“Notas Sobre um Desterro”, o primeiro filme brasileiro sobre o genocídio em Gaza, tem exibição gratuita nesta sexta-feira (17), às 18h30, no Cine Biblioteca Pública do Paraná. Antes da sessão, às 18h, o diretor Gustavo Castro e a produtora Juliana Sanson participam de bate-papo com o público.
O documentário estreou no 14º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, como o primeiro longa-metragem selecionado para a Mostra Mirada Paranaense, tradicionalmente dedicada a curtas-metragens. A exceção aberta pela curadoria é mais do que justificada, “Notas Sobre um Desterro” é urgente e revelador. O filme é uma denúncia sensível, um relato sobre a sobrevivência dos palestinos ao longo da história e sobre a resistência das vítimas da guerra, fala das pessoas diante dos efeitos estarrecedores do combate.
Além de exibições em várias cidades, o longa foi selecionado pelo Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, pelo CineBH - International Film Festival. Agora segue para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (nos dias 20 e 29 de outubro) e para o DocsMX, no México (25 de outubro). A produção também tem novas sessões agendadas no Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro.
Com o cessar-fogo de 10 de outubro, os problemas e ameaças continuam. Os hospitais estão em colapso e o Programa Mundial de Alimentos (WFP) afirma que a ajuda humanitária não chega às regiões mais atingidas. A fragilidade do acordo é evidenciada por relatos de ataques, e incidentes com mortos e feridos.
“Notas Sobre um Desterro”
A primeira ideia do filme é de 2018, quando Castro e o fotógrafo Rafael de Oliveira foram à Cisjordânia. Durante um mês, acolhidos por uma família na cidade de Kobar, percorreram estradas vigiadas por tanques e checkpoints. À época, o plano era registrar a vida sob ocupação e as possibilidades de coexistência, mas com os acontecimentos de outubro de 2023, tudo mudou.
O cineasta revisitou o material gravado anos antes, e o filme se transformou em uma reflexão sobre colonização, apartheid, genocídio e a recente proliferação de imagens de guerra, produzidas pelas próprias vítimas de um massacre que se repete ao longo da história.
Gustavo Castro
Gustavo Castro é curitibano e, aos 41 anos, soma quase duas décadas de trabalho no audiovisual, principalmente com documentarismo. O cinema surgiu quando cursava faculdade de Administração e entrou num projeto do centro acadêmico para viajar pela América Latina e conhecer as diferentes realidades dos países. Hoje ele tem mais de 30 documentários no currículo e é sócio com Juliana Sanson da Fabulário Filmes, produtora de cinema e conteúdo que desenvolve exclusivamente projetos de impacto e relevância social.
Ao Plural, o diretor conversou sobre a produção e o resultado final do documentário. Ele também falou sobre a catástrofe e sobre o olhar do Brasil para os conflitos na Faixa de Gaza. Confira a entrevista a seguir.
Como surgiu aquele primeiro convite para acompanhar o grupo de cristãos em viagem?
O convite veio por meio de um conhecido que era dono da agência de turismo responsável pela viagem. Na época, em 2017, além de documentários eu também produzia vídeos institucionais. Já havia realizado um documentário sobre a migração árabe no Brasil, em Foz do Iguaçu, o que me aproximou ainda mais do tema. Além disso, meu amigo fotógrafo Rafael Oliveira — que se tornou meu parceiro nessa viagem à Palestina — tinha uma longa amizade com Ualid Rabah, então presidente da Fepal (Federação Árabe Palestina do Brasil). A combinação desses fatores despertou em mim tanto o interesse quanto a percepção de que havia condições de produzir um filme na Palestina.
O filme é uma produção independente ou conseguiu recursos de editais ou incentivadores? Quais?
O filme nasceu como uma produção independente, com cerca de 80% dos recursos investidos pela própria produtora e pela equipe. Na época da viagem, contei apenas com o apoio da agência de turismo, que emitiu as passagens e adiou meu retorno. Quando regressamos, em 2018, atravessamos um período de desmonte dos editais de incentivo à cultura, o que impossibilitou a finalização, embora o projeto permanecesse sempre em nosso imaginário e fosse constantemente redesenhado. Em 2023, conseguimos aprová-lo em um edital de finalização de obras audiovisuais promovido pela SEC, por meio da Lei Paulo Gustavo, o que nos permitiu reunir uma equipe dedicada e trabalhar exclusivamente no filme durante vários meses.
Segundo a Agência Brasil, o Sindicato de Jornalistas Palestinos estima que Israel assassinou 246 jornalistas desde o dia 7 de outubro de 2023, para silenciar a cobertura da guerra na Palestina. O número é maior do que a soma de sete outros conflitos (1ª e 2ª guerras mundiais; guerras Civil Americana; da Síria; do Vietnã; da Iugoslávia e da Ucrânia) - e continua crescendo. Como você vê a importância do cinema neste cenário?
O cinema sempre teve um papel central na formação cultural do Ocidente e carrega um imenso poder de transportar pessoas para outras realidades e de ampliar horizontes de percepção. Diante de uma mídia hegemônica dominada por narrativas simplificadas e tendenciosas, e considerando que as vozes dos jornalistas palestinos vêm sendo sistematicamente perseguidas e silenciadas, o cinema assume um papel fundamental: lutar contra o apagamento das vidas palestinas e contra o desmantelamento da sua história. Recentemente, filmes como No Other Land, premiado no Oscar, e The Voice of Hindjab, premiado em Veneza, mostraram essa potência do audiovisual em resistir ao silenciamento. Notas Sobre um Desterro busca aproximar a catástrofe palestina do público brasileiro, por meio de protagonistas oriundos da diáspora palestina e que mantêm conexões com o Brasil. Além disso, o filme é dedicado, sobretudo, aos jornalistas que arriscaram — e ainda arriscam — suas vidas para registrar imagens que denunciam o genocídio em curso.
O Brasil, e o Sul do País principalmente, têm dimensão das atrocidades e crimes de guerra que acontecem desde sua visita à região do conflito?
Acredito que exista um número crescente de pessoas que vêm tomando consciência das atrocidades históricas praticadas desde a fundação do Estado de Israel. No entanto, ainda é necessário ampliar muito essa conscientização, pois governantes seguem oferecendo apoio ao Estado israelense. É fundamental que aumente a pressão popular para que medidas mais efetivas sejam tomadas, como boicotes e bloqueios ao regime sionista.
Quanto tempo levou a produção e finalização do documentário? O que era inicialmente e o que se tornou ao longo da produção do filme? Quais foram os maiores desafios ao longo deste período?
Sim, trata-se de um documentário em primeira pessoa, que também pode ser considerado um filme ensaio, já que, além das imagens, há uma reflexão construída pelo diretor e pela equipe de roteiro. Foram sete anos desde as filmagens até a finalização. Inicialmente, o projeto seria um filme sobre as possibilidades de coexistência em uma terra ocupada, mas ao longo do processo se transformou em uma reflexão profunda sobre colonização, apartheid, genocídio e massacres que se repetem ao longo do tempo.
Os desafios foram muitos: realizar uma pesquisa aprofundada sobre a história da Palestina, elaborar um roteiro para um tema complexo e multifacetado, buscar financiamento para a finalização do projeto. Mas, sem dúvida, o maior desafio foi lidar com as imagens atuais do genocídio, registradas pelas próprias vítimas. Elas carregam uma ferida moral e provocam questionamentos sobre a falência ética da sociedade ocidental, que permite que esse massacre continue.
A situação na Palestina mudou desde o lançamento de “Notas sobre um Desterro"?
Infelizmente, a situação na Palestina se torna cada vez mais grave. Em Gaza, a crise humanitária atingiu níveis inimagináveis: uma população inteira teve suas condições de autossuficiência aniquiladas e está privada de suprimentos básicos, como comida e água. Na Cisjordânia, onde realizamos as filmagens em 2018, ouvimos relatos de escalada da violência e de planos de anexação do território. Os próprios protagonistas do filme relatam a deterioração das condições de vida, o aumento da repressão e o cerceamento da liberdade dos palestinos que vivem na região.
O filme foi o primeiro longa-metragem selecionado para a Mostra Mirada Paranaense do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, que na edição de 2025 deu especial atenção para produções envolvendo o trabalho com arquivos e memórias. Como foi o processo de pesquisa, busca e edição de conteúdo e imagens de arquivo utilizados no documentário?
O processo de pesquisa contou com a participação de Ticiano Monteiro, que também atuou como montador do filme. Envolveu a leitura de diversos livros de historiadores — alguns deles judeus — e uma ampla pesquisa iconográfica, que incluiu gravuras do século XIX e os primeiros registros fotográficos feitos por fotógrafos europeus. Também tivemos acesso a um acervo de vídeos cedido pela UNRWA, agência da ONU para refugiados palestinos, que documenta os primeiros refugiados durante a Nakba de 1948 e imagens da Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Na etapa de montagem, o apoio de Juliana Sanson, roteirista e minha sócia na Fabulário Filmes, foi fundamental para encontrarmos uma linha narrativa capaz de unir imagens de fontes distintas, mas que, juntas, contam a história de um povo que sofre com a fragmentação de seu território e com tentativas de apagamento histórico.
Você mantém contato com os personagens do documentário?
Sim. Desde as filmagens, mantenho contato com Ruayda, uma das personagens que também atuou como intérprete em nossas entrevistas. Durante esse período, conversamos frequentemente sobre questões éticas e os riscos que a repercussão do filme poderia representar para as pessoas retratadas. No entanto, ela sempre nos disse que, na situação em que vivem, correm riscos com ou sem o filme. Por isso, acredita que é melhor que o documentário exista, para ajudar a mostrar ao mundo o que significa viver sob um regime de apartheid.
O filme humaniza e aproxima o espectador de questões que se perdem no mundo da sobrecarga de informações contemporânea, com amplo acesso e também efemeridade. Em muitos momentos a plateia é aplacada por emoção, dor e até desilusão. Como foi para você a experiência das gravações, da roteirização e da edição do material?
Acredito que o filme, sobretudo, leva o espectador a questionar a própria humanidade. O fato de despertar dor, raiva ou deixar o público sem palavras é um sinal de que algo em nós continua vivo e íntegro. Sentir dor diante da dor do outro não é fraqueza, mas sim é um sinal de integridade moral, é um ato de saúde emocional.
Este filme não pretende dar conta de tudo. Não resolve. Não consola. Mas tenta realizar algo que, hoje, é radical: testemunhar. Dizer: isso está acontecendo. Nós vimos. Nós sentimos. E, a partir disso, ninguém mais pode alegar que não sabia.
Quando essa dor é acolhida e compartilhada, ela deixa de nos paralisar e começa a nos transformar. É nesse espaço que nasce a empatia, a consciência crítica, a vontade de agir — mesmo que seja apenas com a nossa voz, nossa escuta ou nossa presença.
Você acredita na paz na Palestina? E na justiça para o povo palestino?
Primeiro, é preciso reconhecer que as possibilidades de alcançar a paz e a justiça estão cada vez mais distantes na realidade atual. Não será possível chegar a qualquer solução enquanto existir um regime de ocupação colonial, marcado pela violência e pela desigualdade sistemática, que continue avançando e sendo aceito pela comunidade internacional. Nesse contexto, acredito que o cinema e outras formas de expressão podem contribuir para ampliar a conscientização, fomentar a empatia e fortalecer a pressão social, nos permitindo vislumbrar um futuro um pouco mais justo para o povo palestino.
Serviço: Documentário “Notas Sobre um Desterro”, no Cine BPP
Classificação: 16 anos
Duração: 80 minutos
Data: 17 de outubro (sexta-feira)
Bate-papo com Gustavo Castro e Juliana Sanson
Horário: 18h
Exibição do documentário
Horário: 18h30
Local: Auditório Paul Garfunkel, no 2º andar da Biblioteca
Entrada gratuita