A história se repete em tantas famílias brasileiras: pais brigados, separação conturbada, e a mãe, como base de Vini Maia, guiou seus primeiros passos. O filho, de olhos claros grandes e atentos, caminha. Olha pro chão entre o caminhar apressado pelas ruas de Joinville, cidade onde nasceu e cresceu, e repara em cada fresta. Levanta a cabeça, observa meticulosamente o mundo ao redor - os prédios, as construções, o cimento, a matemática das coisas todas.
Por ironia da vida, como vizinho, Juarez Machado (escultor, desenhista, caricaturista, mímico, designer, cenógrafo, escritor, fotógrafo e ator). Foi então, sua primeira referência artística. “A gente se encontrava no mercado. Essa imagem de artista, quase como uma figura pop, está marcada a partir dele”. E por que não seguir os passos de um mestre e se mudar para a “cidade grande” mais próxima e tentar a vida? Destino, Curitiba.
Nem faz tempo que Vini arrumou as malas e se mudou para a capital paranaense. “Ser LGBT em Joinville é muito complicado", afirma rindo. Na bagagem, o deboche de quem nem sabia o que era gravura e decidiu estudar graduação em Gravura na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). “Vi que o curso de gravura era à noite e eu precisava trabalhar de dia. A princípio, eu vim pra cá só pra sair de Joinville".

No caminhar, Vini conta que tinha “horror à cidade e andava muito” pra tentar entendê-la. Entre andanças, começou a trabalhar num call center. Mesma época em que foi apresentado ao Solar do Barão pela artista Lilian Reif. “Foi ela quem me apresentou aos ateliês. Em 2018, comecei a fazer gravura em metal. Em 2019 participei da minha primeira exposição. Em 2020 fui contratado". Sorte dele: o Solar é abrigo municipal do Museu da Gravura e segunda casa de artistas que vêem na impressão, a base de seus trabalhos.

Em seus deslocamentos, ocupou casas abandonadas no decorrer dos dias e dos quilômetros. Além de pegar materiais de construção de obras, calçadas e até de lojas para produzir obras e depois encerrá-las, ao fim das mostras.
No dia da nossa conversa, Vini chegou sorridente, como sempre. Isso não é a revista Caras, mas quem conhece, sabe que se ele tem um som, além dos passos, é o das gargalhadas. Ele veio a pé, e por saber que caminhar é pesquisa e conceito, agradeci mentalmente o fato da sua investigação estar em curso.
Por que você saiu de Joinville para buscar a arte e por que a gravura?
Bom, porque eu queria fazer alguma coisa diferente do que meu pai faz. Meu pai é da área da saúde. Eu pensei em arquitetura, eu pensei até em fazer matemática. Sempre me dei bem com exatas, ao contrário de várias outras pessoas da arte, né? Inclusive eu acho que o meu trabalho reflete bastante sobre cálculos. Só que daí, eu achei que eu tinha que ir pra algum lado cultural e vi que tinha uma faculdade de gravura, uma coisa que eu nunca tinha ouvido falar, eu achei que seria muito engraçado estudar uma coisa nova.
Por falar em pai, sempre vejo sua mãe te acompanhando e declarações nas redes sociais. Ela influencia de alguma maneira no seu fazer artístico?
A gente sempre teve uma relação muito próxima e companheirismo. Então, quando eu vim pra Curitiba, ela foi morar um tempo em Itajaí com a família dela, e três meses depois veio pra Curitiba e desde então a gente mora junto. E ela veio não só pra me ajudar, mas também porque não fazia sentido a gente ficar separado, sabe? Tipo, a gente realmente precisa muito da companhia um do outro. E isso acaba sendo refletido também no meu trabalho, porque várias vezes ela me ajuda a recolher material da rua, a abrir espaço pra ficar guardando um monte de lajota dentro de casa, coisas que a outra mãe ficaria meio de cara e ela tem muito orgulho de eu ter seguido para o lado artístico, que também é um movimento, assim, um contramovimento das famílias tradicionais.

Falando dos seus espaços de ocupação pela cidade, queria saber como é que essa pesquisa começou e se você tem esse hábito de andar procurando lugares para intervenções.
Eu gosto muito de caminhar e tenho o hábito de estar na rua. Quando comecei a ocupar espaços abandonados, eu morava no Boa Vista e ia andando até o Centro. Eu nunca repito o mesmo caminho, porque sinto vontade de conhecer todas as possibilidades da rua. E ali no Cabral, tem vários quadros de casas penhoradas e abandonadas. Na pandemia, eu tive a oportunidade de entrar nesses lugares e percebi que era uma possibilidade de explorar aquele espaço. Vi pessoas que moravam por lá e se interessavam mais pelo que eu estava fazendo, do que às vezes, quando eu montava aquele trabalho dentro de um museu. Quando um morador tava vendo eu fazer aquele trabalho numa casa abandonada, ele pergunta ‘o que é isso?’. Aquelas linhas que eu esticava.

E o que você respondia?
Eu falava que eu estava desenhando a luz. É porque descrevendo a imagem, é muito engraçado: eram duas paredes no absoluto nada, com dois buracos que em algum momento foram janelas. Só que também não tinha teto, então tinha luz entrando por todo lado. E daí eu criei essa obra, - foi a primeira vez que eu fiz essa instalação que era pra desenhar a luz passando.
Quando eu vi sua exposição “O que é concreto", no Solar, eu tinha acabado de chegar do Inhotim e é inevitável não lembrar do trabalho da Lygia Pape, né?
O que eu mais gosto dela, na verdade, é aquele trabalho Livro do Tempo. Sabe, que são os quadradinhos remodelados? Aquele trabalho, pra mim, é perfeito. Mas eu acho que a gente tem vontades diferentes quando a gente coloca essas linhas no espaço. A gente se assemelha, com a preocupação com a luz. Eu prezo mais pelo frágil (na escolha de materiais) e ela esticou corda fortes de metal.

Por falar nisso, o seu trabalho é feito com um material mais rústico. Eu quero te perguntar sobre essa escolha de material, como o fio, por exemplo.
O fio é porque, na verdade, eu já desenhava. Eu vim da gravura e ela é muito bidimensional e eu sempre fui muito tridimensional. Para fazer alguma coisa que chegasse um pouco mais próximo do tridimensional, eu desenhava estruturas com essas linhas, só que no papel. A linha veio não por causa do material linha, mas por causa da estética linha, para tirar de um papel e botar no espaço. É uma linha de algodão com uma cera em volta, que é frágil, mas resiste.
Me chama atenção no seu trabalho, a brutalidade, mas ao mesmo tempo é muito delicado. O que me remete muito a sua própria figura enquanto pessoa. Tô certa?
Ah, eu adorei saber disso, porque pra mim sempre foi um incômodo, porque eu achava o meu trabalho muito diferente da minha personalidade. Mas eu também não tinha levado a minha imagem talvez em consideração nesse sentido. Não é só imagem, é personalidade em si. A gente pensa se o trabalho tem que refletir o artista. E daí o artista, jovem principalmente, fica pensando o porquê faz as coisas. Só que chega uma hora que a gente entende o porquê faz aquilo. Não descobri ainda, não cheguei nesse momento. (risos) Mas eu tô parando de me perguntar, pelo menos.
Você acha que o público ajuda a responder essa questão?
É sempre o público que vai dar esse retorno pra gente. A gente sozinho, fica pensando em círculo. Por isso que a gente expõe. Por isso que a gente mostra o trabalho pro mundo.

E, de alguma maneira, você vê seu trabalho como autobiográfico?
Não. Autobiográfico? Bom, até pode ser, no sentido de práticas que eu tenho na minha vida. Como vários trabalhos que vêm do estar na rua, do caminhar, do estar em movimento.
Tem uma obra que você fez numa exposição coletiva do Paço da Liberdade, onde você emprestou o material da loja de materiais de construção e, quando acabou a exposição, você foi lá e devolveu. Isso vai contra a lógica do mercado, né?
Isso foi intencional. Eu gosto de passear em lojas de material de construção e realmente as coisas são muito caras. Eu cheguei numa loja e pensei, ‘vamos só ver se ela me emprestaria algo'. Eu cheguei lá e a menina adorou o meu trabalho e adorou a ideia de me emprestar. E eu me empolguei tanto por ter feito aquele trabalho que eu acabei nem desenvolvendo tanto quanto eu queria. Peguei aquelas lajotas de cimento e usei como suporte para expor uma gravura. Ali foi um momento de confusão. Hoje, eu imprimiria a gravura na lajota.
E como vive nessa abstração financeiramente?
Assim como você falou que desafia a norma do mercado pegar emprestado de uma loja e devolver, eu acho que desafia a lógica capitalista também, a parte laboral do trabalho ser apenas eu caminhar na rua e olhar a cidade. Vários trabalhos que eu faço, às vezes, acabam não sendo comercializados. A gravura, entre aspas, é um pouco mais fácil de vender. Em algum momento eu percebi que eu estava fazendo gravura por causa disso. Porque se eu faço gravura, eu vendo. Mas nas instalações, eu posso fazer o que eu quiser. Só que eu também percebi que eu queria fazer o que eu quisesse na gravura. Então, eu fui pra outra área, que é a produção cultural, desenvolvendo outro papel de atuação, para poder, enquanto artista, fazer o que eu quero.
Falando ainda dos materiais. Por que essa ideia desses materiais? Por que pegar esses materiais? O que você faz com eles depois? Me lembrei das telhas usadas na sua individual no Solar…
Essa telha era do teto do Solar. Teve uma reforma no banheiro do gabinete da diretora e ela retirou as telhas. Quando ela retirou, a minha exposição já estava marcada, eu falei ‘guardem essas telhas'. Nas telhas estava escrito Curityba com y, de tão antigo que eram. E onde estava aquele monte de telhas na montagem da exposição, tinha uma super goteira. Então tirar a telha do teto, pra botar dentro da sala expositiva, tem uma coisa de brincar com o espaço com elementos que são dele.
Seu trabalho tem muito do caminhar. Mas também tem muito do carregar. Tem uma obra que você carregou uma tonelada de pedras, que é performática?
Eu me toquei que eu estava fazendo uma performance, enquanto eu carregava as pedras. Teve uma reforma da rua Prudente de Moraes, que eles trocaram todos os paralelepípedos. Daí eu perguntei pros trabalhadores se eles não queriam me dar algumas pedras, e me responderam que se eu comprasse Coca-Cola pra galera que tava trabalhando, eles me davam. Fiz várias viagens com a Andréia Las, carregando essas pedras pro Solar, e do Solar até o Sesc. O William, que trabalha lá no Sesc, construiu um carrinho, e ele era plotado com frases do Platão (risos). Quando eu fui com aquele carrinho, ele fazia bastante barulho, porque a rua é toda irregular, eu pensei que eu tinha que registrar aquilo. Era também carregar uma tonelada de pedra pro terceiro andar de um museu que não tem elevador funcional.
Então é caminhar, carregar e conversar, porque neste trajeto, você tá sempre conversando, negociando e eu fico curiosa pra saber como as pessoas te olham quando você está negociando esse tipo de objeto…
Então, é muito engraçado, né? Porque falam que Curitibano é muito ostensivo, quieto, na sua. Em Joinville, eu era maltratado na rua. Aqui em Curitiba, eu sou muito bem recebido. E parece que uma imagem diferente do padrão, como a minha, causa identificação. As pessoas me tratam com tranquilidade. Assim, claro que eu sofro homofobia na rua. Mas, no geral, sou bem tratado.
Falando de Curitiba: existe uma dificuldade em fazer arte e morar em Curitiba. A gente sempre tem que transitar fora daqui pra ter algum reconhecimento. Queria saber se você se importa, se você busca por este reconhecimento e se de alguma maneira, é frustrante ficar aqui.
Em Curitiba, apesar de ser difícil e é, porque tem poucos espaços, tanto privados quanto públicos, não é difícil para mim fazer negociações. As pessoas são gentis comigo, eu tive muita sorte, tive pessoas que me ajudaram. Como no Solar, por ser um ateliê coletivo e aberto ao público, as pessoas se unem numa pequena comunidade: a gente pensa juntos, manda projetos (para editais) juntos, estamos sempre nos apoiando.

Eu ainda não alcancei Rio e São Paulo, lá tem muito mais espaço que aqui, mas ou você está lá, ou tem alguém que te indique. Aqui, as exposições que passei, também não foram indicações, foram por edital. Já a primeira exposição da minha vida, foi uma bienal da Argentina, em Córdoba, e por muito tempo, era a única exposição que eu tinha no currículo: uma bienal internacional. E depois disso eu participei de exposições na Polônia, na Estônia… Mas só tinha participado fora do Brasil e em Curitiba. Tô dizendo isso pra dizer que no Brasil tem uma crise de espaço.
Você queria estar mais nas instituições de arte do Paraná?
Respeito bastante o Museu Paranaense, gosto bastante. O MON, eu super não faço questão.
Se tem um lugar aqui do estado que você gostaria de estar, qual seria?
Eu estou com esperança do Pompidou ser um museu. Aqui em Curitiba, o MUPA é um lugar que ainda não expus… até isso é engraçado né? ‘Será que quero estar no MON?'. Provavelmente, em algum momento, eu estarei lá. Parece que é uma coisa natural, as coisas vão acontecendo. Se eu continuar caminhando e fazendo arte, uma hora vai dar certo: tu nunca vai ganhar dinheiro, mas tu vai ter um falso reconhecimento e estar nos principais museus do Brasil.