A simulação da cena de um crime dá início a um percurso no hall do Sesc Cadeião, em Londrina, envolvendo fotografias, sons e dossiês em buscas de culpados. Na exposição Visões da Genialidade Cultural Negra o público é convidado a percorrer uma trilha envolvendo dez artistas locais de áreas diversas. Ao fim, descobre que, se há culpa, é por desafiar estereótipos.
Idealizada pelo fotógrafo João Junior e executada pela jjr. maison creative, com patrocínio da Lei Aldir Blanc, a exposição imersiva foi pensada para coincidir com o feriado do Dia da Consciência Negra e permanece aberta a visitação até 16 de janeiro de 2026. O ponto de partida da mostra é a visão social racista sobre corpos negros.
“A gente tem uma sociedade que criminaliza corpos negros. Ouvimos histórias de pessoas que são seguidas em supermercados, em lojas, simplesmente pela cor da pele, pelo racismo estrutural, pelo colorismo. Eu quis trazer um pouco disso para as fotografias. Quando as pessoas começam a mexer na cenografia, elas vão descobrir que não existe crime nenhum, que são só pessoas pretas fazendo arte”, detalha.

Para além do senso comum
As duas primeiras fotografias, que guiam o público, são autorretratos de Junior, nos quais ele aparece entre “evidências” do crime imaginário. Os demais fotografados são fazedores de artes que o idealizador considera pouco ou não reconhecidas: o designer gráfico João Carlos, a modelo Alice Vieira, a body piercer Stefani Zingaro, a artista plástica e estilista Marielle Matterazzi, a designer de moda Manu Oliveira, o motion designer Paulo Brasil, o diretor de videoclipe Igor Henrique da Veiga Barbosa, o Cria da Rua, a dançarina Mariana Camilo e as produtoras culturais Sandra Aguillera e Juuara Juareza.
Junior também pretende confrontar o lugar comum sobre quem faz arte.
“Por muitas vezes nós, pessoas negras, tivemos nossas vozes silenciadas e imagens apagadas. Nossa sociedade possui certo hábito de branquear o que é belo, ainda que esse seja um conceito individual e não coletivo, sem ao menos saber quem está por trás de feitos tão significativos. A exposição vem mostrar o trabalho de pessoas negras do universo trans, com a condição do vitiligo, corpos diversos, tonalidades e cabelos diversos e me enche de orgulho ter a confiança da minha comunidade preta no meu trabalho enquanto também artista”, comenta Junior.
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Acessibilidade
Ao lado de cada fotografia há um QRCode que leva à reprodução em áudio de cada cena. Assim, pessoas cegas podem imergir no ambiente da exposição, também guiadas pelos fios que unem as imagens.
Denúncia
Denunciar o racismo com arte talvez defina o objetivo de João Junior com a exposição Visões da Genialidade Cultural Negra. E essa possibilidade surgiu de seu próprio despertar como homem negro.
“Quando eu entrei na universidade de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina eu não entendia sobre a minha raça. E a partir do momento que eu comecei a estudar sobre isso, eu fui conhecendo um pouquinho mais sobre as dificuldades que o povo preto passou, sobre a minha ancestralidade e o quão importante é a gente falar sobre isso. Então, sempre que existe um espaço para pessoas pretas falarem sobre pessoas pretas, eu acho que temos que aproveitar”.
Ele espera que o público visitante da exposição capture a intenção do trabalho.
“Hoje eu tenho o poder de falar sobre o meu povo e trazer isso para um público que talvez não tenha esse tipo de conhecimento. Estamos em um espaço que recebe todo tipo de público e isso é muito rico”, finaliza.

Serviço
Exposição fotográfica “Visões da Genialidade Cultural Negra” de João Junior
Data: de 18 de novembro a 16 de janeiro de 2026
Sesc Cadeião (Rua Sergipe 52)
Horário de visitação: de terça a sexta, das 9h às 21h. Aos sábados e domingos, das 9h às 18h
Gratuito
Classificação indicativa: livre