Dalton Trevisan, escritor curitibano que se tornou um dos nomes mais importantes da literatura em língua portuguesa e que fez fama tanto pelos contos que escrevia quanto pela aversão que tinha de expor sua privacidade, morreu nesta segunda-feira (9), aos 99 anos.
A notícia da morte foi confirmada por sua editora, a Todavia.
Ao longo de sua carreira, que começou ainda na primeira metade do século 20 e se estendeu até os anos 2020, mostrando um fôlego extraordinário para se manter relevante, Dalton transformou o gênero do conto abrindo mão de fórmulas óbvias de narração para tratar de coisas mais abstratas e mais difíceis de pôr em palavras. Suas histórias falam de desejos, frustrações e medos, e exibem tipos e cenários característicos. Uma parcela considerável de sua obra trata da vida miserável e pequena. Você pode dizer que não é fácil habitar um conto de Dalton Trevisan. “O traço decisivo, que atravessa toda a prosa de Dalton, é o alto teor de negatividade, desumanização e aniquilamento”, diz o professor da USP Augusto Massi.
Dalton premiado
Dalton venceu alguns dos principais prêmios literários do mundo lusófono – alguns deles, mais de uma vez. O mais importante de todos, sem dúvida, foi o Prêmio Camões de 2012, pelo conjunto da obra. Espécie de Prêmio Nobel da língua portuguesa, tem uma lista de laureados que inclui José Saramago, Raduan Nassar e Chico Buarque.
O curitibano venceu quatro vezes o Prêmio Jabuti, o mais tradicional do Brasil, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. A primeira delas em 1960 com seu livro de estreia, “Novelas nada exemplares”. (Era, na verdade, seu terceiro livro, mas ele ignorava os dois primeiros.) Imagine surgir na cena literária nacional, vindo da província, com 30 contos que dariam o que falar até para o célebre crítico Otto Maria Carpeaux, que tachou Dalton de “provocador” (sobre isso, especificamente, não dá para dizer que ele estivesse errado).
Dalton e a morte
Dalton Jérson Trevisan nasceu, viveu e morreu em Curitiba, entre 1925 e 2024. Ele completaria um século de vida no dia 14 de junho do ano que vem. Escritor que chegou a trabalhar como advogado por um tempo, depois de se formar na Faculdade de Direito do Paraná, por pouco não morreu aos 19, na explosão de uma caldeira na olaria do pai.
O acidente teria feito o jovem advogado encarar a morte de perto e voltar do embate disposto a perseguir uma carreira literária. Assim, no mesmo ano da explosão, enquanto trabalhava como repórter na editoria policial do “Diário do Paraná”, fez sua estreia-de-verdade com “Sonata ao luar” (1945), depois renegado (o livro acabou ganhando uma reedição pela Arte e Letra em 2023). Ele renegou também o segundo, “Sete anos de pastor” (1948), esse sem reedição.
Depois disso, levou uma década para publicar “Novelas nada exemplares” pela José Olympio, mas continuou escrevendo e emplacando contos em jornais e revistas, alguns editados por ele mesmo. Dalton tinha apenas 21 anos quando criou com amigos a revista literária “Joaquim” (1946–1948), que entraria para a História como a primeira a publicar obras de Kafka no Brasil e trechos de “Ulysses”, de James Joyce, traduzidos para o português. Com a “Joaquim”, o resto do país descobriu que existia vida inteligente em Curitiba.
Da vida íntima de Dalton Trevisan, pouco se sabe. Ele se casou com Yole Maria Bonato em 1953 e tiveram duas filhas, Rosana e Isabel. Yole morreu de câncer em 1998, aos 66 anos. Isabel morreu antes de completar 40 anos, em 1997, também de câncer. E Rosana morreu no ano passado, aos 69.
Dalton exemplar
“Trata-se de um escritor singularíssimo”, escrevem Fernando Paixão e Hélio de Seixas Guimarães, no livro “Dalton Trevisan: uma literatura nada exemplar” (2024). E continuam: “Dono de uma dicção absolutamente única, que nunca arredou um milímetro de suas convicções literárias. Tanto na vida como na obra, sempre foi avesso a modas, modelos e grupos, decorrendo disso uma imensa dificuldade de classificá-lo ou mesmo estudá-lo”.
Com uma carreira literária que soma 85 anos – começou a publicar crônicas na adolescência, em um jornalzinho da escola –, mais de 700 contos e novelas escritos e pelo menos 55 livros publicados, Dalton “é um movimento literário de um homem só”, como definiu o professor da UFPR Caetano W. Galindo. Ninguém escreve como ele.
Sua bibliografia conta também com dezenas, talvez centenas de plaquetes e outras publicações independentes, bancadas pelo próprio autor e distribuídas para amigos e conhecidos, provando que não dependia do mercado editorial para fazer suas histórias circularem.
É claro que, ao longo da carreira, Dalton não escreveu de um jeito só – embora tenha recebido críticas por ser repetitivo. Seu estilo evoluiu e seus contos foram ficando cada vez mais breves e desconcertantes.
Foi o russo Anton Tchekhov (1860–1904) que disse – não nessas palavras – que para escrever um conto basta colocar uma história no papel e, depois, cortar fora o começo e o fim. Dalton, que admirava bastante o autor de “A dama do cachorrinho”, aprendeu a lição – e fez mais. Começou a cortar tudo que podia ser cortado: verbos, sujeitos e descrições; parágrafos inteiros. Um de seus contos mais curtos – ou “ministórias”, como ele preferia dizer – tem apenas nove palavras e aparece no livro “111 ais” (2000). Na íntegra: “Não fale, amor. Cada palavra, um beijo a menos”.
Em diálogos, seus personagens conversam usando apenas reticências (…) e sinais gráficos, com um resultado genial. É assim em “Arara Bêbada”, que aparece na “Antologia Pessoal” (2023) e dá uma ideia do senso de humor de Dalton:
— Ah, se você deixasse, te chamava de nuvem, anjo, estrela. O que alguém jamais disse a ninguém. Sabe, Maria?
— …
— Nunca mais seria a mesma. Você é a redonda lua azul de olho amarelo…
— Credo, João.
— …que, aos cinco anos, desenhei na capa do meu caderno escolar.
— ?
— É a lagartixa que, se eu acendo a luz, saracoteia alegre pela parede e, de cabeça para baixo, espirrando a linguinha atira beijos.
— !
— Mimosa flor com dois peitinhos. Ó dália sensitiva de bundinha em botão.
— ?
— Já viu canarinha amarela se banhando de penas arrepiadas na tigela branca?
— Assim eu encabulo, João.
— Você fez de mim um piá com bichas que come terra.
Em vez de partir do conto para chegar ao romance, como fazem muitos escritores, Dalton começou no conto e seguiu nele, lapidando histórias durante décadas – em alguns casos, histórias que já tinham sido publicadas. Esse método de reescrita acabou gerando várias versões de um mesmo conto. Um caso famoso é o de “Minha cidade” (1946), que teria pelo menos quatro versões distintas até virar “Em busca de Curitiba perdida” (1992). O parágrafo de abertura da versão final parece explicar como a cidade influencia Dalton: “Curitiba, que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja”. De quebra, ele dá aquela que é, possivelmente, a melhor descrição de Curitiba que alguém poderia dar: “Onde o céu azul não é azul”.
Com frequência, comparam a Curitiba de Dalton com a aldeia de Macondo, em “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez. A comparação é reveladora porque Macondo é completamente fictícia, assim como – argumentam os críticos – a Curitiba de Dalton Trevisan. Mas há quem prefira buscar evidências de que a cidade que aparece nos livros é, sim, a mesma que existe fora deles.
Dalton recluso
Nos últimos 50 anos, Dalton Trevisan se esforçou para evitar jornalistas e fotógrafos a todo custo (apesar de ser amigo de vários). Porém, ele não era um ermitão como J.D. Salinger, o americano que escreveu “O Apanhador no campo de centeio” e depois se isolou numa cidadezinha de New Hampshire, sem nunca mais publicar um livro.
O curitibano (que gostava também de Salinger) seguiu publicando a vida inteira e mandando, com autógrafo, cada livro novo que saía para críticos, escritores e jornalistas. Ele era muito habilidoso em cuidar de seu networking pelo menos desde os anos 1950. Há quem diga que sua aversão à publicidade era uma manobra genial para atrair ainda mais publicidade. Se foi isso mesmo, tudo indica que deu certo.
Não foram poucos os jornalistas que se aventuraram a saltar o muro de silêncio do escritor, às vezes saltando até o muro de concreto que cercava sua casa na Rua Ubaldino do Amaral. Os resultados eram mais ou menos constrangedores. Numa ocasião, um jornalista mentiu que era estudante de Letras para abordar o escritor na rua e depois publicou a conversa em um jornal de circulação nacional, admitindo a mentira (difícil imaginar uma fonte confiando nesse jornalista depois disso).
A última entrevista autorizada de Dalton saiu em 1979, na revista “Status” (o que, antigamente, chamavam de “revista de mulher pelada”). Dele, existem poucas fotos recentes e todas foram feitas à revelia do autor.
“Não creio, porém, que essa estratégia de fuga seja o resultado de um traço de temperamento, ou de alguma fobia secreta”, afirmou o crítico literário José Castello, no jornal português “Público”. “Dalton é invisível porque o invisível é o objeto de sua literatura.” Para o crítico, “o curitibano típico é introvertido, não conversa com estranhos, não gosta de sair de casa e é, sobretudo, um desconfiado. Nesse sentido, os personagens de Dalton encarnam aspectos importantes da alma da cidade que nem mesmo as gerações mais jovens conseguiram, ainda, superar. (…) Ele vê uma cidade que ninguém vê e, com sua escrita de gênio, a reinventa.”
Dalton vampiro
Não se sabe exatamente quando e como o título de seu livro mais famoso, “O vampiro de Curitiba” (1965), acabou virando um epíteto para o próprio escritor. Nelsinho, o protagonista do conto, é um cara com idade suficiente para usar bigodinho que tem um fraco por meninas virgens. Ele é monotemático e um pouquinho sinistro. Hoje, é o que chamam de pervertido (uma palavra que, salvo engano, não aparece na obra do curitibano).
Como Dalton se empenhava em evitar cerimônias de prêmio, feiras literárias, lançamentos de livro e filas de mercado, é possível que as pessoas tenham começado a imaginar um homem soturno que só saía de casa à noite. Besteira. Dalton podia ser excêntrico, mas era também “uma criatura solar”, para citar a definição do jornalista Mario Sergio Conti, que tomou um chá com o escritor e escreveu sobre a experiência: “O riso frequente e franco, a loquacidade e os olhos de um azul transparente contrastam com suas raras fotografias na imprensa – sempre sério, em preto e branco. É uma imagem equivocada”.
Dalton obsceno
Parece que pouca gente está disposta a falar sobre esse assunto, mas muitos contos de Dalton têm uma carga sexual que não se vê por aí e, às vezes, misturada com um senso de humor meio sacana, meio cafajeste. Como nas metáforas impagáveis que ele usa para se referir à genitália: homens têm “flauta de mel”, por exemplo, enquanto mulheres escondem “a pérola da concha bivalve”. Esse erotismo não é sem contexto.
O professor da USP Augusto Massi, no prefácio para “Antologia Pessoal” (2023), observa que Dalton, a certa altura, resolveu radicalizar a sexualidade e a violência “em todos os níveis”: “O erotismo incestuoso entre poder e perversão, camuflado nos ambientes da classe média – o tabuleiro da guerra conjugal, as confidências e inconfidências nos escritórios de advocacia, o zigue-zague entre as traições e o azedume dos ciúmes, a falação e a felação –, será substituído por uma sexualidade crispada e sádica: abusos, taras, estupros, pedofilia. A brutalidade invade as camadas mais desprotegidas da sociedade”. Enfim, todos temas complicadíssimos de encarar e que desafiam os leitores mais sensíveis.
No mundo de 2024, esses textos podem ser considerados imorais, indecentes. Obscenos é o termo que a atriz Fernanda Torres usa na orelha da edição mais recente dos “Contos eróticos”. O que ela diz exatamente é: “O desejo, neste livro, é sinônimo de miséria, sexo sem misericórdia, culpa sem perdão. Contos eróticos, anuncia a capa, eu diria obscenos. Obscenos seria o termo mais exato para essa seleção de pérolas”.
Na verdade, é estranho que a obra de Dalton não tenha sido alvo de grupos conservadores e políticos oportunistas. Existem livros que enfrentaram problemas por muito menos. (Como a história em quadrinhos que retratou um beijo gay e foi perseguida pelo prefeito do Rio de Janeiro durante a Bienal do Livro de 2019.)
Dalton em obras
A despeito da fama de “O vampiro de Curitiba”, se você quiser ler ou reler apenas um livro de Dalton, que seja “Antologia pessoal”. Publicada no ano passado pela Record, é uma seleção de 94 contos feita pelo próprio Dalton, um inventário que percorre toda a sua carreira.
A mesma Record reeditou recentemente outras três antologias: “Cemitério de elefantes”, “Contos eróticos” e “Macho não ganha flor”. E transformou dois contos de Dalton em livros voltados para o público jovem: “O ciclista” e “Chuva”, ilustrados por Odilon Moraes (um) e Guazzelli (o outro). Sobre esses dois, Dalton escreveu para o editor Rodrigo Lacerda comparando os lançamentos a “broinhas de fubá mimosas” (ele adorava broinhas de fubá).
Semanas atrás, a editora Todavia anunciou que vai publicar a obra completa de Dalton a partir do ano que vem.
Dalton leitor
É grande a lista de escritores que influenciaram Dalton Trevisan, que lia muito de tudo. Além de Kafka, Salinger e Tchekhov, pelo menos Dostoiévski, Flaubert e Tolstói também foram importantes para o curitibano. Do Brasil, Pedro Nava, Rubem Braga e, como não poderia deixar de ser, Machado de Assis (que Dalton chamava de “nosso Machadinho”).
No documentário “Daltonismo” (2006), várias figuras do meio literário curitibano contam que era fácil começar uma briga com Dalton: bastava dizer que Capitu não tinha traído Bentinho, no clássico “Dom Casmurro”. Era uma questão para Dalton. Ele argumentava que, se Capitu não tivesse traído Bentinho, Machado de Assis seria José de Alencar.
Dalton, entre aspas
Em 1968, quando já tinha fama de arredio, Dalton deu uma bela entrevista para o mineiro Luiz Vilela, publicada pelo “Estado de Minas”. Como a conversa foi entre escritores e, mais do que isso, entre um jovem autor (Vilela) e seu ídolo (Trevisan), o primeiro ficou levantando a bola para o segundo marcar de cabeça. Dalton nunca se expôs tanto em uma entrevista.
“Escrever é a única justificativa que encontro para estar vivo”, disse o curitibano. “Meus gestos cotidianos são vazios. Mesmo o amor e o sexo; o sexo dura muito pouco tempo. As outras coisas? Eu não tenho o dom de ganhar dinheiro; nem ambição de poder. Escrever é uma atividade inútil, mas, para mim, ainda é a menos inútil de todas e a que me faz continuar vivo. E qual a compensação de escrever? Uma frase boa que a gente cria, uma imagem, coisas assim, que agradam num momento e no dia seguinte já nos deixam insatisfeitos. O escritor troca a sua vida por nada”.
No finzinho da vida, quando recebeu uma homenagem da Universidade de São Paulo no seu aniversário de 99 anos, em junho passado, Dalton, de novo, não apareceu. Mas ele mandou um recado por escrito que diz algo sobre o trabalho de sua vida: “Considero-me um guerreiro que matou o próprio cavalo para fugir diante do inimigo, compelido a fazer o caminho de volta a pé.”
E assim ele fez.
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