A 1ª Festa Literária do Paraná (Flap), realizada pela seção estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PR), no último fim de semana de abril (25 e 26), lotou o Museu Oscar Niemeyer (MON). Conforme contam os organizadores, o projeto inicialmente era menor, mas ganhou força e cresceu. Entre os participantes estiveram nomes como Mary Del Priore, Caetano Galindo, Marilene Felinto, Sérgio Rodrigues, Tati Bernardi, Cristovão Tezza, Luci Collin, Ana Suy, Luís Henrique Pellanda, Luiz Felipe Leprevost, Carlos Machado, Michel Laub, Marcos Bruzzi, Fernanda Magalhães, Julie Frank, Fabiana Faversani, Christian Schwartz e Gregorio Duvivier. Ainda aconteceu concurso literário, programação infantil e concerto da Orquestra Sinfônica do Paraná.
Além da presença de editoras, livrarias, vários outros autores e do público – com mais de 10 mil pessoas –, o evento gratuito arrecadou mais de 1.800 livros para o projeto Ler Juntas. A iniciativa promove rodas de leitura com mulheres sob custódia no Complexo Médico Penal, em Pinhais.
Tamanho sucesso prova que os curitibanos estavam ansiosos por um evento literário de porte, ainda mais depois de todos os problemas que resultaram no cancelamento da Bienal que aconteceria na cidade em 2025. A boa notícia é que, ao final do evento, Luiz Fernando Casagrande Pereira, presidente da OAB-PR e um dos idealizadores da Festa, anunciou uma segunda edição para 2027.
Como nasceu a Flap
Marion Bach, curadora e também idealizadora do evento, conta que a “Flap nasceu de uma provocação que virou projeto”. Ela visitou a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e Pereira também queria ter ido, mas não pôde. “Por que a gente não faz uma Flap?", disse ele. Então decidiram fazer uma festa literária ligada à advocacia paranaense.
“Em novembro do ano passado, começamos a estruturar, com um grupo de trabalho e as primeiras trocas de ideias. Já nesse ano, partimos para a execução — e o projeto cresceu de uma forma que nem a gente imaginava. A proposta inicial era algo menor, mais enxuto, mas foi ganhando força", explica a curadora. Ela aponta a escolha do MON como espaço, a confirmação de nomes relevantes que atraíram novos convidados e criaram a possibilidade de atividades paralelas, e os patrocinadores como fundamentais para a ampliação do evento. “Foi um crescimento orgânico, com muita gente se envolvendo e acreditando na proposta. Quando vimos, a Flap já tinha se transformado em algo muito maior do que a ideia inicial. E isso também prova o quanto as pessoas ainda acreditam e adoram a literatura.”
Pereira destaca que a intenção nunca foi fazer algo restrito ao mundo jurídico. “Seria uma festa literária para a cidade.” Essa premissa exigia uma curadoria com legitimidade plena no campo da literatura. “Marion Bach e Guilherme Shibata foram escolhidos exatamente por isso: porque, antes de qualquer outra coisa, são leitores. Marion, leitora dentro da advocacia; Guilherme, leitor profissional de ofício.”
Marion é doutora em Ciências Criminais, professora e procuradora-geral da OAB Paraná, está num grupo de pesquisa sobre Shakespeare e se diz uma “pseudo-cronista”. Por sua vez, Guilherme é formado em Letras pela UFPR, professor de literatura, mediador de leitura e coordenador do Ler Junto, da Biblioteca Pública do Paraná.
A escolha da dupla foi acertada, segundo o presidente da OAB: “Além de assinarem a curadoria, Marion e Guilherme estiveram entre os melhores mediadores das mesas, conduziram conversas com a precisão de quem leu antes e a generosidade de quem deseja que o público leia depois. Foi essa combinação rara que deu à programação da Flap sua textura particular.”
Convidados da curadoria
Ainda em 2025, os dois curadores montaram uma lista de convidados para a Flap, conta Shibata. “Nosso critério sempre foi colocar pluralidade de vozes, importantes vozes da literatura contemporânea, e assuntos, temas que as pessoas se interessassem.” Os nomes confirmados retratam bem isso. Ana Suy foi importante pelo grande número de leitores, Mar Mecker era uma aposta interessante que foi bem-sucedida e Marilene Felinto veio com importância de destaque. A atenção também foi dedicada ao timing de lançamento de obras e ao interesse do público local.
“Cristóvão Tezza é um nome como esse, lançando livros novos. O Gregório, obviamente, por conta da peça que fala da língua. Eu queria gente para falar hoje sobre escrita e sobre a língua portuguesa. O Caetano Galindo e o Sérgio Rodrigues eu já tinha visto em bate-papo na Arte Letra, então bolei uma mesa para eles conversarem por mais tempo. A Tati Bernardi, por conta do último livro dela e por tudo que ela vem produzindo em podcast e o interesse que as pessoas têm por autoficção", explica o curador.
Além de Tezza, representando a literatura feita em Curitiba, com os assuntos e a identidade daqui, vieram a Luci Collin, a Julie Fank, o Leprevost, e o Pellanda. “São pessoas que, no dia a dia, estão construindo a imagem que temos da cidade e de nós mesmos, espelhando, através da arte, o que a gente tem no nosso cotidiano, nas nossas ruas”. Já Marcus Bruzzo surgiu como aposta, para incluir a discussão sobre inteligência artificial para na programação. Entre tantas escolhas especiais, a abertura precisava ser algo à altura. E foi. “A gente precisava de um nome bom para iniciar os trabalhos, e a Mari Del Priore é fantástica falando, ela tem uma escrita muito legal sobre a história e atinge um público amplo,” diz ele.
E o público reconheceu o trabalho de Shibata e Marion, lotando o evento. “Foi concorrido o tempo todo, não teve nenhuma palestra que não estivesse lotada, considerando a capacidade tanto lá dentro, na própria feira, quanto nos espaços com telões e transmissão ao vivo.” Ela ainda conta que algumas atrações concentraram um público maior: “Chamou bastante a atenção a mesa da Ana Suy, que estava extremamente cheia. A do Gregório, é claro, foi disputada; a da Tati Bernardi teve bastante público; e a da Marilene Felinto contou com grande presença e foi aplaudida de pé.”
Sucesso
Mesmo com o tamanho da Festa aumentando durante a pré-produção, estar diante do sucesso emocionou a equipe. “A gente ficou muito, muito surpreso com o tamanho que a Flap acabou tendo. A gente tinha certeza de que ia ser legal, mas foi mais legal do que se podia imaginar”, fala Shibata. O clima foi ditado pelas conversas sobre literatura e diferentes ideias, pela circulação e comércio de livros, e pelo entusiasmo do público aproveitando o momento. Mas o curador explica que a estrutura ajudou na organicidade da Festa e destaca a importância de um item dos equipamentos: “A escolha dos fones foi um acerto interessantíssimo, porque quem desejava escutar conseguiu, não precisou ficar dividindo a atenção com os barulhos no entorno.”




Marion também destaca a atmosfera desta 1ª Flap: “Havia uma energia, um clima muito feliz. As pessoas estavam alegres, à vontade num fim de semana no Museu do Olho, com sol, todo mundo rindo, se divertindo. Foi marcante perceber esse ambiente de alegria, algo realmente diferente. E isso foi algo que ouvi de muitas pessoas diferentes”. A curadora considera esse conjunto de fatores a prova de que há espaço para eventos voltados ao mundo das letras em Curitiba. “Mesmo em uma época de inteligência artificial — em que tudo é rápido e, muitas vezes, superficial —, as pessoas ainda estão completamente abertas à cultura, aos livros,c a discutir sobre literatura, a ler ficção. Isso foi a melhor parte de tudo.”
Flap 2027
Sobre a nova edição da Festa, a equipe ainda mantém em segredo boa parte das ambições para o projeto. O que se sabe com certeza é que será em 2027 e que entre as ideias pretendem trazer nomes internacionais. Shibata adianta que a personalidade do evento continuará a mesma. “A gente acertou nesse primeiro momento, porque as pessoas estão procurando isso. Vão mudar os nomes, vão mudar os autores, queremos cada vez mais gente ali dentro e que a Festa cresça, mas a personalidade é essa mesmo. É uma marca minha, da Marion e do presidente Pereira. Essa leveza, esse contato de temas, vozes e, principalmente, qualidade.”