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Em "Fogo no Bordel", Teca Sandrini revela que foi transformada pela “liberdade só permitida para quem se dedicasse à arte”

Ao Plural, a artista falou sobre o livro de suas memórias, escrito por Ricardo Freire; o lançamento será neste sábado (22) em Curitiba

Em "Fogo no Bordel", Teca Sandrini revela que foi transformada pela “liberdade só permitida para quem se dedicasse à arte”
Artista Teca Sandrini. (Foto: Wagner Roger/Divulgação.)
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Neste sábado (22), das 10h às 15h, o Palácio Belvedere recebe o lançamento de “Fogo no Bordel", livro de memórias de Estela Sandrini escrito pelo historiador Ricardo Freire, com prefácio de José Carlos Fernandes. Nas páginas da biografia romanceada, o leitor poderá conhecer a trajetória de vida de Teca, como é mais conhecida a artista que perdeu a visão gradativamente desde a infância, e fazer uma viagem no tempo, com passeios especiais pelo mundo das artes plásticas de 1960 e décadas seguintes. 

Teca é autora de uma invejável produção de desenhos, gravuras, pinturas e esculturas, grande em números e em prêmios. Além de mãe e esposa, foi professora na Escola de Belas Artes do Paraná (EMBAP), na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), no Centro de Criatividade de Curitiba e na Penitenciária Feminina do Paraná, além de presidente-diretora do Museu Oscar Niemeyer (MON). Fora os estudos no Brasil, frequentou cursos na Professor Juan Carlo de Labourdette, em Buenos Aires (Argentina), e no Maryland Institute of Art, de Baltimore (EUA). A artista também soma mais de dez exposições individuais no currículo e obras em 20 acervos respeitados do Brasil e do exterior, entre outros feitos ao longo dos seus 80 anos de vida. 

Em entrevista ao Plural, Teca contou como foi transformador entender que existia uma liberdade que “só era permitida para quem se dedicasse à arte” e algumas passagens espirituosas, além de relembrar nomes como José Ernesto Erichsen Pereira (1909-1964), fundador dos jornais O Dia e O Estado do Paraná, e de todo um séquito de artistas, entre brasileiros e até argentinos, que passaram por sua vida e agora moram nas páginas do livro. 

Como não poderia ser diferente, a artista ainda explicou a origem do título curioso que a publicação ganhou. Confira a entrevista com Estela Sandrini a seguir.

Teca, o nome do livro com suas memórias é "Fogo no Bordel". Por favor, conta por quê?

No começo dos anos 60, eu saí de um colégio tradicional, só de meninas, e não fui para o colégio de ‘caça-marido’, como a gente dizia naquela época, fui para a Escola de Belas Artes. A mudança foi muito grande, inclusive, lá nós estudávamos o modelo vivo, o nu artístico. 

A antiga Marechal Deodoro era uma rua só de prostituição, e se estendia um pouco para a Emiliano Perneta. Do lado da Escola, existia um bordel de madeira que pegou fogo. Dentro dessa casa tinha uma pessoa, era manicure do bordel, que pulou o muro e caiu na cama da Dona Zulmira – uma das pessoas mais importantes na Belas Artes, que todos os anos era homenageada pelos formandos, sabia tudo dali, tinha todas as chaves… A Dona Zumira, acolheu a moça e fez dela uma das nossas modelos. Mais tarde, essa modelo cresceu no trabalho, foi muito respeitada por todos nós e se tornou uma funcionária dali. 

A Belas Artes, assim como transformou a modelo, também me transformou. Eu comecei a entender que existia uma liberdade muito grande e que essa liberdade só era permitida para quem se dedicasse à arte. Foi aí que eu comecei a modificar, a trabalhar e a pensar em um dia ser artista.  

Eu contei isso para o Ricardo e ele escolheu o nome para o livro.  

O Ricardo Freire, além de ter escolhido o título, é quem assina como autor da publicação. Como ele surgiu na sua história e na história do livro? 

O Ricardo Freire era o nosso pesquisador no MON, uma pessoa bastante reservada, muito tranquilo, e precisou fazer uma pesquisa sobre o professor Erbo Stenzel (1911-1980). Ele foi ao meu gabinete, quando eu estava na direção do museu, e começamos a conversar sobre o professor, eu o descrevi fisicamente e contei como agia dentro da sala de aula. O Ricardo fez a pesquisa e depois voltou para ler, fiquei admirada e disse: “Como você consegue escrever como se tivesse contando histórias?” Ele respondeu: “Eu sou da casa do contador de histórias, cursei História e faço parte também de grupos que vão a hospitais contar a histórias". E me explicou como a contação de histórias era uma formação importante para ele. Com isso, passei a admirá-lo cada dia mais. Depois fizemos várias outras pesquisas juntos, eu sempre dizia: “Ricardo, você escreve como quem sente o cheiro, se sente no cenário, e sente a pessoa.” 

Ali foi o início da minha história com o Ricardo, um profissional que cresceu muito dentro do Museu, se formou como mestre em Antropologia e tem uma cultura muito grande, é uma pessoa que fala seis línguas. Acho que não são seis, talvez cinco… mas quatro, eu tenho certeza. [Risos] 

Eu tenho uma admiração muito grande por ele. Se o livro está interessante, não é somente pelas minhas histórias, é pela forma que o Ricardo criou o texto, da maneira mais simples possível e mais original. E ele começou a escrever minhas memórias simplesmente porque deu vontade, no tempo da pandemia, não era nada pensando num livro. Imagine?! 

Quais são os principais nomes, as principais personalidades que estão nas páginas do livro com as suas memórias?

A lista das principais pessoas que aparecem no meu livro, claro, começa com o meu pai, que era jornalista e por quem eu tinha uma admiração muito grande. O nome dele era José Ernesto Pereira, ele foi fundador dos jornais O Dia e Estado do Paraná, ele lia muito, escrevia muito bem e contava as coisas de uma forma muito pitoresca. Morreu cedo, com 52 anos, muito cedo. E, naturalmente, vem a minha mãe, sempre muito sábia, uma das pessoas mais sábias que eu conheci. Ela era de uma família tradicional da Lapa e meu pai era de uma família tradicional de Palmeira. 

Depois, o [Theodoro] De Bona (1904-1990); o [Guido] Viaro (1897-1971), que foi a pessoa que mais me influenciou e me incentivou; o Erbo [Stenzel] (1911-1980); o Freyesleben (1899-1970); e todos os meus outros professores da Belas Artes. Quando eu entrei na Escola, eu ainda tive convívio com o [Fernando] Calderari (1939-2021) e com o João Osório [Brzezinski], que eram artistas mais consagrados. 

Então vem a história de uma pessoa que eu amei muito, meu marido, o Rômulo Sandrini. Além do grande amor que tenho por ele, eu tive uma grande admiração, ele me ensinou muito na vida sobre ter garra para conseguir as coisas. E ainda tem o Quino, o Joaquín Salvador Lavado Tejón (1932- 2020), que foi amigo nosso na Argentina. Ai, eu tenho histórias com tanta gente, mas eu coloquei muitos amigos no livro. 

E, claro, eu também falo do meu avô, ele foi um dos maiores construtores do Paraná; também coloquei uma história muito linda da Emília Erichsen, minha tataravó, a primeira professora de jardim de infância a ensinar crianças sem usar castigos. E faço muitas observações sobre meus filhos e netos, esses sim são importantes para mim, são mais importantes que qualquer outro nome. 

"Fogo no Bordel" tem muitas boas histórias. Por favor, conta uma para matar um pouquinho da curiosidade de todos.

O Ricardo gosta da história de quando, em 1988, eu queria estudar e fazer arte nos Estados Unidos. Eu queria me matricular na escola de arte mais antiga do país, a Maryland Institute of Art, em Baltimore, mas nunca fui muito boa em inglês, não pensava em fazer mestrado ou doutorado, eu queria trabalhar num atelier. Quando entrei no instituto, a senhora me perguntou o que eu estava fazendo lá e respondi que tinha um appointment, ela olhou para a minha filha, Giovana, e pensou que era para ela. Como eu não sabia bem a língua e ainda estava nervosa, a Giovana fez o appointment com o nome dela, o telefone, preencheu tudo e em três dias iriam ligar lá para casa, para que ela tivesse uma entrevista. Ela era mais adolescente, não gostou muito da história, mas fomos lá. 

O instituto era muito bonito, parecia uma antiga estação de trem. Quando a diretora internacional nos atendeu, eu disse que não era ela, a minha filha, que iria falar: “Eu que sou artista. Gostaria de estudar aqui e trouxe meus trabalhos para você ver.” Ela teve a maior paciência, não era nada burocrática e ficou abismada com os desenhos, afirmou que se eu soubesse falar inglês poderia até ser professora lá. Eu fiquei toda feliz.

Depois, ela me deu um espaço no instituto, numa seção chamada classes continuadas, para exercitar, eu poderia ir hora que quisesse e como quisesse, mas a primeira aula era diferenciada. Chegou o primeiro dia. Eu estava muito nervosa, entrei e a sala era imensa, cada um tinha que ir lá na frente e falar sobre sua obra. Quando perguntaram sobre meu trabalho, eu disse “I’m mute” (eu sou muda). Todo mundo riu e já fiquei mais tranquila, fui mostrando os desenhos e as pessoas começaram a levantar, até o professor, e ver de frente, e pegar, me olhar com um rosto diferente. Eu ia escrevendo as palavras que eles diziam. Fui para casa e disse para o Rômulo que eu estava assustada porque tinham achado o meu desenho terrível. “Terrível?! Como eles disseram isso?” “Eu anotei, tá escrito aqui: terrific!” Ele chorou de tanto rir.

Ali eu acreditei em mim como artista. Eu tinha muitas relações aqui, mas lá eu não conhecia ninguém, nem um professor, nem conhecia a língua. Receber um elogio num lugar em que ninguém me conhecia, me deu muita força.

Você perdeu gradualmente a visão, desde a infância. E você foi diretora do Museu Oscar Niemeyer, deu aulas na EMBAP e na Penitenciária Feminina do Paraná, entre outros lugares, tem uma grande produção de desenhos, gravuras, pinturas e esculturas e uma bela lista de prêmios conquistados. O que foi mais difícil no seu caminho? 

A maior dificuldade que eu tive na minha história foi acreditar em mim. Eu perdi a visão com nove anos de idade, por uma doença congênita, e vivi até os 50 anos com uma visão só. Com 56 anos, eu tive uma perda de 70% e, até o dia de hoje, eu continuo tendo perdas e enxergando muito pouco. Mas, ao mesmo tempo que eu tive esse ônus, eu tive muito bônus, porque eu comecei a modificar meu trabalho, acreditar numa força minha mesmo e fui muito amada por todos da minha família. Isso me deu muita força para continuar o meu trabalho. 

Hoje eu não vejo dificuldades, eu vejo que foi uma ansiedade muito grande. Perder a visão te leva para um mundo que você não espera e que eu não sabia como era. É difícil falar, mas vou dizer uma coisa: ela não me faz mais falta. Hoje as pessoas não envelhecem, as pessoas não são feias, as pessoas não são limpas ou sujas, as pessoas são pessoas, aquilo que elas se apresentam. E a percepção, para mim, aumentou muito. O significado da vida, também.  

Serviço: Lançamento do livro “Fogo no Bordel - Memórias de Teca Sandrini”

Data: 22 de março de 2025

Horário: das 10h às 15h

Endereço: Palácio Belvedere - sede da Academia Paranaense de Letras - Praça Doutor João Cândido, Av. Jaime Reis, sem número (ao lado das Ruínas de São Francisco).

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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