O grupo Wakaba Taiko, da Associação Cultural e Beneficente Nipo-Brasileira de Curitiba (Nikkei), está prestes a realizar mais um feito. Em alguns dias, ele embarca para entrar em campo na casa dos donos da bola, ou melhor, do tambor. Brincadeiras à parte, a mais nova conquista desse time é uma vaga no 28º Campeonato de Taiko Júnior do Japão – pátria-mãe da arte milenar que envolve ritmo, coreografia e força. Os 11 integrantes, na maioria garotas, já estão com as malas prontas, pois a disputa será neste domingo (22/03), em Tóquio.
Carimbar o passaporte para esta nova aventura não foi fácil. Mas esses tocadores, entre 14 e 18 anos, têm talento e determinação tão fortes quanto as batidas ritmadas das bachi (baquetas) e, assim, chegaram ao primeiro lugar no pódio do Festival Brasileiro de Taiko de 2025, promovido pela Associação Brasileira de Taiko (ABT), em Serra Negra-SP. A vitória é o que determina quem representará nosso país no campeonato japonês. Entre as cinco categorias da competição no Brasil, o Wakaba também venceu na Odaiko (a única individual) com Guilherme da Silva Matilha, contudo a modalidade solo não entra na disputa fora do país.
Disputa de igual para igual
Alguns pontos demonstram a dimensão da conquista dos juniores curitibanos. Neste ano, serão 50 equipes competindo no palco do Fuchu no Mori Art Theater, quase todas japonesas - que venceram seletivas em suas províncias. Conforme explica um dos coordenadores do Wakaba, Hermes Murakami, fora os nipônicos, só entram dois grupos: um do Brasil e um de Taiwan. Ledo engano pensar que as duas vagas são resultado de camaradagem. Apesar de existirem outras associações de Taiko pelo mundo (por exemplo, no Reino Unido, Alemanha, Itália, Estados Unidos, Austrália e Canadá), para entrar na disputa o país precisa ter uma instituição filiada e atender às exigências da Nippon Taiko Foundation. Por sua vez, dos jovens é cobrada excelência em critérios rigorosos e paridade técnica com os tocadores da Terra do Sol Nascente. Sim, o Wakaba vai lá competir de igual para igual.
Murakami também explica porque se trata de uma nova aventura. “É a terceira vez que, felizmente, conseguimos ser campeões brasileiros. Mas não é fácil, o grupo existe desde 2004 e somente em 2011 conseguimos vencer o campeonato nacional pela primeira vez, então fomos para o Japão em 2012. Depois, em 2019, nós ganhamos mais uma vez o brasileiro, com a possibilidade de ir novamente em 2020. Com a pandemia, a gente não conseguiu”, lembra o coordenador. Em seguida, em 2023, foram chamados para uma participação à parte. “Nós fomos para cumprir tabela, digamos assim. Foi uma pena, os tocadores não puderam disputar porque já tinham passado da idade.”
Hermes Murakami fala sobre o presente que demonstra o quanto a Nippon Taiko Foundation valoriza os grupos brasileiros. Nem o campeão da disputa recebe algo tão especial. (Imagens: Tami Taketani/Plural.)
Mundos em comum
Na bagagem, os integrantes do Wakaba levam pelo menos duas coisas em comum: o evidente respeito pelo Taiko enquanto tradição histórica e parte importante da identidade cultural dos japoneses e a disciplina exemplar. É claro que o perfil da equipe vem do gosto pela prática, com sua musicalidade e potência, e da garra pela vitória. Só que o sangue também pesa aqui. O grupo é aberto para qualquer interessado, mas a formação atual é integralmente nikkeijin – elas e eles são ou filhos, ou netos, ou bisnetos de japoneses. Agora, não se engane. A qualquer intervalo, quem sai de trás dos tambores é uma turma de adolescentes felizes e ansiosos pela viagem para o outro lado do mundo que ficará gravada na memória.
Um belo retrato desse equilíbrio entre responsabilidade e alegria é Julia Miamoto. Ela conta que não é só por gostar de tocar que entrou e continua no Wakaba Taiko: “Eu fiz muitos amigos aqui e evoluí pessoalmente, porque eles ensinam respeito e ética. É muito bom para o pessoal e para o social. E também é legal!” Quando entrou na equipe, ela pensava que ir para o Japão era algo muito distante. “Poderia demorar anos e talvez nós nem conseguíssemos. Mas a gente foi ao campeonato, ganhou e agora está indo. Foi tipo um susto, um susto bom", fala a jovem.
E as expectativas de Julia não são restritas ao que irá acontecer no palco. “[A viagem para o campeonato] é uma atividade cultural que vai enriquecer o grupo e, quando a gente voltar, vamos trazer todo esse conhecimento. E, como eu falo japonês, quero praticar bastante, conversar, tentar me aprofundar, além de conhecer os estilos e repertórios diferentes de Taiko.”
Já Kaori Suenari, também tocadora da equipe que segue ao Japão, é uma das veteranas no Wakaba: há 10 anos se encantou pelo Taiko. “Eu conheci o grupo porque meu irmão mais velho já fazia parte", conta a jovem, que até então praticava canto na Associação Nikkei. Ela parou de cantar e agora o que move seu coração é a percussão nipônica. “Eu entrei, na verdade, porque achei que era uma arte muito importante, uma parte da cultura japonesa muito importante, algo legal para agregar na minha vida”.
É a segunda vez que Kaori vai ao festival do Japão, na viagem anterior ela tinha apenas 12 anos de idade. “Agora tenho 15, é um peso diferente por eu ser mais experiente. Eu sinto uma obrigação de também ajudar o pessoal, por mais que eu não seja mais velha de idade, por experiência, eu sou uma veterana. É uma responsabilidade um pouco maior, mas, de qualquer maneira, é incrível. É um sonho.”
Do mesmo modo que aconteceu com Julia, as amizades fortalecem os laços de Kaori com a equipe. “Eu entrei com cinco anos, levo eles [pessoas que conheci aqui] para minha vida. E o Taiko também é uma forma de se expressar, então eu encontrei o meu lugar, uma forma de mostrar minhas raízes japonesas. Eu gosto de espalhar nossa cultura pelo país”.
A fidelidade de longa data não é exclusiva dessas tocadoras. Beatriz Watanabe entrou em 2012 no time mirim. À época, ela tinha 10 anos de idade e, conforme o tempo passou, ela fez parte de diferentes modalidades, inclusive da Júnior. Na verdade, fez e faz. Beatriz voltou para a categoria, hoje ela é uma das responsáveis pelo grupo que compete no Japão – a sensei.
“Kodama no Mori”
E, no Taiko, as relações duradouras vão além das pessoas. O trabalho com a música que será apresentada agora no Japão – “Kodama no Mori”, composta por Juliana Saemi Murakami – vem sendo lapidado ao longo dos anos. “Primeiramente, a gente foi com essa música em 2017 e fomos aprimorando até chegar a um nível melhor, tanto de técnica quanto de representação do tema em si", conta Beatriz.
O integrante do grupo Lucas Kenji, de 17 anos, também explica que os temas não são predeterminados pela organização do Festival. “Os temas são livres, você pode escolher qualquer um, só que você deve manter o respeito com o Taiko e a tradição japonesa", diz ele. O nome da composição significa “Espíritos da Floresta": “A música remete a espíritos que protegem uma árvore sagrada, uma floresta sagrada.”
Proteção no palco e apoio fora dele. Segundo Murakami, toda uma rede é necessária para os juniores poderem viajar para esta competição. São pessoas que se colocam à disposição voluntariamente e também ajudam financeiramente, além de instituições. “Uma coisa que eu sempre digo para os tocadores é nunca se esqueçam que, para vocês estarem no palco, teve todo um suporte. Seja os pais que trazem para os treinos, seja uma coordenação que corre atrás das coisas, os líderes que dão os treinos para eles, alguém que fez a composição da música, alguém que melhorou a música. Enfim, eles estão ali, e são os principais atores. Mas nunca devem esquecer que tem todo um suporte por trás”, fala o coordenador. Ele ainda destaca os apoios da Itaipu Binacional e do vereador Nori Seto (PP).
Expectativas
O Brasil vem conquistando bons resultados no campeonato japonês. Em suas participações, o Wakaba ficou entre os 15 melhores e ganhou duas vezes o prêmio “The Best Show", outra equipe, a Todorokidaiko, da cidade de Osasco-SP, foi o terceiro lugar geral. Em uma pequena enquete a respeito deste ano, os entrevistados têm expectativa de conseguirem estar entre os cinco primeiros colocados, alguns até falam em terceiro lugar.
O preparo dos juniores é forte e pode, sim, garantir essa conquista. Beatriz fala que “o Taiko exige muita resistência física, muita flexibilidade também. Existem vários treinos em que a gente puxa bastante e eles têm bastante garra e energia”. E o coordenador concorda: “São treinos intensos, muita dedicação para conseguir esse resultado.”
A história do Taiko Moderno
Sobre a história do Taiko do Japão, Murakami explica que ele data de registros pré-históricos, quando o caçador tocava o tambor e afugentava a caça na direção desejada, depois tornou-se ferramenta de comunicação através dos sons, virou parte de eventos religiosos e atividades culturais, como o Teatro Nô. Até então, usado sempre individualmente. “No pós-guerra, o mestre Daihachi Oguchi (1924-2008) criou o sistema múltiplo, no qual você pega vários taikos de tamanhos e sons diferentes e monta uma orquestra chamada Kumi-daiko - que é o Taiko Moderno praticado no Japão”.
Em resposta à pergunta se a prática é um esporte, cultura ou tradição, o coordenador do Wakaba responde: “É tudo junto! Tradição, porque qualquer grupo de tambores, percussão, é um taiko, mas este se chama Wadaiko, é o específico do Japão. Cultura, porque está vinculado à cultura japonesa nas artes, nas artes cênicas e tudo mais. E é esporte, porque exige muito preparo físico para você sustentar as batidas do começo ao fim da música. Então, eu diria que é tudo junto.”
Visite o site do Wakaba Taiko e conheça mais sobre a trajetória do grupo e suas atividades.