “Noel Rosa - Um espírito circulante”, distribuído pela Boulevard e pela Vitrine Filmes. Para mim está sendo o fechamento de um ciclo que durou pouco mais de 20 anos - essas duas últimas décadas em que eu tenho me dedicado ao cinema documentário. Eu agora estou interessada em direção de ficção, que é um desafio novo para mim.
Meus dois primeiros longas de ficção estão em produção, um em fase de edição – “Rumor”, com Giulia Benite - ex-Turma da Mônica – e outro em fase de preparação de filmagens –“Tropicana”, ainda realizando casting [seleção de elenco]. Estou amando fazer isso, em breve vocês vão ouvir falar mais desses filmes.
O que você acredita que pode melhorar para o cinema nacional após todo o sucesso de “Ainda Estou Aqui”?
Eu fui assistir "Ainda Estou Aqui" num cinema de shopping, em Curitiba, e a sala estava lotada de pessoas de todas as idades, mas muitos jovens. Saí de lá pensando sobre essa nova geração que está valorizando a tela grande, o cinema, em tempos de streaming em expansão. É muito bom ver esse movimento acontecer não apenas porque o filme tem uma importância enorme para o Brasil – histórica e política – mas também porque tudo isso significa um holofote apontado para nossa atividade. É muito importante que o país entenda que o cinema brasileiro é a nossa representação, somos nós na tela. Só quando o nosso público entender a importância estratégica disso é que alguma coisa vai de fato começar a mudar.
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Documentário “80 Gigantes”, direção de Joana Nin
(Documentário – 75 minutos – BR)
Sessões em Curitiba/PR
Até quarta-feira (26/02), Sala 01 (Ritz) às 13h15, no Cine Passeio (Sala Ritz).
Até domingo (23/02), às 16h10, no Cine Guarani.
O filme também está em cartaz no CCSP (Centro Cultural São) e no Cinesystem Frei Caneca, em São Paulo/SP; no Cinesystem Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro/RJ; e no Cine Metrópolis, em Vitória/ES.
Sinopse
O sonho de um casal de artistas de teatro de bonecos e seu mundo fantástico, construído em parceria com a comunidade, desmorona quando uma grave crise os leva a um evento trágico. O projeto social “O Boneco e a Sociedade” chegou a impactar mais de 28 mil alunos nos dez anos de existência, mas foi descontinuado ao sabor das pendengas políticas municipais, deixando desalojada a família e também Os 80 Gigantes. No filme, a Cia dos Ventos se reinventa, relembra seu passado cheio de alegrias e tristezas enquanto monta um novo espetáculo.
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