A 1ª edição do Plataforma Súbita – Encontro Internacional de Investigações Cênicas segue com programação até sábado (10), em Curitiba. Entre os espetáculos selecionados para o evento, está o solo "Três Luzes", escrito por Aristeu Araújo para a atriz Cássia Damasceno, que será apresentado com sessão gratuita na noite desta quarta-feira (7), no Teatro Cleon Jacques.
A peça, que marca a primeira experiência do montador e diretor de cinema Araújo na direção teatral, foi lida publicamente no Festival de Curitiba de 2023 e depois participou de uma mostra de processos no Rio de Janeiro para estrear oficialmente na Mostra Lucia Camargo da 32ª edição do festival em 2024. Também entrou em cartaz pela Caixa Cultural em Curitiba, Fortaleza e Recife, e agora está na 1ª edição do Plataforma Súbita – Encontro Internacional de Investigações Cênicas.
Em "Três Luzes”, há um blecaute que traz para a cena uma série de recordações e narrativas sobrepostas, tanto do presente quanto do passado, em uma autoficção sobre a atriz, um pai e uma mãe. Cássia Damasceno - integrante da Companhia Brasileira de Teatro, que já esteve em montagens de grupos de teatro renomados no Brasil e foi premiada diversas vezes por seus trabalhos no cinema, conversou com o Plural sobre a peça que nasceu de um amor e de uma provocação na pandemia. Confira a entrevista da atriz sobre o espetáculo “Três Luzes", que em breve voltará em cartaz na cidade, a seguir.
Como surgiu a ideia de levar para o palco algo tão pessoal como a história do seu pai e da mãe do Aristeu Araújo? Por que o título da peça é "Três Luzes"?
Eu e Aristeu, na pandemia, a gente estava se conhecendo e começando a trocar histórias. Em uma das nossas conversas eu comentei que sempre quis fazer um roteiro. O Aristeu é cineasta e eu sou do teatro, e eu comentei com ele que sempre quis fazer um roteiro sobre a história do meu pai, sobre esse fato específico que meu pai não teve infância, que foi vivendo a vida desse jeito. Ele fugiu para não apanhar e não conseguiu voltar para casa, não foi a intenção dele fugir e ele não conseguiu voltar, e eu queria fazer um roteiro contando isso. Passou um tempo e ele comentou uma história da mãe dele, desse desejo de morar em uma casa com luz elétrica. Ela tinha muito medo da noite, era tudo muito escuro e via ao longe essas três luzes, que eram uma cidade a cinco quilômetros dali.
Estávamos na pandemia e, para aproveitar aquele tempo que a gente tinha, eu provoquei o Aristeu para pensarmos num texto sobre isso. Era uma forma de ficarmos criando e de nos sentirmos vivos, nós dois ficamos dentro de um apartamento, como muita gente, presos em casa sem o que fazer. E a gente depende do público, então era mais difícil ainda. Por que como é que os artistas ficam em casa, sem se inspirar, sem ter público? Começamos a trabalhar sem um horizonte, sem pensar em estrear essa peça, fomos a construindo por satisfação pessoal e ela foi se dando corpo. Depois o Henrique Fontes veio fazer um workshop de dramaturgia aqui em Curitiba, ele é de Natal (RN), assim como o Aristeu. Aí ele disse que iria fazer esse workshop, quando falou isso mostrou que estava dando um passo maior para que "Três Luzes" acontecesse, porque com a dedicação a essa escrita, fazer esse estudo é uma forma de o espetáculo já existir.
O título vem um pouco da história da Berta, a mãe do Aristeu, com as três luzes que acendiam no final da tarde e durante muito tempo foram uma inspiração para a vida dela com o sonho de um dia desejar ter uma casa com energia elétrica, e porque três histórias puxam o espetáculo todo. A história dessa mãe, a história do meu pai e a história de uma mulher que fica presa no elevador. Hoje "Três Luzes" também é o nome da nossa companhia, da produtora de nossos futuros trabalhos, tanto do cinema quanto do teatro.
O espetáculo inicia com um blecaute e avança falando de blecautes e de fobias. Como isso é costurado na peça?
Tanto a história do pai como a história da mãe têm a ver com escuridão, com falta de energia, com crescer nesses lugares escuros e ter medos, quando pensamos no medo dos nossos pais, a gente pensou também em que sonhos eles tiveram nessa infância. E trouxemos um diálogo com todos os pais do mundo, sobre como nos relacionamos com os sonhos deles. A gente pensa se nossos pais realizaram seus sonhos? Na minha infância e na do Aristeu, a gente só os via acordando cedo, indo trabalhar, colocando comida em casa, vestindo os filhos, sempre muito batalhadores, mas essas pessoas tiveram sonhos e não se falava sobre isso. Só se falava sobre ter dinheiro para pagar as contas. Hoje a gente vive uma outra realidade, eu sou atriz e isso é um grande sonho realizado e, pensando na estrutura familiar de onde eu venho, é um grande benefício poder exercer a profissão que escolhi aos 13 anos. Os meus pais trabalharam com que era possível trabalhar, porque precisavam bancar uma casa, sustentar uma família.
Então, para sair do núcleo restrito ao meu pai e a mãe do Aristeu, pensamos em todas as escuridões do mundo e fizemos um levantamento dos blecautes que seriam interessantes; e, da leitura até a mostra de processo, em novembro de 2020, atualizamos esses blecautes. Falávamos sobre a guerra da Ucrânia, depois falamos sobre a Faixa de Gaza, e estamos atentos para ir atualizando e mudando.
Pensando no medo, vieram todas as fobias que nós temos e que, muitas vezes, não temos nem consciência e outras que são construídas pelo próprio contexto em que vivemos, medos de relacionamento, de conexão com o mundo. E a pandemia trouxe outras fobias, está tudo muito ligado. O medo de realizar sonhos, as escolhas envolvidas nisso; a personagem tem devaneios dentro do elevador e coloca todos esses questionamentos, ela também está muito conectada com o mundo em que vive, avançou em algumas coisas, mas ainda tem muito medo de fazer escolhas. A gente diz no espetáculo "nesse momento eu escolhi falar sobre isso", mas diariamente temos muitas escolhas a serem feitas e, dependendo, vamos nos omitindo.
Qual foi o maior desafio na peça? Como é interpretar mais de 10 personagens em um solo?
O maior desafio é você falar de coisas tão particulares. Conheço a mãe do Aristeu, por exemplo, há pouco tempo, mas me emociono muito quando vou dizer o texto dela, eu me lembro dela contando coisas, ela é uma mulher muito vivaz, tem uma energia muito forte, e é ávida a fazer coisas, viver, está sempre perto dos netos e é muito atenciosa. Quando eu falo os textos do meu pai, ele é um cara que não comenta essas coisas, o que eu sei é porque minha avó materna ou alguém falou, ou porque ele deixou escapar alguma coisa e eu fui investigando. Ele nunca falou sobre essa infância dele, então, quando penso nos sonhos que ele teve e que a gente nunca conversou sobre isso, são os momentos mais difíceis da peça, de não poder ficar embargada em cena, de me emocionar e não conseguir dar continuidade na peça. Porque a ideia é contar tecnicamente essas histórias e afetar as pessoas de uma forma reflexiva, para que tomem um posicionamento em relação às suas ancestralidades, de onde você veio. Esse é o momento mais difícil.
Sobre os dez personagens, é um desafio muito bom. Enquanto atriz, é maravilhoso, é um exercício diário, e eu e o Aristeu ainda temos um desafio nisso pelo desejo de fazer as cenas muito descoladas uma da outra. Eu posso estar emocionada numa cena, mas a luz vai apagar e voltar em outra cena, com outra energia. Por exemplo, cada vez que apaga a luz e eu volto para o elevador, não posso trazer rastro da cena anterior, é como se você assistisse em sequência todas as cenas do elevador, mas elas estão intercaladas com outras. Tem que estar com a energia da cena do elevador cada vez que ele aparece, mesmo que eu tenha acabado de sair da cena do menino que vai brincar, que me emociona muito; ele brinca, brinca, e é muito forte para mim. Eu saio dali e tenho que estar inteira na outra cena, e não com rastro dessa. É um desafio maravilhoso, contudo não é uma situação ganha, exige uma concentração em que eu me coloco todos os dias para fazer com muita técnica. O Aristeu fica muito atento com isso, "aqui ainda não está no lugar onde é a peça, aqui precisa de mais esmero, ainda tem uma conexão para fazer com a luz", porque a luz faz muito junto comigo.
E, para a gente atingir essa eficácia e o rigor que a direção pede, é necessário estar muito tempo dentro de um teatro, com uma iluminação, fazendo, fazendo, fazendo, fazendo, que é um primor que se tem no cinema. Como o Aristeu é montador, tem um preciosismo e um rigor nas montagens, e é muito legal, porque ele também está buscando isso no teatro, no palco. É difícil, mas é um desafio maravilhoso.
A música e a luz são muito fortes na peça. Um exemplo é quando, junto com a sua interpretação, a luz faz a plateia sentir a claustrofobia de estar preso no elevador durante um blecaute. Como funciona a troca, o jogo, com os recursos que praticamente contracenam com você no palco?
Em março de 2023, fomos convidados para fazer uma leitura no Novelas Curitibanas, como parte da Curitiba Mostra [Fringe], e como a peça fala de muitos blecautes, o Aristeu já quis fazer com os elementos do texto. Então acionamos colegas em que vínhamos pensado para transformar a ideia em um projeto, o músico Luiz Lepchako, que é do cinema e parceiro do Aristeu em montagens de filmes, e a Nadja Naira, minha parceira que eu conheço há muito tempo, desde 2001, quando atuei em um espetáculo que ela fez a luz, da Cia. Senhas de Teatro, e trabalhamos juntas na Companhia Brasileira de Teatro desde 2008. Convidamos eles porque eram duas criações importantes e imprescindíveis para a leitura, os dois aceitaram de imediato e com as coordenadas do Aristeu, fomos construindo juntos a apresentação. Tudo foi muito rápido, ensaiamos em casa e tínhamos apenas o dia da apresentação para montar e fazer.
No primeiro ensaio no Novelas, convidamos os curadores do Festival, Patrick Pessoa, Danielle Sampaio, e Giovanna Soares, pois eles não poderiam ver a leitura marcada para o mesmo horário das peças da Mostra Lúcia Camargo. Eles foram prontamente e viram no ensaio uma célula do que seria o espetáculo. Notamos que essa leitura funcionou, pela reação do público, e fomos entender a dimensão do que tínhamos escrito, foi maravilhoso.
Depois fomos convidados para a mostra de processos do Festival Midrash, no Rio de Janeiro, pelos curadores Márcio Abreu e Natasha Belini. Foi a mesma situação, entramos no teatro no dia de apresentar, montamos e fizemos; e também foi preciso fazer adaptações, Nádja adaptou a luz e Lepchako foi adaptando a sonoridade para aquele espaço pequeno. Foi a primeira vez que entrou o piano na peça, porque lá tinha um, no Zé Maria [Festival de Curitiba, 2024] usamos; no Teatro da Caixa Cultural não tem, mas o Luiz levou um elétrico e ficou muito bonito.
Para a estreia oficial de "Três luzes", a equipe aumentou?
Em dezembro de 2023, a curadoria do Festival de Curitiba perguntou se aceitaríamos estrear o espetáculo na Mostra Lúcia Camargo. Já tínhamos o desejo de estrear a peça, porém o convite veio num momento em que a gente não tinha elaborado isso, mas a gente se olhou e disse: Sim, vamos estrear. O trabalho estava pronto, apenas precisava de alguns ajustes para estrear bem.
A equipe, que já pensávamos, tinha mais dois profissionais que eu conheci quando comecei a fazer teatro, a Amabilis de Jesus como figurinista, que foi minha professora na Faculdade de Artes do Paraná (FAP), e o Eduardo Giacomini como cenógrafo, com quem eu trabalhei durante muito tempo na Cia. Senhas e depois na Obragem, companhia dele e da Olga Nenevê. O Giacomini até assistiu um vídeo da leitura na mostra e respondeu que já tínhamos tudo pronto, mas a gente explicou que era só uma ideia de cenário, precisávamos do olhar dele para dar um bom acabamento à peça. Aí, o Aristeu deu umas referências e eles fizeram uma visita técnica no Zé Maria e chegaram ao cenário atual, que eu gosto muito e fala muito sobre o espetáculo. E, quando a gente recebeu aquele convite, me veio uma imagem de cabelo, então falei para a Amabilis: o figurino da peça vai ser o meu cabelo. Já o Aristeu disse que queria algum brilho na roupa. Então a gente começou a pesquisar, e aí pensei em alguém que pudesse me ajudar a fazer essa arquitetura do cabelo, foi quando chamei a Kênia Coqueiro, que conheci durante a gravação de um filme.
O projeto foi agregando pessoas e hoje a equipe tem mais de dez profissionais, todos vieram na sequência, ao longo de tudo o que foi acontecendo. Estou muito satisfeita, até porque não é uma equipe do "Três Luzes", é uma equipe que foi sendo construída fazendo.
Qual a emoção de levar para o palco o espetáculo em apresentações quase sempre com ingressos esgotados?
Tem um significado muito bonito de poder colocar esse espetáculo em palco, pois a pensou nele lá na pandemia, em um momento onde não sabíamos se continuaríamos vivos, não tinha vacina, era uma calamidade, perdendo vários amigos. A minha mãe, inclusive, morreu em 2020, não foi de Covid, mas a mãe faleceu nesse ano. Então, foi tudo muito intenso e hoje eu penso muito quando vou para o palco, penso nos meus pais, nos pais do Aristeu, e em todos os pais do mundo.
Acredito que "Três Luzes" conversa com histórias de várias pessoas, algumas já vieram falar comigo sobre isso. Tem os que se emocionam muito na peça e não sabem dizer exatamente o que trouxe, o que veio, quais histórias os afetaram, onde pega, e pega em lugares muito delicados, lugares que eu nem imagino. Eu desejo que a peça pegue nas pessoas de uma forma bonita e reflexiva, porque uma pessoa estava chorando muito numa sessão e tomara que a peça não deixe ninguém deprimido, porque a ideia não é essa. A ideia é fazer pensar sobre de onde a gente vem, pensar nos nossos pais e sobre como pensar e fazer um futuro a partir da humanidade mesmo, porque aprendemos a ser humano com os nossos pais. Não quer dizer que os pais sejam maravilhosos, tem pais que são terríveis. Mas, independente disso, pensar de onde a gente veio e que pais nós somos hoje, para quem tem filhos. Isso é uma forma de você pensar no mundo onde vive também, tudo está relacionado, pois as pessoas que fazem as guerras são filhos e são pais, as coisas estão muito conectadas.
Então, estrear no Festival e depois entrar em cartaz na Caixa Cultural de Curitiba, Fortaleza e Recife, e agora apresentar a peça na 1ª edição do Plataforma Súbita, está sendo lindo, foi um presente gigante para mim, para o Aristeu, e para os nossos pais. Meu pai não tem qualquer ideia sobre essa peça, eu quero que ele veja quando formos a Londrina-PR, ele mora lá e meus irmãos e irmãs poderão estar junto, para poderem o confortar. A mãe do Aristeu sabe da peça, mas não do conteúdo todo, sabe que usamos a voz dela; eu coloco um áudio vindo de um celular com uma mulher cantando, é ela quem está cantando. Porém não sabe os textos nem o contexto do que a gente colocou, e ela quer muito ver e nós temos o desejo de levar para Natal-RB, para que a mãe dele também possa assistir lá.
Espetáculo "Três Luzes", na 1ª edição do Plataforma Súbita
Nesta quarta-feira (7), às 19h30, no Teatro Cleon Jacques (com Libras, audiodescrição e bate-papo após o espetáculo). Ingressos gratuitos distribuídos a partir de uma hora antes da apresentação.