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Conheça a história do Tuca, o teatro devastado por incêndio na PUCPR

O espaço foi palco de nomes como Gerald Thomas, Bete Coelho, Felipe Hirsch, Tiago Iorc, Toquinho, Desmond Tutu e Domenico De Masi 

Conheça a história do Tuca, o teatro devastado por incêndio na PUCPR
Tuca após reforma, em 2020. Foto: João Sarturi/reprodução do site Antonio Abrão Arquitetura.
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A noite de 15 de abril começou com mensagens se espalhando pelas redes sociais. Gente chocada, triste e preocupada com o que estava acontecendo. Um incêndio na PUC destruía o Bloco Azul. Graças à eficiência de brigadistas e bombeiros, não houve vítimas. Entre fuligens e cinzas, o que se perdeu na tragédia foram vigas de concreto, equipamentos, móveis e outras coisas do gênero. Porém não só.

O edifício era endereço do principal espaço cultural da instituição, o Teatro Universitário Católico, o Tuca. 

(Fotos de: João Sarturi, em 2020/reprodução do site Antonio Abrão Arquitetura.)

O Tuca nasceu para atender necessidades institucionais da universidade, faltava um espaço maior e melhor do que os auditórios existentes no campus até 1995, usados para formaturas e eventos. O motivo era mais do que louvável - entretanto a odisseia de erguer um teatro começou pela iniciativa de duas personalidades fundamentais na vida da PUCPR, o reitor emérito Irmão Clemente Ivo Juliatto (1940-2022) e o diretor teatral Laércio Ruffa (1955-2013). 

Juliatto, naquele tempo, era vice-presidente da mantenedora da entidade, a Sociedade Paranaense de Cultura. Ele foi um dos grandes responsáveis pela estruturação do campus em Curitiba e o amor dele pelas artes era notório, como relembra o consultor e técnico de áudio Mauro Chaves. “Na PUC, principalmente na época do irmão Clemente, que era muito chegado à arte, quase todos os eventos tinham uma relação entre mundo acadêmico, congresso científico e arte, sempre com uma apresentação musical, uma interpretação ou leitura dramática. Era muito comum esse tipo de evento com cultura", fala o profissional que prestou consultoria ao lado do renomado cenógrafo e figurinista Carlos Kur (1934-2022), para a construção do espaço.

Por sua vez, Ruffa trabalhou no grupo teatral da PUCPR, o Tanahora, por 25 anos, a partir de 1988, e ainda foi professor e coordenador do curso de Bacharelado em Teatro da universidade. Como recorda o ex-integrante da trupe e ex-assistente do diretor, Cícero Lira, não existia até então um local adequado para ensaios e espetáculos: “Tanto a estreia do Lineu Portela [primeiro diretor do grupo], quanto a do Laércio, foram no auditório de Ciências Humanas, que não tinha coxia, não tinha nada. Tudo era adaptado para as apresentações.” Lira, que hoje é ator, produtor e jornalista, conta que Ruffa não pensava somente no sucesso do grupo, sonhava com um lugar que também pudesse receber apropriadamente a efervescência cultural da universidade. “Um espaço para o próprio uso do Tanahora e para as apresentações do Coral [Champagnat] e da Orquestra da PUC.” 

O próximo a entrar em cena foi um dos arquitetos da turma de talentos mais revolucionários de Curitiba. Ele, Manoel Coelho (1940-1921), coordenou o plano diretor da universidade, com a construção de vários edifícios, e projetou o Tuca, em 1995. O sucessor e guardião do legado dele, o arquiteto Antonio Abrão, lembra-se de que o teatro foi o primeiro projeto em que trabalhou ao entrar para o escritório de Coelho. “O espaço era parte do bloco didático [Azul], com seus três pavimentos, e já estava em obras quando cheguei; as lajes tinham sido cortadas para tirar esse, vamos dizer assim, ‘caixão’, onde seria inserido o teatro".  

A construção avançou e, onde no prólogo existia apenas um auditório, surgiu o TUCA, com 1.200 m², equipamentos invejáveis, 11 metros de boca de cena e 580 lugares. Para quem por algum momento pensou que se tratava de um espaço pouco relevante, ele abriu as portas com 100 lugares a mais do que a capacidade do Guairinha (considerado a catedral dos teatros de Curitiba por nomes como o célebre iluminador Beto Bruel e o próprio Chaves).

Estreia

A estreia oficial da temporada de quase 30 anos do teatro em atividade aconteceu em 1996 e, como não poderia ser diferente, quem subiu ao palco foi o Tanahora, para encenar “Otelo", de Shakespeare, com direção de Ruffa. Todas as montagens seguintes sob a batuta do mesmo diretor subiram naquele palco, a última foi "Homem ao vento", com texto de Marcos Damasceno que anos mais tarde ganhou o Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia; bem como muitas dirigidas por seu sucessor, Chico Nogueira, como "Assim é (se lhe parece)". Contudo, nas lembranças do técnico Mauro – que, a pedido do Irmão Clemente, cuidou do Tuca ao longo do tempo até o dia do incêndio – os primeiros aplausos aconteceram antes da peça, em outros eventos.

Independente da data exata, a inauguração foi o início de um capítulo importante da arte curitibana, quando o grupo da PUCPR produziu muito tendo à disposição um teatro novo e equipado. Pelas equipes e elencos do Tanahora dessa época, passaram Paulo Biscaia Filho, Ana Fabrício, Cida Stier e Eduardo Giacomini, entre muitos outros, e também surgiram ali nomes que logo ultrapassaram as fronteiras da cidade como o ator Licurgo Spínola, com carreira no teatro, cinema e TV, e a atriz Thais Tedesco. 

Ela, antes de partir de Curitiba para interpretar papéis em séries televisivas, como Hilda Furacão, esteve (junto com Edson Rocha, Erica Migon, Márcio Mattana e Ênio Carvalho) no elenco da primeira peça da mostra principal do Festival de Curitiba apresentada no Tuca, em 1997. Era o espetáculo "Nora", dirigido por Felipe Hirsch, que foi um divisor de águas na carreira dela. “A minha referência do Tuca foi muito especial porque estreei lá com o espetáculo no 6º Festival de Teatro de Curitiba, no papel da protagonista, a Nora. Eu me lembro dessa cena, dessa entrada naquele belíssimo espaço que era o Tuca, um grande teatro com equipamentos de primeira, enfim, uma casa em que qualquer ator adoraria estar, atuar. Foi um grande momento para mim.” Ela recebeu a notícia da tragédia em companhia da diretora, produtora e atriz curitibana Nena Inoue. "Nós duas ficamos bastante abaladas com a informação de que o teatro pegou fogo", comenta Thais.

Na mesma edição do festival, o teatro foi palco da peça de Gerald Thomas "Os Reis do Iê-Iê-Iê", no elenco além do próprio autor e diretor, estavam Bete Coelho, Luiz Damasceno, Domingos Varella, Gilda Barbosa da Silva, Dionisio Neto, Renata Jesion e Raquel Rizzo. Apresentar o espetáculo no Tuca, segundo Bete Coelho, foi um momento crucial em sua vida. “Foi a partir dessa peça em Curitiba que rompi com os esquemas já conhecidos do fazer teatral, sobretudo a parceria com Gerald Thomas, para me arriscar e construir minha própria companhia, que só foi se estabelecer anos depois. Porém, foi esse caminho que me possibilitou fazer “Cacilda”, com Zé Celso, duas montagens com Bob Wilson, ser dirigida por Paulo Autran, entre inúmeras outras experiências com artistas de várias escolas e estilos, ampliando e definindo bastante o que produzimos atualmente na BR116 Teatrofilme", diz ela.

Outros incontáveis momentos de glória ainda foram testemunhados naquele espaço, descrito por Abraão como em formato de “uma ‘caixa de sapato’ com palco italiano, o que favorece com que todos os lugares tenham excelente qualidade visual e acústica”. Fora as inúmeras formaturas e eventos que conquistaram os aplausos da plateia lotada, Chaves recorda de apresentações como as de Tiago Iorc, que ganhou fama a partir de 2006, quando cantou num festival da PUCPR "Scared", de Three Days Grace, (a canção depois foi trilha sonora de telenovela); shows dos cantores Ellen Oléria e Sam Alves; dos músicos Toquinho, Mauro Senise, Derico e Helinho Brandão; do pianista Arthur Moreira Lima; de Fernando Anitelli, com a orquestra da PUC; e de Padre Zezinho. Entre as personalidades que passaram por ali, o técnico lembra-se do Arcebispo Desmond Tutu (1931- 2021), ganhador do Nobel da Paz, e do sociólogo italiano Domenico De Masi (1938-2023). Nas lembranças de Lira, estão a apresentação de Marisa Orth, na abertura do curso de Bacharelado em Teatro, em 2010; Marília Gabriela, no monólogo dirigido por Antonio Fagundes “Aquela mulher”, em 2009; e a peça “Suíte 1”, da Cia Brasileira. 

Da água ao fogo

Por cruel ironia do destino, o Tuca antes do fogo sofreu nas mãos de outra personagem. Em 2019, quando uma tempestade entrou em cena no Prado Velho, o drama foi a água que invadiu a plateia até o palco, para dar fim a uma formatura de Psicologia. Não foi a primeira atuação da vilã no teatro, mas, sim, a maior. 

(Foto de: Amanda Castro/Reprodução do site Contraponto.)

Só com uma grande reforma foi possível receber novamente o público, e o projeto, mais uma vez, teve a assinatura dos arquitetos Manoel Coelho e Antonio Abrão. “A área da PUC é ao lado do Rio Belém e, antigamente, tinha muita inundação. Como o acesso ao teatro era pelo térreo do Bloco Azul, você descia à plateia e o fundo era um metro e pouquinho abaixo do nível externo; cada vez que inundava, a água entrava, pegava carpê e poltronas. Então, fizemos um acesso em volta na parte do foyer no retrofit, para poder elevar um pouco mais de um metro do chão, reestruturamos toda essa parte para evitar futuras inundações, resolvemos as questões de acessibilidade em geral e para o palco, e também questões técnicas de melhoria de cenotecnia, conforto e acústica do espaço", explica Abrão. Antes de contar que apesar do aumento da capacidade para 640 lugares, a reinauguração em 2020 não pôde ter grande festa por imposição da pandemia, ele diz um tanto desolado: “O Tuca estava bem bonito." 

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Veja como era o teatro antes do incêndio. (Vídeo da PUCPR com Professor André Turbay, "Conheça o novo TUCA, palco do Revele Seu Talento", de 2021.)

Cinco anos depois, o fogo consumiu toda a beleza. A perda do espaço apaga os sorrisos que brilharam ali no passado e eram dados como certos no futuro. Fora atividades acadêmicas (algumas seriam na mesma semana em que o incêndio aconteceu), novos sucessos logo entrariam em cartaz, como o Festival de Curitiba. Na edição deste ano do evento, o gerente da PUCPR Cultura Douglas Moreira, esteve na Rodada de Conexões e a produção do festival chegou a fazer uma visita técnica no teatro. 

Para a diretora do Festival de Curitiba Fabíula Bona Passini, a tragédia é uma grande perda para as artes cênicas em Curitiba. “O Tuca estava reformado e pronto para continuar suas atividades recebendo grandes espetáculos. Foi um palco muito importante por diversos anos do Festival de Curitiba e deixa uma lacuna significativa na infraestrutura cultural da cidade”, fala a diretora. 

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Veja como ficou o Tuca após o incêndio. (Vídeo da Polícia Científica do Paraná.)

Reestreia

Todos os que viveram ao menos um momento de felicidade entre a plateia e os bastidores, ou no palco dali, foram tomados pela tristeza diante das cinzas. Agora, com o passar dos dias, o pesar vai se apagando para dar espaço à esperança de que a história não termine aqui. Como bem diz a artista Bete Coelho, "o teatro sempre renasce, e torço para que o Tuca também retorne”; para Mauro Chaves, não há qualquer sombra de dúvida, "ele vai nascer de novo!" 

A PUCPR explica que ainda não foi possível dimensionar o tamanho real do prejuízo, mas uma coisa é certa: "Sim! A universidade quer a reconstrução do Tuca.”

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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